
A CAVERNA DOS MAGOS


Fascinantes Histrias sobre Magia e Magos


Organizao: PETER HAINING

Traduo: Roberto Argus

BERTRAND BRASIL

Copyright (c) 2001 by Seventh Zenith Ltd.

Ttulo original: The Wizards' Den

Capa: Silvana Mattievich

2003
Impresso no Brasil
Printed in Brazil

CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ

C374c        A caverna dos magos: fascinantes histrias sobre magia e
magos/organizao Peter Haining; traduo Roberto Argus. - Rio
de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003
256p.


Traduo de: The wizards' den
ISBN 85-286-1036-5

1. Magia - Fico. 2. Magos - Fico. 3. Mgicos - Fico.
4. Antologias (Literatura fantstica). I. Haining, Peter, 1940-.
II. Argus, Roberto.
CDD-808.8015 03-1550
CDU-82-312.9

Todos os direitos reservados pela:
EDITORA BERTRAND BRASIL LTDA.
Rua Argentina, 171 - 1. andar - So Cristvo
20921-380-Rio de Janeiro- RJ
Tel: (0xx21) 2585-2070 - Fax: (0xx21) 2585-2087
No  permitida a reproduo total ou parcial desta obra, por quaisquer
meios, sem a prvia autorizao por escrito da Editora.
Atendemos pelo Reembolso Postal.

                                   *
Este livro  dedicado a
JAMES, CHARLIE e BEN,
trs pequenos magos


A magia exerce uma atrao universal.

J. K. ROWLING, autora da srie Harry Potter
Reader's Digest (dezembro de 2001)


                                   *
L em alguma caverna sombria onde os magos
preparam seus encantamentos.

ANN RADCLIFFE
Os mistrios de Udolpho (1794)


                                  * *
SUMRIO

- O Mundo da Magia, por Peter Haining

- O Professor de Lara e o Encantamento de Dois Centavos, de E. Nesbit

- Escola para o Extraordinrio, de Manly Wade Wellman

- O Diretor Demnio, de Gillian Cross

- Bandos de Fantasmas, de Humphrey Carpenter

- Grimnir e a Alteradora de Formas, de Alan Garner

- O Misterioso Oliver, de Russell Hoban

- Os Guardies do Descobridor, de Joan Aiken

- Os Endiabrados, de William Harvej

- A Magia de Voar, de Jacqueline Wilson

- O Enigma Chins, de John Wyndham

- O Desejo, de Roald Dahl

- O Menino Invisvel, de Ray Bradbury

- Meu Nome  Dolly, de William E Nolan

- Algo para Ler, de Philip Pullman

- O Centsimo Sonho de Carol Oneir, de Diana Wynne Jones

- Agradecimentos

                                  * *

O MUNDO DA MAGIA

    Se um dia voc for  pequena aldeia de Cader Idris, em Corris, no vale das grandes montanhas
Welsh, encontrar a entrada de algumas cavernas enormes, conhecidas como Labirinto do Rei
Arthur. Em seu interior, est sentado um menino mago chamado Myrddin, popularmente conhecido
como Merlin, que uma vez profetizou a chegada do guerreiro rei Arthur e previu a batalha entre um
drago branco e um drago vermelho pelo futuro da nao galesa. O menino, de aparncia
inteligente e cabelo louro, em sua tnica de tecido de saco, no  real, claro, e sim um modelo
aparentemente vivo de um dos muitos magos que, durante geraes, praticaram a sua antiga arte da
magia.
Porque, acredite, os magos so reais e no apenas personagens imaginrios das mentes de
contadores de histrias como T. H. White, J. R. R. Tolkien e, mais recentemente, J. K. Rowling.
Fato  que os magos tm estado por a h sculos. Na Bblia, no Captulo 19 de Isaas, eles so
chamados de "feiticeiros", e voc pode encontr-los tambm nos poemas de John Milton, que
mencionam "magos com estrelas reluzentes... exalando doces odores", e na pea de Shakespeare A
tempestade, apresentando o mago Prspero. Na maioria das vezes, so descritos como homens mais
velhos: altos, com barba, cabelo ondulado, vestindo longos mantos decorados com smbolos
msticos e segurando bastes mgicos. Tambm existem as mulheres feiticeiras, conhecidas como
magas, e uma, muito famosa,  mencionada por Percy Shelley em seu livro de fantasia "A bruxa de
Atlas" com as seguintes palavras: "Todos os dias aquela senhora maga sentava-se reservadamente,
decifrando rolos de Venervel antigidade." No obstante, cada uma daquelas pessoas comeou o
aprendizado da magia quando ainda jovem, e no poucas, subseqentemente, se tornaram o foco de
mitos e de lendas, bem como de inspirao para contos. No passado, sempre se falava a respeito
desses fazedores de magias em sussurros, numa mistura de temor e respeito; hoje, eles talvez sejam
mais conhecidos como "magos".
Ento, o que  um mago? Segundo os dicionrios, so pessoas conhecedoras das artes
ocultas e que praticam a magia e a feitiaria. Tambm so sbios, podem ver o futuro e hipnotizar
pessoas comuns. Foram instrudos na magia e nos encantamentos e usam uma linguagem
caracterstica, muito diferente das expresses comuns freqentemente associadas  magia, como
Abracadabra! e Abre-te, Ssamo! Os magos vivem em um mundo em que praticamente tudo 
possvel: conseguem alterar a prpria aparncia - uma habilidade conhecida como "mutao de
forma"-, transfigurar todos os tipos de objetos inanimados e at se tornar invisveis. Podem ver
fantasmas, evocar poderes sobrenaturais e criar enorme felicidade ou pr em prtica uma terrvel
vingana. Mas os magos no so maus. Apesar de alguns deles terem cedido s tentaes e feito
mau uso desses poderes, no os usam necessariamente para infligir danos. Embora possam faz-lo,
ao lutar contra pessoas ms e criaturas mortais ou quando envolvidos em batalhas contra as foras
das trevas.
Um dos primeiros livros de contos sobre magos foi O mago desmascarado, escrito em 1652.
Ningum sabe quem foi o seu autor, mas, acredita-se, pode muito bem ter sido um mago,
considerando o conjunto de informaes que o livro contm acerca da arte secreta. Ele at apresenta
a lista de alguns magos sobre os quais se comentava que faziam magia em Londres naquela poca.
Havia o "homem astuto" em Bankside, um "mago peludo" em Pepper Alley e o "doutor Forman",
com as suas "bochechas de gaita-de-foles" em Lambeth. Ainda mais intrigante eram a me
Broughton, em Chick Lane, e o jovem mestre Oliver, que vivia em Turnbull Street. Ele,
obviamente, foi um bom discpulo e aprendeu a arte da magia com mais rapidez do que a maioria.
Embora pouco se saiba sobre Gliver alm de seu nome, ele fez parte de uma tradio antiga e foi
precursor de alguns jovens magos mencionados neste livro..

                                  * *

Um mago Tradicional evocando alguns espritos interessantes em seu crculo mgico.

Infelizmente, embora o livro O mago desmascarado contenha a figura de um mago em
atividade em seu crculo mgico, no apresenta um retrato do extraordinrio mestre Oliver.
Entretanto, muito mais coisas so conhecidas sobre o menino mago Merlin, que cresceu
para ser, provavelmente, o fazedor de magias mais famoso da histria. Os fatos sobre a vida de Merlin
so,  verdade, envoltos em mistrio, mas acredita-se que ele tenha vivido no final do sculo "VI".
Comenta-se que foi um "menino sem pai", que cresceu em Carmarthen, estudando magia com um sbio famoso, Blaise de Brittany.
Foi em Gales que Merlin comeou a ganhar a reputao de profeta,
quando vaticinou a chegada do rei Arthur. Ele tambm ofereceu orientao ao rei gals
Gwrtheyrn, quando o monarca tentava construir um castelo em Dinas Emrys. Merlin disse que
aquilo jamais se concretizaria devido a dois drages, um branco e outro vermelho, que dormiam em
um lago subterrneo nas proximidades. Quando Gwrtheyrn ordenou que o lago fosse drenado, os
dois drages despertaram e comearam a lutar, at que o vermelho finalmente triunfou. Embora
Gwrtheyrn ainda no fosse capaz de construir sua fortaleza, diz-se que aqueles acontecimentos
foram o motivo pelo qual o drago vermelho tornou-se o emblema nacional do Pas de Gales.
Atualmente, Bryn Myrddin, a "Colina de Merlin", em Carmarthen comemora os dias da
juventude do mago e h rumores de que aquele  o lugar em que ele ainda dorme, aprisionado,
conta-se, por ter revelado alguns de seus segredos de magia. Segundo uma lenda local, os "lamentos
fantasmagricos" de Merlin podem ser ouvidos em noites escuras, tempestuosas, vindos das
profundezas da colina.
Merlin tambm  associado  Cornualha, onde se estabeleceu anos aps vaguear pelo pas,
tendo como nico companheiro um porco selvagem. Ali, no castelo Tintagel, diz-se que o Merlin e
seu discpulo, o jovem rei Arthur, encontram-se com a Senhora do Lago.

                                   *

O menino Arthur nasceu destinado a ser um dos maiores reis ingleses, e Merlin usou a sua magia para se tornar um
membro inestimvel da corte e aliado dos famosos Cavaleiros da Tvola Redonda. De acordo com outra
lenda, o mago empregou seus poderes para transportar, desde seu lar original, na Irlanda, suas
rochas gigantescas, que agora formam Stonehenge. Elas foram reunidas, voaram sobre o mar da
Irlanda at a plancie de Salisbury e, depois, foram ali organizadas segundo os planos de Merlin. As
lembranas do grande mago so mantidas vivas em Tintagel por uma caverna sob o castelo no topo
do despenhadeiro, conhecida como a "Caverna de Merlin", e tambm nas pginas do clssico
romance de fantasia "A espada na pedra", de T.H. White, que reconta a histria da infncia de Arthur e
o papel do mago como seu tutor.
                                   *
Merlin e seu discpulo, o jovem rei Arthur, encontram-se
com a Senhora do Lago.
                                   *
No norte da Inglaterra, em Alderley Edge, num ngreme despenhadeiro de arenito que se
ergue da plancie de Cheshire, pode-se encontrar um poo dos desejos que tambm  associado a
Merlin. No poo, formado por uma fonte natural, h a seguinte inscrio:

"Beba desta at se saciar,
Porque a vontade do mago faz a gua jorrar".

Acredita-se que Merlin realizou uma de suas maiores proezas de magia naquele local,
abrindo macios portes ocultos na face da rocha para revelar uma imensa caverna. L dentro, o rei
Arthur e seus cavaleiros estavam adormecidos, esperando o chamado, quando os ingleses mais uma
vez necessitassem de sua coragem e bravura. Essa lenda foi utilizada no famoso romance A pedra
encantada de Brisingamen, de Alan Garner, que contribuiu para este livro.
                                   *
A Esccia tambm tem as suas histrias de magos. Em Selkirk, encontra-se a torre de
Oakwood, o lar de Michael Scot, que, assim dizem, compilou um volume de feitios e
encantamentos conhecido como Livro de poder. Scot viveu nos primeiros anos do sculo XIII e
aprendeu os segredos da magia em Paris.
Segundo a lenda, ele foi um astrlogo e vidente brilhante, com tamanho controle de magia,
que uma vez voou para a Frana montado em um cavalo demonaco. Acredita-se que o Livro de
poder tenha sido sepultado com ele na abadia de Melrose. 
                                   *
Mais prximo a nossa poca, no sculo XVIII, outro escocs, Alexander Skene, foi para a
Itlia quando ainda era adolescente a fim de aprender tudo sobre como se tornar um mago.
Quando retornou a Aberdeen e viveu no local agora chamado de Skene House, seus poderes
mgicos eram de tal ordem, que ele se tornou conhecido em toda a redondeza como "o mago
proprietrio de terras". Conta-se que ele jamais produziu uma sombra, nem mesmo sob a mais
intensa luz do sol, e viajava a todos os lugares com quatro pssaros - um corvo, um falco, uma
pega e uma gralha - aos quais ele chamava de "meus duendes". Era hbil na elaborao de poes
mgicas com ervas colhidas nos vales locais, empregando-as contra inmeros fazedores de mal. Na
comarca de Aberdeen, ainda hoje se repetem histrias sensacionais sobre o "mago proprietrio de
terras".
                                   *
Outra narrativa popular escocesa famosa, "O aprendiz de feiticeiro", coletada por J. F. Campbell
e publicada em seu livro Contos populares das montanhas da Esccia, em 1860, conta a
histria do filho de um jovem fazendeiro que foi treinado nos caminhos da magia por um feiticeiro.

"Uma aula de magia na Escola de Magia
do Grande Mago, Fiachaire Gobha."
O rapaz aprendeu a lanar encantamentos e tambm se tornou especialista em metamorfose",
transformando-se em cachorro, touro, cavalo e at mesmo em um par de foles durante um estranho incidente.
O que torna essa histria particularmente interessante  a referncia  Escola de Magia
do Grande Mago que o velho freqentou e para onde enviou seu jovem discpulo.
Na histria, h pouqussima informao autntica a respeito da escola, embora haja uma
sugesto de que ela estivesse localizada na Itlia e que talvez tenha sido o mesmo estabelecimento
freqentado por Alexander Skene.  mais provvel que estivesse situada na Esccia, possivelmente
em um canto remoto das montanhas ocidentais. De qualquer maneira, pode ser considerada a
precursora da Escola Hogwarts de Feitiaria e Magia, de Harry Potter, que tambm est localizada
em um remoto castelo escocs.
                                   *
Evidncias a respeito de magos tambm podem ser encontradas em outros locais. Algumas
vezes, eles parecem ter aterrorizado tanto as pessoas, que alguns tiveram o mesmo destino de
Thomas Sche que, em 1596, foi queimado na estaca. H referncia a uma acusao, em 1751, sobre
"uma grande multido em Tring (Hertfordshire) que declarou vingana contra Osborne e sua
esposa, acusando-os de mago e feiticeira", e, um sculo mais tarde, o autor, William Hone, em seu
Every-day Book relata que, em julho de 1825, "um homem foi afogado, sob a acusao de ser mago
em Wickham Skeith (Suffolk)". 
                                   *
Outros escritores falam mais favoravelmente a respeito das atividades
dos magos, incluindo Henry Mayhew em sua obra London Labour and the London Poor (1851 - 62),
citando um homem: "Considero-me um mago, o que significa conjurador, astrlogo e leitor da sorte".
                                   *
Trs famosos magos do sculo XIX tambm so mencionados em obras de fico:
Sir Walter Scott descreve "lorde Gifford, em sua estranha vestimenta de mago", em Marmion
(1808); Gerald Dow, o mago nascido na Holanda,  mencionado por Nathaniel Hawthorne,
praticando sua arte nos Estados Unidos em Tangkwood Tales (1853) e Rudyard Kipling refere-se,
em Life's Handicap (1891), a "Juseen Daze, o mago que tem a cabea do macaco falante".
                                   *
Magos de todas as pocas tambm continuaram a aparecer na fico moderna. Em 1900, a
pequena Dorothy ps-se a caminho para encontrar O mgico de Oz, na histria de L. Frank Baum.
Ela foi seguida, em 1938, pela obra de T. H. White, A espada na pedra, apresentando o menino
Wart, a quem Merlin ensinou a estria do filho de um jovem fazendeiro que foi treinado nos
caminhos da magia por um feiticeiro, Fiachaire Gobha.
                                   *
Trs famosos magos do sculo XIX tambm so mencionados nos caminhos da
magia e que se metamorfoseou em diversos animais para aprender seus caminhos. Wart foi descrito
como um ancestral espiritual de Harry Potter, uma opinio com a qual qualquer um que leia o livro
provavelmente concordar. Merlin reapareceu em ThatHideous Strength por C. S. Lewis (194S).
Em 1968, J. R. Tolkien apresentou outro personagem maravilhoso, o mago Gandalf, em
O senhor dos anis. Em suas pegadas, chegou, por J. K. Rowling, o jovem e verstil Harry Potter,
aprendiz de mago na Hogwarts School, continuando a tradio de magia de fato e fico que se
comprovou to fascinante aos leitores de todas as idades.

                                  **

Espero, sinceramente, que as histrias que escolhi para este livro, acerca dessa tradio h
muito existente - comeando com "Professor de Lara e o encantamento de dois centavos", de E.
Nesbit, a escritora da qual J. K. Rowling admitiu ter recebido enorme influncia -, transportem
voc, leitor, ao mundo da magia onde qualquer coisa, e quero dizer qualquer coisa mesmo, 
possvel. E, assim espero, se a magia no for excessivamente poderosa, que lhe permitam retornar
em segurana...

PETER HAINING
Dolgellau, Pas de Gales
Abril de 2001

                                  * *

A CAVERNA DOS MAGOS

                                  *

    O PROFESSOR DE LARA E O ENCANTAMENTO.

E. Nesbit

    O professor Doloro de Lara - para cham-lo por seu nome completo -  um profundo conhecedor
de Magia (Branca) e da Arte Negra. Ele  bastante alto, tem aparncia um pouco assustadora, olhos
negros e boca indescritvel, como a definem algumas pessoas que o conheceram. Ele tambm
consegue alterar a prpria aparncia num piscar de olhos. Os anncios do professor dizem que
instruir jovens alunos em seus prprios lares, sem custo adicional, e oferecem "perodos letivos
especiais para escolas". Ele quase poderia ser um membro do staff da escola de Harry Potter,
Hogwarts, o que no  de surpreender, pois desde criana J. K. Rowling foi muito influenciada
pelos livros de E. Nesbit, autora que tambm escreveu sobre magos e magia e preferia assinar suas
obras com apenas uma inicial. Nesta histria, uma menina chamada Lucy deseja que o professor
de Lara lhe fornea um encantamento para dar uma lio em Harry, seu irmo amedrontador. Mas
a magia teve um resultado de certo modo inesperado, como voc descobrir...

                                  *   *

    Lucy era uma menina realmente muito boa, e Harry no era to mau - para um menino, embora os
adultos o chamassem de malandro! Ambos iam muito bem na escola e no lhes faltava amor em casa.
Talvez Lucy fosse um pouco boba, e Harry era, sem dvida, suficientemente grosseiro para cham-la
disso, mas ela no precisava ter retrucado, chamando-o de "besta". Creio que ela fez isso, em parte,
para lhe mostrar que no era to boba quanto ele pensava e tambm porque estava muito aborrecida
por ter sido enterrada at a cintura entre os arbustos de groselha espinhosa. Lucy entrou no buraco
que Harry havia cavado porque ele lhe disse que aquilo iria faz-la crescer. Porm, repentinamente,
ele pegou uma p e jogou no buraco uma grande quantidade de terra, pisando-a em seguida, de
maneira que Lucy no conseguia se mover. Ela comeou a chorar, por isso Harry a chamou de boba
e ela retrucou "besta". Ele se afastou, deixando-a "plantada l", como dizem os franceses. Ela gritou
mais do que nunca, tentando livrar-se, mas no conseguiu. Embora fosse naturalmente uma criana
muito doce, Lucy teria sapateado de raiva, se apenas conseguisse tirar seus ps dali. E, ento,
berrou ainda mais. Logo apareceu o tio Richard, que a tirou dali, dizendo que aquilo era uma
vergonha e dando-lhe dois centavos a Lucy para gastar como quisesse. Lucy pediu  ama-seca que a
limpasse daquela terra suja de groselha e, quando estava limpa, saiu para gastar os dois centavos.
Tinha permisso para ir sozinha, porque as lojas ficavam prximo de sua casa, do mesmo lado da
rua, no havendo, portanto, o perigo dos cruzamentos.
- Vou gastar cada centavo s comigo - disse Lucy, feroz. - Harry no vai ganhar nada, 
a no ser que eu consiga pensar em alguma coisa da qual ele no goste e que eu possa colocar em 
seu po e leite! - Ela jamais havia se sentido to malvada antes, mas, por outro lado, Harry nunca 
tinha sido to desagradvel.
Andou lentamente diante das lojas, desejando pensar em alguma coisa que Harry odiasse. 
Ela mesma odiava minhocas, mas Harry no se importava com elas. Meninos so to 
estranhos.
Repentinamente, viu uma loja que no notara antes. A vitrina estava repleta de flores - 
rosas, lrios, violetas, cravos, amores-perfeitos -, tudo que se possa imaginar, crescendo em um 
amontoado confuso, como se pode ver em um velho jardim no vero.
Procurou no alto o nome da loja. Em vez de um nome ou de, simplesmente, Florista, viu
escrito "Doloro de Lara, professor de magia branca e negra". Na vitrina, um grande cartaz
emoldurado e envidraado informava:

ENCANTAMENTOS FEITOS ENQUANTO VOC ESPERA.
TODOS OS TIPOS DE AMULETOS
CUIDADOSA E TOTALMENTE TRABALHADOS.
FEITIOS FORTES DESDE CINQENTA GUINUSA
DOIS CENTAVOS.
SATISFAZEMOS A TODOS OS BOLSOS.
EXPERIMENTE.
A MELHOR E MAIS BARATA LOJA NO MERCADO.
DESAFIA-SE A CONCORRNCIA.

Lucy leu aquilo com o polegar na boca. O que a atraa era a meno aos dois centavos. 
Jamais havia comprado um feitio. Mesmo um de dois centavos seria novidade. S pode ser algum
tipo de truque mgico, pensou ela, e nunca deixarei que Harry veja como  feito... nunca, nunca,
nunca!

Ela entrou. A loja tambm era florida, parecia um caramancho, com um vermelho-rosado e
um branco-lrio tanto dentro quanto fora. As cores e o odor quase lhe tiraram a respirao.
Um cavalheiro magro, sombrio e desagradvel apareceu repentinamente de um 
caramancho florido de beladona e disse:
- O que posso fazer hoje pela senhorita?
- Por gentileza, quero um feitio - disse Lucy. - O melhor que puder fazer por dois
centavos.
- Isso  tudo o que tem? - perguntou ele.
- Sim - respondeu Lucy.
- Bem, no pode esperar muito de um feitio por esse valor - disse ele. - Entretanto,  
melhor que eu tenha esses dois centavos do que eles fiquem com a senhorita. Acho que 
compreende, claro! Agora, do que gostaria? Podemos fazer um pequeno e interessante feitio por 
seis centavos que far com que jamais falte gelia para acompanhar o ch. Tenho outro artigo de 18
centavos que far com que todos os adultos sempre pensem que voc  boa, mesmo que no o seja, 
e por meia coroa...
- S tenho dois centavos.
- Bem - disse ele, rabugento -, s existe um feitio por esse preo, que, na verdade, 
custa dois centavos e meio, mas... digamos dois centavos. Posso fazer com que voc goste de 
algum e que esse algum goste de voc.
- Obrigada - retrucou Lucy -, gosto da maioria das pessoas e todos gostam de mim.
- No  isso que quero dizer. No existe algum que voc gostaria de ferir se fosse to 
forte quanto ele e se ele fosse to frgil quanto voc?
- Sim - respondeu ela em um sussurro de culpa.
- Ento, me passe os dois centavos - disse o sombrio cavalheiro - e, no se esquea, 
trata-se de uma pechincha. - Ele arrancou as moedas quentes da mo dela. - Ento, amanh de 
manh, voc ser to forte quanto Harry, e ele estar to pequeno e frgil quanto voc. Desse modo, 
voc poder machuc-lo quanto quiser e ele no ser capaz de feri-la.
- Oh - disse Lucy -, no tenho certeza de querer isso. Acho que gostaria de mudar o 
feitio, por favor.
- No trocamos artigos - respondeu ele, rabugento -, voc recebeu o que pediu.
- Obrigada - disse Lucy, hesitante -, mas como eu...?
-  totalmente auto-ajustvel - explicou o desagradvel senhor Doloro. - No  
necessrio experincia prvia.
- Muito obrigada - agradeceu Lucy. - Bom...
Ia dizer "bom-dia", mas a saudao transformou-se em "Meu Deus!", porque ela estava 
realmente atnita: de repente, a loja de flores metamorfoseara-se na loja de doces, que conhecia 
muito bem, e o desagradvel senhor Doloro transformara-se na doceira, que lhe perguntava o que
queria, e, evidentemente, uma vez que gastara os seus dois centavos, a resposta foi "Nada!". Ela j
lamentava t-los gasto e da maneira como o fizera e ainda se sentiu pior quando chegou em casa e
Harry reconheceu, elegantemente, estar muito sentido por t-la enganado, mas realmente no 
pensara que ela fosse to tolinha e sentia muito - era isso!
Aquilo tocou o corao de Lucy, que lamentou mais do que nunca no ter utilizado seus 
dois centavos de maneira mais vantajosa. Tentou avisar Harry sobre o que estava prestes a 
acontecer na manh seguinte, mas ele apenas respondeu:
- Esquea isso, o pequeno Billson est vindo para jogar crquete. Voc pode pegar as 
bolas, se quiser. - Lucy no queria, mas aparentemente era a nica coisa que poderia fazer para 
mostrar que aceitava entusiasticamente o pedido de desculpas do irmo por t-la enganado. Assim, 
apanhou as bolas, abatida e ineficiente.

Na manh seguinte, Harry levantou-se na hora, dobrou o camisolo e arrumou to bem o
quarto, que a arrumadeira quase desmaiou de surpresa quando entrou nele. Em seguida, desceu a
escada to rpida e silenciosamente quanto um Camundongo e fez as lies antes do caf da manh. 
Lucy, por outro lado, levantou-se to tarde, que s se vestindo apressadamente  que teve tempo de
preparar uma "pea" para Harry muito boa antes de escorregar pelo corrimo bem na hora em que
soava a sineta do caf da manh. Lucy foi a primeira a entrar na sala. Por isso, conseguiu colocar
um pouco de sal em todas as xcaras de ch antes que mais algum entrasse. Quando o estranho ch
foi provado por todos, Harry foi responsabilizado.
- Fui eu que fiz isso - disse Lucy, mas ningum acreditou.
Disseram que ela era uma irm nobre, generosa, por tentar proteger seu desobediente irmo. 
Harry irrompeu numa torrente de lgrimas quando ela o chutou por baixo da mesa, mesmo 
odiando-se por isso, mas parecia impossvel fazer qualquer outra coisa.
Harry chorou durante quase todo o caminho at a escola, enquanto Lucy insistia em deslizar 
ao longo das sarjetas, arrastando Harry atrs dela. Ela comprou um estilingue na loja de brinquedos 
e uma caixa de tachinhas na loja de pintura. Tudo fiado, mas, como Lucy nunca havia pedido fiado 
antes, conseguiu o que queria.

No topo da Blackheath Village eles se separaram - Harry voltou a sua escola, do outro
lado da estao, e Lucy seguiu em frente, para a Blackheath High School.
A Blackheath High School tinha um saguo enorme e bonito, aonde se chegava por uma
escadaria que mais parecia a de um quadro. Na outra extremidade do saguo, encontrava-se uma
grande esttua de uma bela senhora. As professoras da High School chamavam-na de Vnus 
(francamente, no acredito que seja esse o nome dela).
Lucy - a boa, delicada, pequena Lucy, amada pela professora de sua srie e respeitada por 
todos na escola - sentou-se naqueles degraus (no sei como ningum a pegou) e, com o estilingue, 
lanou bolinhas de tinta (voc sabe o que so, claro!) na bela esttua branca da senhora, at que 
Vnus (se esse for mesmo o seu nome, o que no creio) ficasse toda salpicada de pontos pretos, 
como um co dlmata.
Depois, ela entrou na sala de aula e espalhou tachinhas, com a ponta para cima, em todas as 
mesas e assentos, um ato carregado de obscura retaliao a Blossoma Rand e a Wilhelmina 
Marguerite Asterisk. Outra armadilha: um dicionrio, um pote com gua, trs pedaos de giz e um 
punhado de papel picado foram apressadamente colocados acima da porta. Trs outras garotinhas, 
espectadoras boquiabertas, acompanhavam aquela movimentao. No desejo deix-los chocados, 
por isso nada falarei sobre o total sucesso da armadilha nem sobre a sanginria briga entre Lucy e 
Bertha Kaurter em um campo isolado de handebol durante o recreio. Dora Spielman e Gertrude 
Rook eram suas agitadas "assistentes". A luta foi interrompida no quinto assalto pela professora de 
Lucy, a adorada senhorita Harter Larke, que levou as acusadas, manchadas de sangue, pelo saguo e 
pela bela escadaria ao gabinete da diretora.

As sutis habilidades de comando da diretora da Blackheath High School conquistavam tanto
os pais quanto os alunos. Ela era envolvente demais. Qualquer outra pessoa menos esperta teria
expulsado a desafortunada Lucy, sobrecarregada com a natureza masculina do irmo, perante tal 
prova agora apresentada, mas isso no se aplicava  diretora da Blackheath. Ela evitava fazer 
qualquer julgamento, uma atitude das mais terrveis para um culpado que, por sua vez, ficava 
pensando no assunto por uma hora e meia no gabinete da professora, enquanto ela, em particular, 
escrevia uma nota para a me de Lucy, gentilmente sugerindo que a menina estava agindo de 
maneira estranha, diferente de seu comportamento habitual: talvez estivesse aflita com alguma 
coisa. Talvez fosse melhor se ela ficasse em casa durante um ou dois dias. Lucy foi para casa. No 
caminho, derrubou uma garotinha que andava de bicicleta e levou a melhor em exaltada discusso 
com o filho de um padeiro.
Enquanto isso, Harry j havia enxugado as lgrimas e tinha ido para a escola. Sabia as 
lies, fato incomum e agradvel e, estimulado por grandes esperanas, resolvera envolver-se 
profunda e firmemente dali por diante. Mas, ao sair triunfante da escola matinal, sentira a cabea 
repentinamente golpeada pelo caula dos Simpkins alegando que Harry estava tentando se destacar 
na sala de aula. O golpe havia sido calculado e certeiro. Harry, claro, no revidara. Em uma torrente 
de lgrimas e com a emoo descontrolada, implorara que o pequeno Simpkins o deixasse em paz e 
no fosse violento. Ento, o pequeno Simpkins chutara, e outros de seus pequenos amigos se 
juntaram  ruidosa aglomerao, que se transformara em um festival de chutes.
Quando Harry e Lucy se encontraram na esquina da rua Wemyss, o rosto de Harry estava 
quase irreconhecvel, enquanto Lucy parecia to satisfeita quanto uma rainha e to orgulhosa quanto 
um pavo.
- O que aconteceu? - perguntou Lucy vivamente.
- Todos os garotos da escola me chutaram - respondeu Harry, a voz sem entonao. - 
Queria estar morto.
- Eu tambm - respondeu Lucy, com alegria. - Acho que vou ser expulsa. Sem dvida 
eu seria, mas a minha armadilha caiu sobre a cabea de Bessie Jayne e no sobre a da senhorita 
No-sei-o-nome-dela, e Bessie no  dedo-duro, embora tenha ficado com um galo do tamanho de 
um ovo de avestruz na testa e tambm toda encharcada. Mas acho que acabarei sendo expulsa 
mesmo.
- Gostaria de ter sido - disse Harry, chorando e emocionado. - No sei o que est 
acontecendo comigo. Sinto-me todo errado por dentro. Voc acha que consegue se transformar em 
outras coisas s por l-las? Porque me sinto como se eu estivesse em algum dos livros que o gentil 
padre nos emprestou l na praia.
- Que besteira! - exclamou Lucy. - Pois, para mim,  como se o fato de eu ser ou no 
expulsa no tivesse a menor importncia. E vou lhe dizer uma coisa, Harry, sinto-me como se eu 
fosse muito mais forte do que voc. Sei que poderia torcer seu brao e machuc-lo, como voc fez 
comigo outro dia, sem que voc conseguisse me deter.
- Claro que eu no conseguiria! Eu no posso evitar que algum faa alguma coisa que 
deseja fazer. Quem quiser, pode me bater sem que eu consiga revidar.
E Harry comeou a chorar de novo. De repente, Lucy ficou realmente com pena dele. Sabia 
que era a responsvel por aquilo; reduzira o irmo a um mero covarde, s porque ele a enterrara 
naquele buraco e a abandonara l. Subitamente, o remorso a envolveu com unhas e dentes.

- Preste ateno! - disse ela. - Foi tudo culpa minha! Eu queria mago-lo porque voc
me deixou enterrada, mas j no quero mais. No posso torn-lo um menino forte e corajoso de
novo, mas sinto muito e cuidarei de voc, meu querido Harry! Talvez voc pudesse se disfarar, 
vestindo uma saia, usando cabelo comprido e indo comigo para a High School. Eu cuidaria para que
ningum o ameaasse. No  bom se sentir ameaado, no ?
Harry lanou os braos ao redor dela, uma coisa que jamais teria feito em pblico se
naquele momento no estivesse se sentindo to frgil.
- No, isso  odioso - ele respondeu. - Lucy, desculpe-me por ter sido to sujo com 
voc.
Lucy tambm o abraou e beijaram-se fraternamente, embora estivessem em plena luz do 
dia e andando pelo Lee Park.
Naquele instante, o feiticeiro Doloro de Lara colidiu com eles na calada. Lucy berrou e 
Harry desferiu um golpe com o mximo de fora possvel.
- Preste ateno! - disse Harry. - Veja por onde esbarra...
- Voc estragou o encantamento, Lucy, minha menina - disse o encantador, endireitando 
o chapu. - Nenhum encantamento se mantm se voc comea a beijar o seu irmo, pedindo 
desculpas. No futuro, tenha isso em mente, entendeu?
Mal acabou de falar, desapareceu na nuvem branca de um carro movido a vapor que 
passava, deixando Harry e Lucy olhando um para o outro.
Ento, Harry voltou a ser Harry e Lucy voltou a ser Lucy at a medula de seus pequenos 
ossos. Nessa hora, eles apertaram as mos com toda a sinceridade.

No dia seguinte, Lucy voltou  High School e pediu desculpas por tudo que fizera.
- Acho que no estava sendo eu mesma e isso jamais acontecer de novo! - disse 
diretora, que concordou totalmente com ela.
E Lucy cumpriu o prometido. Harry, por outro lado, na primeira oportunidade, deu uma
surra completa no caula dos impkins, mas no bateu com exagero: dosou determinao com
misericrdia.
Esta  a parte curiosa de toda a histria. Desde aquele dia em que o encantamento de dois
centavos fez o seu trabalho, Harry foi mais gentil do que antes e Lucy mais corajosa. No consigo
compreender o motivo, mas assim . Ele no a ameaa mais e ela no tem mais medo dele. Cada
vez que ela faz alguma coisa corajosa para ele ou que ele faz algo gentil para ela, eles crescem mais 
parecidos, de modo que, quando forem adultos, ele poder muito bem ser chamado de Lucius e ela 
de Harriet, independentemente de todas as diferenas existentes entre os dois.
E todos os adultos os olham e admiram. Eles imaginam que aquelas brigas incessantes 
produziram essa melhora. Ningum suspeita da verdade, com exceo da diretora da High School,
que participou de um curso completo de Magia Social, ministrado por um professor melhor do que
o senhor Doloro de Lara. Por isso, ela entendeu tudo e no expulsou Lucy, apenas a repreendeu.
Harry agora  o lder na escola. Lucy est na sexta srie e  um modelo de moa. Gostaria
que todas as diretoras aprendessem Magia em Girton.


 * *


E. NESBIT (o "E"  de Edith) foi, provavelmente, a primeira autora infantil
verdadeiramente moderna. Seus contos, escritos nos primeiros anos do sculo XX,
exerceram grande influncia sobre muitos outros escritores, principalmente J. K. Rowling,
que declara: "Identifico-me mais com Nesbit do que com qualquer outro escritor.
Ela dizia que, por algum golpe de sorte, lembrava-se exatamente de como se
sentia e pensava quando era criana." Com certeza, isso  verdade na histria de Lucy
e do mago. Edith Nesbit comeou a escrever para ganhar algum dinheiro, depois que a
empresa do marido foi  falncia e nasceu o seu primeiro filho. Suas primeiras
histrias baseavam-se nas experincias da prpria infncia. E logo tornou-se conhecida
com as sries de contos sobre as crianas de Bastable.
Em 1906, Nesbit comeou a escrever histrias curtas de fantasia e, atualmente,
 reconhecida como a primeira autora a cont-las em um estilo inteligente, no muito
srio e bem-humorado. Evidentemente, logo se tornou bvio que ela aprendeu muita
coisa sobre magia em livros nos quais crianas comuns, de vida cotidiana, so os
heris. Os magos tambm aparecem em diversos de seus contos. Mas o professor de
Lara  o meu favorito.

                                  * *

    Escola para o Extraordinrio
Manly Wade Wellman

                                   *

Bart esta viajando de trem para a sua nova escola. Estava prestes a tornar-se aluno na antiga e
famosa escola americana de Carrington, no  de admirar que esteja um pouco apreensivo. Sua
jornada, desde a cidade onde vive at a zona rural, deu-lhe muito tempo para pensar sobre o que
est por vir, e, por isso, toda sorte de pensamentos preocupantes cruza a sua imaginao. J est
escurecendo quando Bart deixa a estao para caminhar em direo  escola. Subitamente, 
surpreendido por Hoag, um jovem de rosto plido e olhos escuros, penetrantes, que surge das 
sombras, oferecendo-se para mostrar-lhe o caminho. Hoag  outro aluno da escola, porm seguro 
aperto de mo e as coisas sinistras que diz ocorrerem por l so meras indicaes das terrveis 
foras das trevas que aguardam Bart em Carrington...

                                   *

Bart Setwick, um rapaz de fisionomia sincera, vestindo um casaco de tweed bem talhado,
desceu do trem em Carrington e permaneceu, por um momento, na plataforma. Essa pequena cidade
e sua famosa escola seriam seu lar pelos prximos oito meses.
Mas qual seria o caminho para a escola? O sol j se havia posto e mal se podiam ver os 
letreiros luminosos das lojas na modesta rua principal de Carrington. Ele hesitou por um momento. 
Em seguida, ouviu uma voz suave, falando bem perto:
- Voc vai para a escola?
Assustado, Bart Setwick virou-se. Na penumbra acinzentada, outro rapaz, parado e sorrindo 
suavemente, esperava uma resposta. O estranho deveria ter uns 19 anos - o que significava 
maturidade para o jovem Setwick, que tinha apenas 15 -, e seu rosto plido mostrava as linhas da 
perspiccia. Era alto, desajeitado e estava vestido com uma camisa de malha de gola alta e calas 
apertadas, fora de moda. Bart Setwick examinou-o com um rpido e analtico olhar, no estilo da 
jovem Amrica.
- Acabei de chegar - respondeu. - Meu nome  Setwick.
- O meu  Hoag. - Uma mo delgada estendeu-se. Ao toc-la, Setwick sentiu-a fria como 
um sapo, dando uma idia de msculos semelhantes a arames de ao. - Prazer em conhec-lo. Vim 
na esperana de que algum descesse do trem. Permita-me lhe oferecer uma carona at a escola.
Hoag virou-se com uma rapidez felina, considerando-se sua falta de jeito, e conduziu seu 
novo conhecido para fora da pequena construo de madeira que era a estao ferroviria.
Atrs dela, semi-oculta na sombra, havia uma velha charrete com um magro cavalo baio 
atrelado.
- Suba! - convidou Hoag, mas Bark Setwick hesitou por um momento. Sua gerao no 
estava acostumada a esse tipo de veculo. Hoag riu para si mesmo e disse: - Oh, isso  apenas uma 
das esquisitices da escola. Temos hbitos estranhos. Suba!
Setwick obedeceu.
- E a minha mala?
- Deixe-a a. - O jovem alto ajeitou-se ao lado de Setwick e tomou as rdeas. - Voc 
no precisar dela esta noite.
Hoag estalou a lngua, incitando o cavalo baio, que os conduziu por uma estrada ladeada 
por arbustos. O tropel do cavalo baio soava estranhamente amortecido.
Aps uma curva e outra, chegaram a um campo aberto. As luzes de Carrington, recm-acesas,
contrapondo-se  escurido da noite, assemelhavam-se a uma constelao assentada na
Terra. Setwick sentiu um sinal de calafrio que no parecia combinar com uma noite de setembro.
- Qual  a distncia da cidade at a escola? - Setwick perguntou.
- Cinco ou oito quilmetros - respondeu Hoag com sua voz calma. - Essa distncia foi 
decidida pelos fundadores, que desejavam dificultar as idas dos estudantes  cidade para se divertir.
Isso nos obrigou a descobrir os nossos prprios entretenimentos. - O rosto plido de Hoag franziu-
se num dbil sorriso, com ar de gracejo. - Temos apenas uns poucos sujeitos legais hoje  noite. A 
propsito, para que voc foi mandado?
Setwick franziu as sobrancelhas, desnorteado.
- Ora, para ir  escola. Meu pai me mandou.
- Mas para qu? Voc no sabe que isso  um preparatrio para uma priso de alto nvel? 
Metade de ns  constituda de estpidos que precisam ser empurrados; a outra metade, de sujeitos 
que se meteram em escndalos em algum lugar. Como eu. - Hoag sorriu novamente.
Setwick comeou a no gostar da companhia. Viajaram mais ou menos dois quilmetros em 
silncio antes que Hoag fizesse outra pergunta:
- Voc vai  igreja, Setwick?
O garoto no quis parecer puritano e respondeu com indiferena:
- No freqentemente.
- Voc consegue recitar alguma coisa da Bblia? - A voz suave de Hoag adotou um tom 
ansioso.
- No que eu saiba.
- timo! - Foi a resposta quase entusistica de Hoag. - Como eu estava dizendo, 
existem apenas alguns de ns na escola esta noite; para ser exato, s trs. E no gostamos de quem 
fica fazendo citaes bblicas.
Setwick riu, tentando aparentar sabedoria e cinismo.
- No  Sat que tem a reputao de citar a Bblia, para seu prprio...
- O que sabe sobre Sat? - interrompeu-o Hoag, voltando-se inteiramente para Setvvick 
e analisando-o atentamente com seus intensos olhos escuros. Ento, respondendo  prpria 
pergunta, disse: - Sabe pouco, aposto! Gostaria de saber mais sobre ele?
- Certamente - respondeu Setwick, perguntando-se qual seria a brincadeira.
- Eu lhe ensinarei daqui a algum tempo - prometeu Hoag enigmtico, e o silncio se fez 
novamente.
A lua j estava quase alta quando puderam ver um escuro amontoado de construes.
- Aqui estamos - anunciou Hoag e, ento, lanando a cabea para trs, emitiu um uivo 
selvagem, que fez Setwick quase pular fora da charrete. - Isso  para que os outros saibam que 
estamos chegando - explicou.
No mesmo instante, algo parecido com um eco do uivo, estridente, indistinto e sinistro, 
retornou. O cavalo vacilou em seu abafado trote e Hoag o fez voltar ao passo. Entraram numa 
estrada com crescidas ervas daninhas e em dois minutos estavam nos fundos do prdio mais 
prximo. Era de um cinza-plido sob o luar, com retngulos pintados de branco como janelas. Em 
nenhum lugar havia luz, mas, enquanto a charrete parava, Setwick viu a cabea de um jovem 
aparecer numa janela no andar trreo.
- J de volta, Hoag? - ouviu-se uma voz aguda e alta.
- Sim, e trouxe um novo homem comigo - respondeu o jovem segurando as rdeas. Um 
pouco excitado por ouvir que se referiam a ele como homem, Setwick desceu da charrete. - Seu 
nome  Setwick - continuou Hoag. - Este  Andoff, Setwick, um grande amigo meu.
Andoff agitou a mo em saudao e pulou pela janela. Era rechonchudo, atarracado e ainda 
mais plido do que Hoag, com uma pequena testa abaixo do cabelo escorrido e de aspecto molhado. 
Os olhos negros eram bem separados e o rosto apresentava uma aparncia idiota. A jaqueta 
surrada era extremamente apertada para ele. Abaixo das velhas calas apareciam suas pernas nuas e 
os ps descalos. Andoff deveria ser um jovem crescido demais para 13 anos ou subdesenvolvido 
para 18.
- Felcher deve chegar em meio segundo - disse espontaneamente.
- Entretenha Setwick enquanto guardo a charrete - Hoag instruiu. Andoff concordou, 
fazendo um movimento com a cabea. Hoag juntava as cordas nas mos quando parou para uma 
palavra final. - Nada de gracinhas ainda, Andoff- advertiu, srio. - Setwick, no deixe esse 
saco de banha provocar voc ou contar histrias fantsticas at que eu volte.
Andoff riu de forma estridente.
- No, nada de histrias fantsticas - prometeu. - Voc faz o discurso, Hoag.
A charrete foi-se e Andoff virou seu gordo e sorridente rosto para o recm-chegado.
- A vem Felcher - anunciou. - Felcher, este  Setwick.
Felcher parecia ter surgido inesperadamente do nada.
Setwick no o tinha visto vir da esquina do prdio ou escapulir por uma porta ou janela. 
Era, provavelmente, da mesma idade de Hoag ou mais velho, mas to pequeno, que poderia quase 
ser ano. Sua mais notvel caracterstica era a cabeleira. Uma grenha enorme cobria sua cabea, 
escorria sobre o pescoo e orelhas, caindo despenteada sobre os brilhantes e profundos olhos. Uma 
penugem densa descia por seus lbios e bochechas, e um tufo espesso de cabelo encaracolado 
despontava pela gola desabotoada da suja camisa branca. A mo que ofereceu a Setwick era quase 
simiesca em sua pelagem e aspereza da palma. Era tambm fria e mida. Setwick lembrou-se da 
mesma sensao que tivera ao apertar a mo de Hoag.
- Somos os nicos aqui at o momento - observou Felcher.
Sua voz, surpreendentemente profunda e forte para to pequena criatura, soou como um 
grande sino.
- Nem o diretor da escola est? - perguntou Setwick, o que causou uma exploso de risos 
nos outros dois, o guincho pfaro de Andoff fazendo coro  voz de sino de Felcher. Voltando, Hoag 
perguntou qual fora a graa.
- Setwick est perguntando - rosnou Felcher - por que o diretor no est aqui para dar 
as boas-vindas a ele.
Mais risadas de pfaro e sinos.
- Duvido de que Setwick acharia a resposta engraada - comentou Hoag, rindo baixo.
Setwick, que era bem-educado, comeou a se enfurecer.
- Digam o que est acontecendo - advertiu, no que esperava ser um tom severo - e, 
ento, participarei desse alegre coral.
Felcher e Andoff olharam fixamente para ele com olhos estranhamente ansiosos e 
esquadrinhadores. Em seguida, voltaram-se para Hoag.
- Vamos contar a ele - falaram ambos ao mesmo tempo, mas Hoag sacudiu a cabea 
negativamente.
- Ainda no! Uma coisa de cada vez. Primeiro, vamos  msica.
Comearam a cantar. A primeira estrofe da oferenda era obscena, sem nenhuma mscara de 
humor para redimi-la.
Setwick nunca fora suscetvel, porm sentia-se totalmente repugnado. A segunda estrofe 
parecia menos censurvel, mas dificilmente fazia algum sentido:

O que aqui nos tentaram ensinar
agora  inato aprendizado.
Cada um, resoluto e preparado,
veio conhecimento buscar.
Aquilo que de desastre foi chamado,
 mestre, no nos matou no!
Aqui, imploramos nos governar,
pensamento, olho e mo.

Era algo semelhante a um hino, concluiu Setwick. Mas diante de que altar seriam tais hinos
cantados? Hoag deve ter lido aquela pergunta em sua mente.
- Voc mencionou Sat na charrete, quando vnhamos. Lembra-se? - A astuta face de 
Hoag parecia uma mscara suspensa na semi-obscuridade, perto de Setwick. - Bem, essa  uma 
cano satanista.
- E? Quem a comps? - perguntou Setwick.
- Eu - informou Hoag. - Gostou?
Setwick no respondeu. Tentou detectar algum tom de zombaria na voz de Hoag, mas sem 
sucesso.
- O que - perguntou finalmente - tem todo esse canto satanista a ver com o diretor?
- Muito - respondeu Felcher em tom grave, retornando  conversa.
- Muito - esganiou Andoff.
Hoag fitou cada um de seus amigos e, pela primeira vez, sorriu abertamente, revelando uma 
aparncia dentua.
- Creio - arriscou de forma calma, porm veemente - que podemos permitir que 
Setwick tambm faa parte de nosso pequeno crculo.
Ento comearia aqui, concluiu o garoto, o trote a calouros sobre o qual tanto lera e ouvira 
falar. Ele tinha previsto tais eventos com alguma excitao e at ansiedade; porm, agora, no mais 
os desejava. No gostava de seus trs companheiros, nem do mtodo empregado,
independentemente de quais fossem as intenes. Deu um ou dois passos para trs, como se fosse se
retirar.
Com a rapidez de um dardo, Hoag e Andoff cercaram-no.
Aquelas mos frias agarraram-no e, repentinamente, sentiu-se tonto e enjoado. As coisas,
iluminadas pelo luar, tornaram-se nebulosas e distorcidas.
- Venha e sente-se, Setwick - convidou Hoag, como se estivesse muito distante. Sua voz 
no se tornou mais alta ou rude, porm incorporava uma verdadeira ameaa. - Sente-se naquele 
peitoril da janela! Ou preferiria que o carregssemos?
Naquele momento, Setwick s desejava livrar-se do toque daquelas mos, por isso, 
caminhou submisso at o peitoril, subiu e sentou-se. Atrs dele, a escurido de um aposento 
desconhecido, e, na altura de seus joelhos, reuniam-se os trs, que pareciam vidos para contar-lhe 
uma piada secreta.
- O diretor era um respeitvel devoto - comeou Hoag, como se fosse o porta-voz do 
grupo. - Ele no gostava de demnios ou de adorao ao diabo. Assumiu claramente sua 
contrariedade quando chamou a nossa ateno na capela. Isso foi o comeo.
- Isso mesmo - concordou Andoff, levantando seu gordo e dissimulado rosto. - 
Qualquer coisa que ele condenasse, ns queramos fazer. No faz sentido?
Faz sentido e  compreensvel - concluiu Felcher, enquanto sua peluda mo direita 
brincava no peitoril, perto da coxa de Setwick. Sob o luar, parecia uma grande e nervosa aranha.
Hoag prosseguiu:
- No sei de nenhuma outra de suas proibies que fosse mais fcil ou divertida de 
transgredir.
Setwick percebeu que sua boca tornara-se seca. A lngua mal conseguia umedecer os lbios.
- Voc quer dizer - balbuciou - que comearam a render culto aos demnios?
Hoag concordou satisfeito, como um professor diante de um aluno perspicaz.
- Durante umas frias, consegui um livro sobre o culto. Ns trs o estudamos e, ento, 
comeamos com as cerimnias.
Aprendemos os encantamentos e feitios de frente para trs e de trs para a frente.
- So duas vezes melhores de trs para a frente - interveio Felcher. Andoff deu uma 
risadinha.
-  Tem alguma idia, Setwick - disse Hoag quase abrolhando -, do que apareceu em 
nossa sala de estudos na primeira vez em que queimamos vinho e enxofre, dizendo as palavras 
apropriadas sobre eles?
Setwick no desejava saber. Cerrou os dentes.
- Se est tentando me assustar - rosnou -, certamente no vai funcionar.
Os trs riram mais uma vez e comearam a expressar suas declaraes de boa f.
- Juro que estamos dizendo a verdade, Setwick - assegurou Hoag. - Quer ouvir ou no 
quer?
Setwick percebeu que tinha pouca escolha.
- Est bem, prossiga - rendeu-se, perguntando-se se adiantaria arrastar-se para a 
escurido do aposento atrs do peitoril.
Hoag inclinou-se em direo a ele, com ar de confidencia.
- O diretor nos pegou. Pegou em flagrante.
- Livro aberto, fogo aceso - cantarolou Felcher.
- Ele tinha algo muito interessante a dizer sobre vingana divina - continuou Hoag. -
Comeamos a rir dele. Ele se enfureceu. Finalmente, tentou executar a vingana com as prprias
mos e tentou nos punir, de uma forma muito primitiva, mas no funcionou.
Andoff ria exageradamente, mantendo os gordos braos cruzados sobre a barriga.
- Ele pensou que havia funcionado - complementou, murmurando -, mas no 
funcionou.
- Ningum poderia nos matar - acrescentou Felcher. - No depois dos juramentos que 
fizemos e das promessas que nos foram feitas.
- Que promessas? Quem fez promessas a vocs? -perguntou Setwick, que se esforava 
para no acreditar.
- Aqueles que reverenciamos - disse Felcher. Se ele estava simulando seriedade, foi uma 
suprema representao. Setwick, quando se deu conta, estava mais assustado do que desejaria 
demonstrar.
- Quando tudo isso aconteceu? - foi a pergunta seguinte.
- Quando? - repetiu Hoag. - Oh, anos e anos atrs.
- Anos e anos atrs - repetiu Andoff.
- Muito antes de voc ter nascido - Felcher assegurou. Os trs estavam juntos, de p, as 
costas viradas para a lua, que iluminava o rosto de Setwick. Ele no conseguia distinguir claramente 
suas expresses. Porm, as trs vozes, a suave de Hoag, a profunda e vibrante de Felcher e a alta e 
estridente de Andoff, eram absolutamente srias.
- Sei o que est questionando em seu ntimo - declarou Hoag um tanto presunosamente. 
- Como podemos, ns que falamos sobre muitos anos atrs, parecer to jovens? Admito que isso 
exige uma explicao. - Hoag fez uma pausa, como se escolhesse as palavras. - O tempo, para 
ns, no passa. Parou naquela noite, Setwick, na noite em que nosso diretor tentou pr fim a nossa 
adorao.
- E a ns! - disse, sorrindo maliciosamente, o enorme Andoff, com seu ar habitual de 
auto-congratulao sempre que completava uma frase de Hoag.
- O culto continua - disse Felcher, do mesmo jeito cantado, como j fizera -, o culto 
continua e ns continuamos, tambm.
- O que nos leva  questo: voc quer compartilhar conosco, Setwick? Ser a quarta pessoa 
nesta animada pequena festa?
- Hoag interveio, animado.
- No, no quero - respondeu Setwick spera e veementemente.
Eles silenciaram e recuaram um pouco em resposta, tornando-se apenas um trio de bizarras 
silhuetas contra o tnue luar. Setwick podia ver o brilho dos olhos que o fitavam por entre as 
sombras de seus rostos. Ele sabia que estava com medo, mas no o demonstrava. Num impulso de 
coragem, pulou da soleira para o cho. O orvalho da grama esborrifou suas meias entre os cordes 
do sapato e a bainha das calas.
- Suponho que  a minha vez de falar - disse a eles de modo franco e correto. - Serei 
breve. No gosto de vocs nem do que contaram. Estou indo embora deste lugar.
- No vamos deixar! - disse Hoag, calmo, porm enftico.
- No vamos deixar! - murmuraram em conjunto Andoff e Felcher, como se tivessem 
ensaiado milhares de vezes.
Setwick cerrou os punhos. Seu pai lhe havia ensinado a boxear. Ele avanou rpida e 
desembaraadamente em direo a Hoag e o golpeou fortemente no rosto. No momento seguinte, os 
trs precipitaram-se sobre ele. No pareciam golpear, bater ou fazer fora, porm ele caiu sob o 
ataque. Os ombros de seu casaco de tweed chafurdaram na areia e ele sentiu o cheiro das ervas 
esmagadas. Hoag, sobre ele, imobilizou-o com um joelho em cada bceps. Felcher e Andoff 
estavam perto, inclinados.
Com olhar raivoso e impotente, Setwick soube de uma vez por todas que aquilo no era 
nenhuma travessura de colegiais.
Traquinas experientes jamais se juntam ao redor de sua vtima com tal olhar fixo, de brilho 
esverdeado, bochechas cadavricas, lbios tremendo.
Hoag exps os caninos brancos. Sua lngua pontiaguda passou uma vez sobre eles.
- Faca! - falou por entre os dentes, e Felcher remexeu desajeitadamente em uma bolsa, 
entregando-lhe algo que cintilava sob o luar.
A magra mo de Hoag estendeu-se e recuou rapidamente.
Hoag tinha dirigido o olhar para cima, em direo a alguma coisa estranha  confuso. 
Lamentando-se, com voz embargada e inarticulada, levantou-se repentinamente do extenuado peito
de Setwick. Na precipitao, Hoag caiu desajeitadamente para trs. Os outros acompanharam seu 
olhar chocado e, imediatamente, tambm se encolheram, amedrontados.
-  o mestre! - gemeu Andoff.
- Sim! - retumbou uma spera e nova voz. - Seu antigo diretor. Voltei para domin-los!
Apoiando-se sobre um cotovelo, o prostrado Setwick percebeu o que eles tinham visto: uma 
figura alta, robusta, em um sobretudo longo e escuro, encimada por um rosto quadrado e distorcido, 
e despenteados cachos de cabelos brancos. Os olhos brilhavam com luz prpria, plida e inflexvel. 
Conforme avanava, pesada e vagarosamente, emitia um riso abafado que revelava mortfera 
satisfao. Ainda que  primeira vista, Setwick percebeu que a figura no tinha sombra.
- Cheguei a tempo - falou pomposamente o recm-chegado. - Iam matar esse pobre 
menino.
Hoag se recuperara e defendeu-se:
- Mat-lo? - disse em voz trmula, parecendo servil diante da figura ameaadora. - 
No. Ns teramos  lhe dado a vida.
- Voc chama isso de vida! - exclamou o homem de sobretudo. - Voc teria sugado o 
sangue dele para encher as suas prprias veias mortas, amaldioando-o em prol de sua corrupta 
condio. Mas estou aqui para impedi-lo!
Um dedo enorme, com proeminentes juntas, foi apontado e, ento, ouviu-se uma torrente de 
palavras. Aos nervos atordoados de Setwick, pareciam palavras do Novo Testamento ou talvez do 
Livro de Orao Comum. Imediatamente, lembrou-se da declarada averso de Hoag a tais citaes.
Seus trs ex-adversrios rodopiavam, como se em meio a um forte vento que causasse
tremores de frio ou queimasse.
- No, no! No faa isso! - imploravam miseravelmente.
O velho rosto quadrado abriu-se em uma impiedosa gargalhada. O dedo de juntas salientes 
traou uma cruz no ar e o trio gemeu em coro como se o sinal tivesse sido traado sobre seus corpos 
por uma lngua de fogo.
Hoag caiu de joelhos.
- No! - soluou.
- Eu tenho poder - zombou o atormentador. - Durante os anos de confinamento eu o 
conquistei e, agora, farei uso dele. - Novamente, uma triunfante exploso de jbilo.
- Sei que so amaldioados e no podem ser mortos, mas podem ser torturados! Farei com 
que rastejem como vermes antes que eu d tudo por terminado.
Setwick conseguiu ficar de p, vacilante. O sobretudo e a macia cabea inclinaram-se em 
sua direo.
- Corra! - estrondou um brutal bramido em seus ouvidos.
- Saia daqui e agradea a Deus pela sorte!
Setwick correu, atordoado. Cambaleou por entre as ervas da pequena via de acesso  escola, 
alcanou a estrada.  distncia, brilhavam as luzes de Carrington.  medida que voltava seu rosto 
em direo a elas e acelerava o passo, comeou a chorar soluante, histrica e exaustivamente.
S parou de correr quando chegou  plataforma da estao.
Um relgio na rua soava 10 horas, um som profundo, no muito diferente da voz de 
Felcher. Setwick respirou profundamente, puxou o leno e enxugou o rosto. A mo estava 
tremendo, como uma haste de capim sob o vento.
- Com licena! - Ouviu uma animada saudao. - Voc deve ser Setwick.
Como anteriormente, nessa mesma plataforma, ele se virou, rpido, sobressaltado. Bem 
perto estava um homem de ombros largos, com cerca de 30 anos, usando culos com armao de 
tartaruga. Vestia uma limpa jaqueta de Norfolk e calas. Um curto cachimbo feito de raiz de urze-
branca pendia de uma boca bem-humorada.
- Sou Collins, um dos professores da escola - apresentou-se. - Se voc  Setwick, 
deixou-nos preocupados. Ns o espervamos no trem das sete, voc sabe. Passei para ver se poderia
encontr-lo.
Setwick recobrou um pouco de seu perdido flego.
- Mas eu estive na escola - murmurou, protestando. Sua mo, ainda tremendo, gesticulou 
vagamente em direo ao caminho pelo qual viera.
Collins jogou a cabea para trs e riu, desculpando-se em seguida.
- Sinto muito - disse. - No h nada de engraado se voc andou tudo aquilo para nada. 
Veja bem, aquele antigo lugar est deserto. Era um local de reunio para os incorrigveis garotos
ricos. Foi fechado h uns 50 anos, quando o diretor ficou louco e matou trs de seus alunos. Por
coincidncia, o diretor morreu esta tarde no sanatrio do estado.

                                 *  *

    MANLY WADE WELLMAN tornou-se famoso por escrever alguns dos melhores contos
sobrenaturais passados nas reas rurais norte-americanas. Seu conhecimento das
tradies folclricas do interior dos Estados Unidos d a todas as suas histrias uma
atmosfera realmente autntica e  bem possvel que a arrepiante escola de Carrington
seja fundamentada justamente num lugar desse tipo, no agreste da Carolina do Norte,
onde o autor viveu e trabalhou por muitos anos. Manly Wade Wellman nasceu na
frica, onde seu pai era oficial mdico, mas estudou num colgio norte-americano
antes de tornar-se reprter. Sua fascinao pelo sobrenatural levou-o a escrever suas
primeiras histrias para a famosa revista de horror Weird Tales, e elas se tornaram 
muito populares entre os leitores. Ele criou uma srie de contos retratando John 
Thurnstone, um detetive ocultista, incluindo o clssico A Escola da Escurido (1985), 
que trata de uma escola cuja freqncia demandaria ser muito corajoso. O diretor 
tambm era aterrorizante, no muito diferente do que voc encontrar no prximo 
conto.


















O DIRETOR DEMNIO
Gillian Cross


Ningum sabe o nome dele, chamam-no simplesmente de "o Diretor". No h como evitar 
aqueles enormes olhos verdes quando ele retira os culos escuros e hipnotiza quem quer que lhe 
desobedea nem o calafrio quando ele pronuncia sua j famosa frase tanto para adultos quanto 
para crianas: "Espero que voc no seja uma pessoa que no cooperar comigo!" O Diretor
Demnio dirige sua escola - cujo nome usualmente no  pronunciado, embora tenha sido
chamada de St. Campions - com um poder sinistro, como se planejasse dominar o mundo. Ele 
uma verso moderna do "Professor Maluco". Na verdade, tudo o que est entre ele e seus planos 
um esperto grupo de alunos que se reuniram para formar uma organizao conhecida como 
Sociedade para a Proteo das Nossas Vidas Contra Eles - SPVCE. Na lista de professores com 
poderes mgicos, o Diretor Demnio est perto do topo. Nesta histria, o homem com os olhos 
verdes cheios de maldade usa o seu poder para deter um de seus dios de estimao: pessoas que 
se divertem...

                                 *   *

    O homem alto, do outro lado da rua, est diante da casa de Bernadine, olhando para o cartaz
na janela.

REUNIO FINAL DE CARNAVAL
AQUI!!!
HOJE  NOITE, S 19:30!
TODOS SO BEM-VINDOS!
SE VOC SE INTERESSAR, ESTEJA NESTE LUGAR!!!

- Eu serei o pssaro de fogo - disse Bernadine. Estava to excitada, que repetia aquilo 
para todo mundo.
O homem olhou zangado atravs dos seus culos escuros.
- Carnavais so barulhentos e desordenados.
Bernadine mostrou-lhe uma expresso de desnimo, esquivando-se rapidamente em direo
 porta traseira. Com a reunio prestes a comear, a cozinha estava apinhada de pessoas. A me de
Bernadine agitava o gravador de fita acima da cabea.
- Vou gravar todos vocs! Assim saberei quem prometeu o qu!
Todos riram. Quando ela o ligou, a porta traseira foi aberta.
O homem de culos escuros entrou com passo arrogante. Por que ele tinha vindo?
Bernadine olhou fixamente para ele.
- Olhe os seus modos - sussurrou a me.
O pai a cutucou.
- No fique a feito uma boba. V  casa de Stevie buscar a sua fantasia.
A fantasia de pssaro de fogo! Esquecendo-se do homem de culos escuros, Bernadine
esgueirou-se pela porta traseira.
Quando essa se fechou por trs dela, cessou todo o barulho na cozinha. O que era estranho, 
porque as reunies de carnaval jamais eram silenciosas. Ela espiou pela janela para ver o que estava 
acontecendo.
Todos na cozinha estavam muito quietos, olhando para o homem alto. Lentamente, ele tirou 
os culos escuros. Seus olhos verde-mar eram estranhos e brilhantes.
- Vocs esto todos muito cansados - murmurou, e subitamente todos comearam a 
bocejar. Estranho, pensou Bernadine.
Ela teria ficado ali para ver o que acontecia, mas no podia esperar. Queria estar na casa do
primo Stevie, experimentando a fantasia de pssaro de fogo. Quem se importava com o homem de
culos Escuros?
Quando voltou, a casa estava silenciosa. Abriu a porta dos fundos e encontrou a cozinha
vazia, com exceo de seus pais.
- O que est acontecendo? - perguntou. - A reunio de carnaval terminou cedo?
- No haver carnaval - respondeu a me, com uma voz surda, montona.
- O qu?
O pai concordou com um movimento de cabea.
- Nada de bandas. Nada de blocos. Nada de danar na rua  -        seu tom de voz era o
mesmo. - Carnavais no tm importncia e so destrutivos.
Bernadine arregalou os olhos.
- Nada de carnaval?
- No haver carnaval! - disseram os pais ao mesmo tempo.
- Nada de bandas. Nada de blocos. Nada de danar na rua.
Carnavais no tm importncia e so destrutivos.
Aquilo seria tudo que diriam. As mesmas palavras, repetidas vezes sem conta. Bernadine 
foi para a cama, mas sentia-se muito infeliz para dormir.
 uma hora da manh, repentinamente, lembrou-se do gravador. Deslizando para fora da 
cama, esgueirou-se at a cozinha e o encontrou. Depois de voltar a fita, abaixou o volume e 
pressionou a tecla PLAY.
Tenuemente, ouviu risos e brincadeiras. Depois um silncio sbito e, em seguida, a voz do 
homem de culos escuros.
- Vocs esto todos muito cansados...
O que ele pretendia?
Subitamente, o tom de voz mudou. - Vocs faro o que eu disser - falou asperamente. - 
Esto entendendo?
- Entendemos. - A voz de todos que responderam parecia surda e mecnica, como a dos 
pais de Bernadine. Ela estremeceu.
- No haver carnaval - disse o homem alto. Nada de bandas. Nada de fantasias. Nada de 
blocos. Nada de danar na rua. Carnavais no tm importncia e so destrutivos.
As vozes mecnicas repetiam as palavras do homem de culos escuros.
Sentindo-se fraca, Bernadine sentou-se. Ela agora sabia o que havia acontecido. Ele os 
hipnotizara, para impedir o carnaval.
Mas o que ela poderia fazer?
Ficou ali, na cozinha, durante uma hora, sentada, pensando.
Quando voltou para a cama, j tinha um plano.
No dia seguinte, na escola, todos estavam tristes.
- No haver carnaval - resmungava Stevie. - Isso  tudo o que o meu pai dizia.
Seu amigo Nathan concordou:
- Nada de danar na rua. Carnavais no tm importncia e so destrutivos.
Stevie suspirou.
- Parece que voc ter de desistir de ser o pssaro de fogo, Bernie.
- No, de forma alguma! - Bernadine sacudiu a cabea. - Podemos preparar o carnaval 
sem nossos pais. Sabemos o que temos de fazer!
- Podemos enfeitar os carros abertos - disse Nathan. - E preparar os alto-falantes. Mas 
no podemos dirigir ou tocar a msica.
Bernadine sorriu, misteriosamente.
- Deixem isso comigo e com Stevie. - Ela afastou Stevie para longe dos outros.
- Acha que consegue editar isto? - murmurou...
E retirou a fita.
No dia do carnaval, Bernadine vestiu a fantasia de pssaro de fogo e correu escadas abaixo.
O pai franziu as sobrancelhas.
- No haver carnaval!
- Haver sim! - respondeu Bernadine.
Esquivando-se da me, que tentava agarr-la, saiu porta afora. Ao longo de toda a rua, 
outras crianas fantasiadas tambm estavam se esquivando dos pais. Bernadine acenou do outro 
lado da rua, fazendo sinal para Stevie. Ele ps o gravador em funcionamento e a voz de Bernadine 
irrompeu dos alto-falantes.
"CARNAVAL!"
Ela olhou pela rua, para a casa do homem alto. Vamos, aparea!, pensou.
"CARNAVAL!" - explodiu a fita.
Uma janela do andar superior foi aberta do outro lado da rua.
O homem de culos escuros olhou para fora desdenhosamente.
- Vocs perderam tempo, enfeitando esses carros - disse. No haver carnaval. - Ele 
tirou os culos.
Stevie olhou para Bernadine, mas ela sacudiu a cabea.
Ainda no.
O homem olhou fixamente por alguns instantes para a multido. Ento, abriu a boca.
- Prestem ateno! - disparou.
Todos se viraram para olh-lo e Bernadine acenou para Stevie. Agora!
Stevie ligou o gravador. Quando o homem comeou a falar, sua voz foi abafada por ela 
mesma. De todos os alto-falantes trovejavam as palavras que ele pronunciara na reunio. Editadas 
por Stevie.
HAVER... CARNAVAL... BANDAS... FANTASIAS... BLOCOS... DANA NA RUA.
O homem olhou fixamente para Bernadine. Ela podia ver que ele estava falando ainda mais 
alto, mas sem qualquer resultado. Os ensurdecedores alto-falantes continuavam a trombetear a sua 
voz.
CARNAVAIS TM... IMPORTNCIA!
Por toda a rua, os adultos estavam pegando suas fantasias de carnaval ou dando partida nos 
carros abertos, ou preparando instrumentos musicais.
HAVER... CARNAVAL...
Com um som de metais e uma exploso de danas, o bloco de carnaval partiu. O homem 
alto fechou a janela com um estrondo, desgostoso. Bernadine sorriu, arreganhando os dentes. Ento, 
comeou a danar, acompanhando a banda.
Ela era o mais feliz pssaro de fogo, jamais visto no carnaval.

                                  * *

    GILLIAN CROSS, na verdade, trabalhou em uma escola. Por isso, sabe tudo sobre a
maneira como alunos e professores interagem dentro e fora da sala de aula. O que 
apenas uma das razes pelas quais suas sries de livros sobre o Diretor Demnio se
tornaram to populares, transformando-se at em uma srie televisiva e uma pea
musical. Gillian estudou na Universidade Oxford e foi orientadora infantil antes de os 
prmios comearem a chegar por causa dos livros que escrevia durante o tempo livre. 
A idia do perverso diretor na verdade surgiu de sua filha, Elizabeth, e uma vez ela 
planejou fazer de um dos membros da SPVCE, Harvey, um homem capaz de alterar as 
prprias formas, transformando-se em objetos como um pote de ch ou um gravador 
de fita cassete. O sucesso de seus livros tambm se deve a sua habilidade para 
combinar fantasia com realidade e mostrar que  possvel levar a melhor sobre foras
realmente malignas... no importa a sua idade.

                                  * *

                          BANDOS DE FANTASMAS
                          Humphrey Carpenter

                                   *

    A noite de Walpurgis no  uma noite comum e o senhor Majeika no  um bruxo comum. E a
noite de primeiro de maio, quando, segundo a tradio, bruxos e bruxas se renem para uma
grande celebrao. Dizem que as Montanhas Harz, na Alemanha, so o ponto mais famoso do
mundo para essa confraternizao anual de bruxos, com magos chegando de todos os lugares,
voando em suas vassouras. O senhor Majeika  um bruxo que ainda no completou seus Exames de
Feitiaria e, assim sendo, precisa ganhar seu sustento na Escola de Saint Barty, onde  professor
da terceira srie. Seus alunos o adoram, principalmente Thomas Grey e sua amiga Melanie Brace-
Girdle, os nicos que conhecem o segredo do senhor Majeika - com exceo do odioso Hamish 
Bigmore. Tom e Melanie so um pouco como Harry Potter e a temvel Hermione Granger, e 
consideram que qualquer pessoa capaz de fazer aparecer um prato de batatas fritas ou transformar 
algum em um sapo precisa ter tanta magia nas pontas dos dedos quanto o professor Snape, de 
Hogwarts. (Casualmente, J. K. Rowling disse que a Noite das Bruxas era a sua noite favorita e que 
o professor Snape teve como base um de seus prprios professores - embora ela no dissesse qual 
deles!) Neste conto, o diretor da Saint Barty, o senhor Potter, decidiu fazer uma excurso com os 
alunos ao Castelo Chutney - na
Noite de Walpurgis. Com o senhor Majeika na excurso, a magia e as surpresas chegam rpido e 
em grande quantidade...

                                  * *

    Pobre senhor Majeika. Aquela era a sua primeira Noite de Walpurgis longe de Walpurgis e ele sabia
que teria que comemor-la sozinho. Aquela era a noite mais importante do ano, l em cima nos
campos dos cus de onde os bruxos e as bruxas chegam e para onde todos os originrios de
Walpurgis sempre tentam voltar naquela noite, de modo a no perder as maravilhosas 
comemoraes - as danas ao redor da Eterna Fogueira ao ar livre, a Ceia de Osso com Tutano e 
Brometo e, o mais importante de tudo, a viso inesquecvel do Crculo Tranado das Bruxas, 
executando a Dana das Sete Teias de Aranha. Mas, pobre senhor Majeika! No havia modo de ele
voltar a Walpurgis para as festividades daquele ano: fora banido para Britland e ali precisaria ficar, 
como professor, at ter provado a si mesmo merecer voltar para casa e terminar seus Exames de 
Bruxaria.
"Pobre Majeika!", pensou o Venervel Bruxo, meditando sobre a situao do companheiro 
ali em Britland. "Pobre Majeika! E a Noite de Walpurgis, e ele ficar sozinho."
"Pobre de mim", pensava o senhor Majeika, dentro de seu moinho. "Noite de Walpurgis e 
ficarei aqui sozinho." Mas ele decidira organizar suas prprias festividades de Walpurgis e fingiu 
estar de volta quele local, com todos os outros Bruxos e Bruxas. Preparou uma enorme fogueira ao 
ar livre, fazendo uma pilha elevada com flores silvestres de nomes desconhecidos e ervas daninhas 
que infestavam a cerca viva. Fez para si mesmo uma coroa de ervas, como as que todos estariam 
usando l em Walpurgis. Naquela noite, quando voltasse da escola, ele acenderia a fogueira e 
danaria ao redor dela  luz do luar, entoando cnticos de Walpurgis.
Ele quase no agentava esperar!
- Ah, Majeika - disse o senhor Potter, quando o senhor Majeika apareceu aquela manh 
na Escola Saint Barty com seu triciclo - hoje  um dia muito especial, no?
- Sim, sim, senhor Potter - respondeu o senhor Majeika ansiosamente - mas como o 
senhor sabia? - Por um momento ele pensou que a Noite de Walpurgis fosse comemorada em 
Much Barty. Que emocionante aquilo seria! Ele poderia imaginar a senhora Brace-Girdle e as 
senhoras do vilarejo danando ao redor de uma fogueira; elas pareceriam quase to notveis quanto 
as bruxas do Crculo Tranado.
- Como eu sabia, Majeika? - perguntou o senhor Potter, perplexo. - Porque eu mesmo 
preparei tudo.
- Preparou, senhor Potter?
- Sim, sim, Majeika, a excurso anual da escola. Voc no se esqueceu dela, no  
Majeika? Faremos o nosso passeio escolar anual, e este ano o destino  o Castelo Chutney.
-  mesmo, senhor Potter? - disse o senhor Majeika. - Parece emocionante. - No to 
emocionante quanto a Noite de Walpurgis, talvez, mas, assim mesmo, ainda bastante bom. Ele 
jamais havia visto um castelo em Britland, embora j tivesse visitado diversos em outras partes de 
Walpurgis, a maioria dos quais ocupada por gigantes e ogros bastante perigosos.
- O Castelo Chutney - explicou o senhor Potter - est de p, Majeika, desde o sculo X.
- E mesmo? - respondeu o senhor Majeika. - Ser que ele no gostaria de sentar?
- Pobre Majeika - disse o Venervel Bruxo ainda outra vez, mas agora em voz alta para 
um dos Bruxos Sniores, o Bruxo Thymes. - Se pelo menos houvesse um modo de mant-lo em 
contato com as nossas festividades da Noite de Walpurgis aqui em cima...
O Bruxo Thymes coou a cabea com a ponta de sua varinha mgica:
- Humm - murmurou, pensativo. - E se um de ns fosse l embaixo visit-lo?
O Venervel Bruxo estremeceu.
- Bem, um de ns, no - disse com firmeza. - J fiz isso uma vez e foi terrvel. - Ele 
se lembrava dos espinheiros e de todo aquele vento na descida. - Possivelmente, algum dos mais 
jovens em Walpurgis, algum que estivesse disposto a pegar um pouco de ar fresco e ver o mundo.
Um nibus grande estava estacionado diante da Escola Saint Barry, com as palavras 
Excurses Medievais de Jasper, o Alegre, pintadas na lateral.
- Todos prontos? - perguntou o senhor Potter. - O nibus nos levar at a estao, de 
onde, por uma composio especial, iremos de trem a vapor at a Encruzilhada Chutney; l, outro 
nibus nos pegar e nos deixar no Castelo Chutney. Todos a bordo!
- Ainda no posso ir - disse o motorista. - Jasper, o Alegre, que  o patro, no 
apareceu.
- Mas j so 10 horas - disse o senhor Potter, ansioso. - Desse modo as crianas 
perdero o delicioso almoo que lhes foi preparado no Castelo Chutney.
- Faamos o seguinte - props a conselheira, a senhora Brace-Girdle, que viera 
acompanhar a partida da filha Melanie.
- Eu esperarei aqui esse Jasper, o Alegre, e o levarei at l de carro. No h motivo para 
ele estragar o dia de vocs.
- Muito gentil de sua parte, Bunty - agradeceu o senhor Potter. A senhora Brace-Girdle, 
como sempre, era a salvao. - Vamos partir, todo mundo! Prxima parada, a estao.
- Estao? - perguntou o senhor Majeika. - O que  uma estao?
O Venervel Bruxo convocou uma reunio com todos os walpurgianos. Fez uma pequena 
preleo sobre como Majeika deveria estar se sentindo solitrio. E concluiu:
- Quem gostaria de ir l embaixo, apenas por um dia e uma noite, e fazer do Aprendiz de
Bruxo Majeika um walpurgiano realmente feliz, festejando com ele a Noite de Walpurgis?
Ningum ergueu a mo. (Wilhelmina Worlock havia sado para uma viagem de um dia at a
parte posterior da lua e no estava ali para se oferecer como voluntria.)
Hum - murmurou o Venervel Bruxo. - J estou vendo. Nenhum voluntrio. - Virou-se
para o Bruxo Thymes. - Isso torna as coisas um pouco mais difceis.
O Bruxo Thymes coou a cabea mais uma vez.
- Bem, nem todos esto aqui, voc sabe disso. Um nome me vem  mente. E ele  at
capaz de concordar em ir. Se quiser v-lo, teremos de descer at as Catacumbas...
                                   *
Bem - Melanie dirigiu-se ao senhor Majeika -, agora voc j sabe como  uma estao.
- Estavam na plataforma, aguardando o trem especial a vapor.
- Sim - concordou o senhor Majeika, hesitante, olhando a volta. - Mas ainda no sei
para que serve.
- Eu lhe explicarei - disse Thomas. -  o seguinte...
Mas naquele momento ouviu-se o som agudo de um apito e eles puderam ver o trem
a vapor bufando nos trilhos em direo a eles.
O senhor Majeika gritou, apavorado, e comeou a correr.
- Um drago!  um drago!
Thomas e Melanie correram atrs dele e o agarraram, arrastando-o para fora da sala de
espera, onde estava tentando se esconder.
- No  um drago - informou Melanie com firmeza. -  apenas um trem.
O trem entrou na estao e a mquina lanou uma nuvem de vapor ao passar por eles, com
o fogo bramindo na cabine. O senhor Majeika estava todo trmulo de pavor.
- Olhem! Fogo, fogo! E vapor, e fumaa! - gritou. - S drages respiram vapor e
fumaa e tm um fogo assim no ventre.
- Ah, a est voc, Majeika - exclamou o senhor Potter, passeando pela plataforma.
- Entre!
- No vou subir em um drago, senhor Potter - estremeceu o senhor Majeika.
- Oh, vai sim - intrometeu-se Melanie com firmeza. - Todos a bordo, senhor Majeika!
As Catacumbas walpurgianas so um dos lugares mais escuros, fantasmagricos e
medonhos de toda a Walpurgis, cheias de teias de aranha e iluminadas por uma sinistra luz
esverdeada.
At mesmo o Venervel Bruxo estava um pouco nervoso quando, junto com o Bruxo 
Thymes, andava s apalpadelas por uma passagem estreita.
- Tem certeza de que este  o lugar certo, Thymes? - perguntou, ansioso. - Eu no 
gostaria de entrar em um caminho errado, pois nunca se sabe o que se pode encontrar.
- Sem dvida - respondeu o Bruxo Thymes. - Mas esta deve ser a cmara certa. Se bem 
me lembro, ele mora em um caixo de vidro aqui dentro. - Enfiou a cabea por baixo de uma 
passagem estreita em arco e conduziu o Venervel Bruxo at uma gruta de aparncia 
particularmente sinistra.
- Um caixo de vidro? - perguntou o Venervel Bruxo. - Voc disse caixo?
                                   *
- Ento, isso no  emocionante, crianas? - perguntou o senhor Potter, observando o
caos a seu redor dentro do trem.
No momento em que o apito soou e o trem comeou a se movimentar em direo a Much 
Barty, irrompeu uma briga entre os integrantes da terceira srie. Muitos subiram nas prateleiras de 
bagagem e o restante ficou discutindo para ver quem poderia conseguir um lugar perto das janelas.
- Ah, Majeika - suspirou o senhor Potter, vendo o senhor Majeika cambalear nervoso 
pelo corredor -, voc pode tomar conta disso. - E o senhor Potter passou por ele, trancando-se no 
banheiro.
- T-tomar c-conta, senhor Potter? - disse o senhor Majeika, nervoso, olhando pela janela 
do corredor. - C-como quiser.
Mas algum no deveria ficar de olho naquele drago? Ele ainda est cuspindo fogo. Sabe 
disso?
Thomas e Melanie, procurando lugares para sentar, encontraram um compartimento vazio. 
Vazio, isto , com exceo de Hamish Bigmore, ali sentado sozinho, jogando sal em um saco de 
salgadinhos crocantes.
- Importa-se de nos juntarmos a voc, Hamish? - perguntou Melanie.
- E claro que me importo - respondeu Hamish Bigmore. - Estou com o bilhete de 
temporada de meu pai e ele sempre viaja de primeira classe. Saiam, antes que eu chame o guarda!  
- E apontou para o aviso afixado na janela: Apenas para portadores de passagem de primeira 
classe.
                                   *
O Bruxo Thymes encontrara o caixo de vidro e estava batendo nele.
- Saia, saia, seja voc quem for! - entoava.
O vidro estava sujo, e o Venervel Bruxo no conseguia ver quem ou o que estava dentro 
do caixo.
- Tem certeza de que essa  uma boa idia? - perguntou, ansioso.
-  o feitio certo para faz-los levantar, voc sabe - disse o Bruxo Thymes. E entoou 
mais uma vez: - Saia, saia, seja voc quem for!
O caixo de vidro comeou a abrir, rangendo.
O senhor Majeika estava comeando a se acostumar com o fato de estarem viajando de 
drago. No final das contas, a pavorosa criatura ainda no os havia devorado. Mas ele podia 
imaginar como seria se o tivesse feito. Uma bocarra se abriria e, repentinamente, tudo ficaria escuro 
quando as pessoas fossem tragadas para o ventre do drago.
Naquele momento tudo ficou escuro. E o senhor Majeika berrou.
- Est tudo bem, senhor Majeika! - gritou Melanie.
- O drago nos engoliu! - berrou o senhor Majeika.
- No, no engoliu - explicou Thomas, pacientemente. - S estamos dentro de um 
tnel, nada mais.
O senhor Potter emergiu do banheiro e comentou:
- Ah, Majeika, parece que voc est se divertindo. Nada como um belo dia de passeio 
relaxante, no ?
- No, senhor Potter - estremeceu o senhor Majeika.
                                   *
- Saia, saia, seja voc quem for! - entoou o Bruxo Thymes ainda mais uma vez e ergueu a
ponta da sua vara de maneira que a luz esverdeada na gruta se tornasse um pouco mais forte.
- V embora - disse uma voz fraca vindo da abertura do caixo. - No gosto de luz. Ela
me deixa nervoso.
- Saia, saia, seja voc quem for! - repetiu o Bruxo Thymes.
- No sairei - replicou a voz fraca.
- Oh, sim, voc sair - insistiu o Bruxo Thymes com firmeza, colocando a mo na 
abertura. - Saia da!
E para fora, muito a contragosto, veio um fantasminha magro, trmulo, de longos cabelos 
grisalhos e rosto to branco quanto uma folha de papel.
- Esse - disse o Bruxo Thymes ao Venervel Bruxo -  Phil, o Espectro.
O pequeno rosto plido fixou-se neles.
- Phil, o Espectro - anunciou o Venervel Bruxo -, voc foi escolhido para fazer uma 
visita a Britland.
- Por favor, no! - estremeceu o fantasma, tentando voltar ao caixo de vidro. Mas o 
Bruxo Thymes segurou-o pelo pescoo.
-  uma ordem - disse ao fantasma.
- No! - guinchou o fantasma, retorcendo-se tanto, que a cabea caiu. - Isso sempre 
acontece quando fico aterrorizado, - explicou, colocando-a de novo no lugar.
- Preste ateno, Espectro - o Venervel Bruxo falou com firmeza -, voc no pode 
passar o resto de sua vida, digo, de sua morte, enfiado nesse miservel caixo. Saia e faa o trabalho
para o qual foi treinado! Espera-se que voc assombre pessoas.
- Isso mesmo, Espectro - acrescentou o Bruxo Thymes. - J est mais do que na hora 
de voc assombrar.
- Mas no quero assombrar ningum, senhor - argumentou Phil, o Espectro, 
miseravelmente. - Sou muito tmido. Eu costumava assustar um pouco, na surdina, mas eu mesmo 
ficava mortalmente aterrorizado. Por isso, me afastei e me escondi aqui, senhor. Apenas alguns 
outros fantasmas passam rapidamente por aqui, uma vez ou outra.
- Voc  um sujeitinho infeliz, no ? - observou o Venervel Bruxo. - Nunca se sente 
solitrio?
- Bem, senhor - respondeu Phil, o Espectro -, sinto-me um pouco s, de vez em 
quando.
- Exatamente isso! O Aprendiz de Bruxo Majeika est muito solitrio l embaixo, em 
Britland, e voc foi escolhido para ir l e alegr-lo, apenas por uma noite, a Noite de Walpurgis.
- Mas, senhor...
- No quero ouvir mais uma palavra, Espectro. Voc vai para l!
Mas ele no estava disposto a obedecer. De modo que o Bruxo Thymes e o Venervel 
Bruxo tiveram de empurrar o pobre Phil, o Espectro, buraco abaixo, pelo cu, de Walpurgis para 
Britland. A infeliz criatura berrava enquanto caa.
Se estivesse usando um lenol branco, como os fantasmas muitas vezes usam, ele teria 
funcionado como um pra-quedas.
Mas aquele era um fantasma do estilo medieval, uma vez que era da poca de Henrique 
VIII, e seus gibo e cales no funcionavam como algum tipo de freio contra o vento. Caiu muito 
depressa e aterrissou com um som surdo bem perto de Much Barty. Fantasmas nada pesam, de 
modo que ele no se machucou, mas tudo aquilo foi um choque terrvel.
- Muuu! - reagiu uma vaca bem atrs dele, e o pobre Phil, o Espectro, teria largado a sua 
pele, se a tivesse. Da forma como as coisas estavam, ele deu um pequeno grito e o livro de 
Instrues para walpurgianos em Britland caiu de seu bolso.
Aquilo fez com que se lembrasse: ele deveria verificar no livro as ordens que recebera. 
"Aps a chegada em Much Barty", leu, "apresente-se imediatamente ao Aprendiz de Bruxo 
Majeika, que geralmente pode ser encontrado na escola de Saint Barty".
Phil, o Espectro, preparou-se para pegar a estrada.
                                   *
- Bem - murmurou a senhora Brace-Girdle, entrando em seu carro e batendo a porta,
basta. Dane-se esse tal de Jasper, o Alegre, por no aparecer, deixando-me aqui plantada, esperando
para nada. Para mim, chega! - Ela acabara de engrenar o carro quando viu algum, em roupas
medievais, andando pela estrada. - Ento, a est voc! - bufou a senhora Brace-Girdle,
abaixando o vidro da janela. - Boa hora para chegar, eu diria. Sente-se no banco traseiro. A porta
no est trancada. - E, de fato, no estava, mas Phil, o Espectro, no precisava abrir portas. Passou 
atravs daquela e se materializou no outro lado, sentando-se no banco de trs do carro da senhora 
Brace-Girdle. Nada havia no seu manual a respeito daquele habitante em Britland, mas ele 
reconhecera na senhora Brace-Girdle o ar de quem espera ser obedecido. - Agora - disse ela,
partindo -, em pouco tempo estaremos no Castelo Chutney.
No Castelo Chutney, o proprietrio, lorde Reg Pickles, olhava triste pela janela para o grupo 
da escola de Saint Barty que acabava de sair do nibus.
- Outra maldita festa de escola, no! - resmungou lorde Reg.
- No se aborrea, benzinho - ponderou a esposa, lady Lillie. - Ajuda a pagar as contas, 
no , Reg?
L fora, o senhor Potter estava contando a histria do Castelo Chutney ao senhor Majeika.
- O proprietrio atual  lorde Reg Pickles, fundador das famosas Gordas Cebolas em 
Conserva para conhecedores de Bartyshire, iguarias que voc sem dvida j saboreou muitas vezes, 
no , Majeika?
- Eu no, senhor Potter - respondeu o senhor Majeika.
- E aqui est ele, crianas - chamou o senhor Potter, vendo lorde Reg emergir sob o arco 
da entrada. - Um verdadeiro membro da Grande Aristocracia Britnica! Um Lorde de verdade, em 
carne e osso!
- Prazer em conhec-las, crianas - cumprimentou lorde Reg, segurando um pote de 
Gordas Cebolas em Conserva. -Permitam-me apresentar-lhes minha esposa, lady Lillie.
- Certo, pessoal - falou lady Lillie. - A loja de souvenirs  ali. Preparem o dinheiro! 
As crianas dispararam em busca dos souvenirs.
- Puxa, isso no  divertido, Majeika? - perguntou o senhor Potter. - Um verdadeiro 
fragmento de histria.
- Sim, senhor Potter - suspirou o senhor Majeika, obedientemente.
- Ah, Majeika, voc poderia supervisionar a descarga das sacolas de pernoite?
- Sacolas, senhor Potter? Que tipo de sacolas?
- Maletas, meu querido amigo. No me diga que voc no trouxe uma? Certamente sabia 
que iramos passar a noite...
- No, no sabia - respondeu o senhor Majeika, infeliz, pensando em sua fogueira ao ar 
livre da Noite de Walpurgis, que agora ele jamais teria a oportunidade de acender.
A senhora Brace-Girdle, ainda de muito mau humor, dirigia com bastante rapidez. Dobrou 
uma esquina e, vendo um sinal vermelho  sua frente, precisou frear bruscamente. O carro parou de 
repente e a cabea de Phil, o Espectro, caiu. 
Havia um policial de servio no sinal, e a senhora Brace-Girdle abaixou o vidro da janela.
- Senhor guarda, pode me indicar o caminho para o Castelo Chutney?
O policial aproximou-se e lhe explicou. Ento, a luz do sinal mudou para verde e, quando o 
carro passou, o policial tambm ficou um pouco esverdeado, pois vira uma pessoa no banco traseiro 
segurando a prpria cabea no colo. E essa mesma cabea virou-se e olhou-o.
                                   *
Lady Lillie Pickles estava levando ou, melhor, arrastando, as crianas em uma excurso
pelo castelo. Em especial, arrastava Hamish Bigmore, que ignorava todos os avisos de No Tocar.
- Por aqui, crianas - chamava -, lembrem-se de no tocar nada.
Enquanto ela estava de costas, Hamish pegou um vaso antigo com uma etiqueta na qual se 
lia Chins, Dinastia Ming.
- Meu pai tem coisas mais bonitas do que essa - disse Hamish.
Lady Lillie se virou e viu o vaso nas mos do menino.
- Eu disse para no mexer - falou rispidamente e deu-lhe um tapa na mo.
Ento, uma das outras crianas pulou sobre um cordo e sua ateno foi desviada. Hamish
deixou cair o vaso, que se despedaou em milhes de cacos.
- Oh, no! - sussurrou Thomas.
O senhor Majeika, conduzindo o final da fila de crianas, conseguiu acompanhar o desastre.
Em um instante, seu tufo de cabelo moveu-se, rpido, e, magicamente, o vaso consertou-se sozinho,
flutuando at o lugar na mesa em que sempre estivera.
Apenas Thomas e Melanie viram aquilo. Olharam um para o outro.
- Ele ainda ... - comeou Melanie.
- ...mago, Melanie! - completou Thomas.
- Magnfico, no , Majeika? - comentou o senhor Potter com o senhor Majeika, quando
entraram no Salo Nobre.
- Muito lindo, senhor Potter - concordou o senhor Majeika. - Eu morava em lugar
enorme como esse, o senhor sabe.
- Como assim? - perguntou lorde Reg, impressionado. - Junto com outros lordes e
ladies, e tudo mais?
- No - explicou o senhor Majeika - junto com outros bruxos e bruxas. Quero dizer...
que era um lugar muito encantado.
-  mesmo? - respondeu lorde Reg. -  claro que no somos lorde e lady desde o
nascimento.
- Verdade? - disse o senhor Potter. - Estou surpreso, senhor.
- No - afirmou lorde Reg. - Quando a conheci, a patroa fazia cebolas em conserva em Poplar.
- No diga - observou o senhor Potter. -Jamais teria imaginado... e voc, Majeika?
- Certamente, tambm no, senhor Potter - confirmou o senhor Majeika.
- Claro que agora temos muita classe - observou lorde Reg.
- Sim,  surpreendente o que cebolas em conserva podem fazer por um homem, senhor
Potter. - Ele deu um sonoro arroto.
- Sim? - perguntou o senhor Potter educadamente.
- Exato - disse lorde Reg, batendo no estmago. - Quero dizer, depois que se inicia a
digesto das cebolas, pode-se ser um bocado barulhento. - Ele deu outro arroto.
                                   *
- Devo dizer - comentou a senhora Brace-Girdle, entrando na estrada com a indicao
para o Castelo Chutney - que, para algum que se chama Jasper, o Alegre, voc  incrivelmente
silencioso.
No assento traseiro, Phil, o Espectro, ajustava mais uma vez a prpria cabea sobre os
ombros. E no respondeu.
                                   *
- E tambm no mexa naquilo ali - disse rispidamente lady Lillie, afastando Hamish
Bigmore de um instrumento medieval de tortura, no qual ele estava tentando enfiar o p de um
menino da terceira srie.
- Bem, senhor - observou o senhor Potter, olhando ao redor na masmorra -, certamente
tem tudo aqui.
- Quase tudo, senhor Potter - respondeu lorde Reg, abrindo o pote e oferecendo ao
senhor Potter uma cebola em conserva. - S nos falta uma coisa, que seria como a cobertura da
conserva, por assim dizer, se o tivssemos.
- E o que , lorde Pickles? - perguntou o senhor Majeika.
- Um fantasma residente - respondeu lorde Reg Pickles, lanando uma cebola na boca.
                                   *
A senhora Brace-Girdle estacionou o carro perto da ponte levadia e saiu, batendo a porta
para fech-la.
-  melhor voc esperar a dentro at eu lhes avisar que Jasper, o Alegre, chegou,
ordenou. - Pode no ser o momento certo de voc entrar ali agora. - Ela transps o arco, em
direo  escadaria principal e ao Salo Nobre. Lorde Reg estava justamente conduzindo o senhor
Potter e o senhor Majeika de volta das masmorras. - Ah, senhor Potter! - exclamou a senhora
Brace-Girdle. - Trouxe-o comigo. Posso faz-lo entrar diretamente?
- Quem, Bunty? - perguntou o senhor Potter, intrigado.
- Como assim - disse a senhora Brace-Girdle... - Jasper, o Alegre, o Feliz Menestrel.
- Jasper, o Alegre? - repetiu o senhor Potter, intrigado. - Mas Jasper, o Alegre, j est
aqui h horas. Ele se encontrou conosco na Encruzilhada Chutney e dirigiu o nibus at aqui. Est
l no ptio, tocando seu alade.
A expresso do rosto da senhora Brace-Girdle desabou.
- Ento, quem eu trouxe em meu carro?
L embaixo, perto da ponte levadia, lady Lillie cuidava da loja de souvenirs e da bilheteria.
Ouviu o som da catraca e pensou: "Algum deve estar chegando."
- Sim? Bilhete de adulto, criana ou aposentado?
Phil, o Espectro, que era de baixa estatura, tirou a cabea de cima dos ombros com uma das
mos e a segurou diante do vidro da bilheteria.
- Bilhete de fantasma, por favor - pediu a cabea.
Lady Lillie gritou.
                                   *
- Agora, crianas! - chamou o senhor Potter. -  hora de irmos olhar as armaduras na
longa galeria. Essa  uma parte particularmente escura e sinistra do castelo, por isso, no se
esqueam de tomar cuidado com algum fantasma! - Virou-se para o senhor Majeika. -  apenas
uma pequena brincadeira minha, Majeika. No acredito em fantasmas.
- No acredita, senhor Potter? - perguntou o senhor Majeika nervosamente. Em
Walpurgis, aprendera tudo sobre fantasmas. Eram amigos sinistros que viviam nas Catacumbas,
onde a maioria dos Bruxos e Bruxas no gostava de ir. Jamais vira um e no gostaria de comear a
ver, agora.
- No se preocupe, senhor Majeika - tranqilizou-o Melanie, que podia notar seu
nervosismo. - Ns o protegeremos dos fantasmas.
- Fantasmas! - bufou Hamish Bigmore. - S bebs acreditam em fantasmas!
Phil, o Espectro, considerou o castelo bastante bonito por dentro, um bom lugar para
assombrar, caso pretendesse fazer isso, mas estava medrosamente nervoso. Ouvia vozes distantes,
como se ali houvesse... pessoas.
Alguns fantasmas no acreditavam em pessoas, mas Phil, o Espectro, sabia mais coisas. Ali
nas Catacumbas de Walpurgis, sua av-fantasma lhe contara histrias horripilantes sobre pessoas
que chegavam  noite para assustar pobres fantasminhas.
Pessoas que abriam portas, em vez de deslizar atravs da madeira; pessoas que subiam e
desciam escadas, em vez de flutuar no ar; pessoas que emitiam palavras, em vez de gemer e emitir
gritos agudos; pessoas que tinham coisas horrveis como cmaras, gravadores e rdios, em vez de
confortveis bolas de ferro e correntes; pessoas que eram feitas de sangue e carne, em vez de serem
apenas um fragmento de ectoplasma ou um esqueleto chacoalhante.
- Mas no se preocupe, meu pobre fantasminha - dizia-lhe sua av. - Se tiver sorte,
talvez nunca encontre uma... pessoa!
Agora, no Castelo Chutney, o infeliz Phil, o Espectro, sabia que estava cercado de pessoas.
Procurou um lugar para se esconder.
Descobriu uma sala cheia de armaduras. Uma delas serviria esplendidamente.
- Ento, aqui estamos, crianas - disse o senhor Potter, quando entraram na armaria.
- A maioria dessas armaduras  da poca de Henrique VIII. No  fantstico?
- Um monte de lixo velho e enferrujado - resmungou Hamish Bigmore. - Teria sido
melhor se as tivessem derretido e transformado em latas de ervilhas. Isso mesmo! - E agarrou uma
das maiores armaduras e a sacudiu, fazendo-a chacoalhar ruidosamente.
Dentro dela, o pobre Phil, o Espectro, estava sendo horrivelmente agitado. Vov tinha
razo! As pessoas eram terrveis.
Ele estava aterrorizado. E tambm com muita raiva. Que direito tinha aquela criatura de
chegar e assust-lo daquela maneira?
Ele lhe daria uma lio!
Hamish Bigmore virou-se de costas para a armadura e zombou:
- Ervilhas. Preferia ter uma lata de ervilhas. Ai!
De repente, a armadura lhe dera um chute muito forte no traseiro.
Thomas e Melanie viram o que acontecera e riram at as lgrimas escorrerem por seus
rostos.
- Deve ter sido um fantasma, Hamish! - sugeriu Thomas.
Hamish Bigmore lanou-lhes um olhar zangado.
- Apenas tropecei e me chutei acidentalmente - disse. - S bebs acreditam em
fantasmas.
- A-aquilo foi mesmo um fantasma? - perguntou o senhor Majeika a Thomas e a
Melanie, quando voltaram ao Salo Nobre.
- Pode nos revistar - disse Thomas. - Mas havia alguma coisa ali dentro que chutou
Hamish.
- E com certeza no fomos ns - completou Melanie. - No ficaria nada surpresa se,
em um velho castelo como esse, houvesse um fantasma flutuando pelo espao.
- Oh n-no - gemeu o senhor Majeika.
Phil, o Espectro, teve alguma dificuldade para sair da armadura. Pensou se aquilo seria
mesmo seguro para se esconder.
Depois, lembrou-se de que no deveria esconder-se de maneira alguma. Deveria, sim,
procurar o senhor Majeika. Por que o haviam carregado para aquele castelo miservel? Deveria
estar em Much Barty, procurando o senhor Majeika na escola.
Subitamente, ele ouviu uma voz vindo l de fora, do vestbulo. Ficou gelado. Era, outra vez,
uma pessoa, que terror!
- Senhor Majeika! - chamava a voz (era Thomas). - Senhor Majeika! Os quartos onde
iremos dormir so l em cima. Vai subir para ver o seu?
Phil, o Espectro, no podia acreditar em seus ouvidos. O senhor Majeika estava... no
castelo! Isso era o que se podia chamar de um golpe de sorte. Agora, tudo que ele precisava fazer
era encontr-lo e se apresentar ao companheiro walpurgiano.
Tomara que conseguisse sem encontrar mais pessoas.
Cuidadosamente, enfiou a cabea pela porta e olhou para fora. Sim, o perigo havia
desaparecido. Silenciosamente, flutuou escadas acima em direo aos quartos.
Em seu quarto, o senhor Majeika fez um rpido movimento com o seu tufo de cabelo, e
ento surgiu uma maleta com os pertences para um pernoite - uma camisola de dormir, uma
escova de dentes e uma touca. Isso, pensou, deve ser o bastante.
- Caramba! - disse Thomas.
- Bem - suspirou Melanie -, durma bem, senhor Majeika. Tenho certeza de que
realmente no h fantasmas aqui, e, se houver, provavelmente, no o perturbaro.
- Espero que n-no - respondeu o senhor Majeika.
Do lado de fora, Phil, o Espectro, apalpava nervoso o caminho ao longo do corredor escuro.
Que porta deveria tentar?
Lady Lillie Pickles retirava a dentadura antes de deitar-se quando ouviu a porta do quarto
abrir-se por trs dela.
-  voc, Reg? - perguntou, sem olhar para trs. - Prepare-nos uma caneca de
chocolate, por favor, querido. Todas essas conservas que comemos no jantar me provocaram alguns
gases.
No houve resposta. Lady Lillie olhou no espelho e viu uma cabea fantasmagrica, plida,
observando-a do vo da porta. E gritou.
Quando se acalmou - o encontro com a senhora que tirou os dentes (uma coisa que
nenhum fantasma conseguiu aprender a fazer) o deixara profundamente apavorado -, Phil, o
Espectro, flutuou ao longo do corredor.
- Senhor Majeika! - chamou suavemente, caso o Aprendiz  de Bruxo pudesse de algum
modo ouvi-lo. - Senhor Majeika!
O senhor Majeika estava prestes a cair no sono quando pensou ter ouvido algum
pronunciando seu nome. Teria sido Thomas ou Melanie? Bocejando, saiu da cama e, nas pontas dos
ps, andou at a porta. Todo aquele lugar ainda o amedrontava.
Por que tinham de estar naquele castelo horrvel e arrepiante, especialmente na Noite de
Walpurgis, quando ele queria estar em casa, danando ao redor da fogueira?
Ele abriu a porta. No havia ningum no corredor.
Mas ouviu novamente a voz, chamando suavemente:
- Senhor Majeika!
Tremendo de frio e medo, o senhor Majeika andou cuidadosamente at o lugar de onde,
pensou, teria vindo a voz.
- Senhor Majeika! - chamou Phil, o Espectro, desesperadamente. Seus nervos estavam
desgastados. Se no encontrasse logo o Aprendiz de Bruxo, iria para Walpurgis e exigiria que o
trouxessem imediatamente de volta.
Talvez at mesmo conseguisse chegar a tempo para uma das famosas celebraes da Noite
de Walpurgis das quais tanto ouvira falar, mas ainda no participara.
No havia ningum  vista e o lugar estava absolutamente silencioso. Sim, certamente,
agora lhe seria permitido voltar para casa.
Dobrou um canto e colidiu com o senhor Majeika! Ele berrou e sua cabea caiu.
O senhor Majeika tambm gritou, e mais ainda quando viu a cabea quicando ao longo do
corredor.
O corpo de Phil correu em um sentido e a cabea quicou no sentido oposto.
O senhor Majeika virou-se e correu, mas no conseguia encontrar o caminho de volta para o
quarto. Virava sempre para o lado errado no escuro e s depois de uns 10 minutos tateou o caminho
de volta ao prprio quarto.
Enquanto isso, Phil havia conseguido encontrar a cabea. Sem parar para coloc-la,
disparou em busca de segurana para dentro da primeira porta aberta que descobriu.
E, por acaso, aquela porta (embora ele no o soubesse) era a porta do quarto do senhor
Majeika.
- Ufa! Enfim meu quarto - murmurou o senhor Majeika, afundando exausto na cama e
puxando de volta os lenis, de modo a poder logo dormir.
Perto da cama, a cabea de Phil, o Espectro, olhava, aterrorizada, para o senhor Majeika.
Thomas e Melanie ouviram o gritos e correram para o quarto do senhor Majeika em roupas
de dormir, piscando os olhos de sono.
- H um fantasma! - falava, ofegante, o senhor Majeika, apontando com a mo trmula
para Phil.
- Sim - concordou Thomas. -  o que podemos ver. E com certeza os fantasmas so
walpurgianos, no so? - O senhor Majeika balanou afirmativamente a cabea. - Ento
- continuou Thomas -, por que vocs dois no se cumprimentam do modo adequado?
Phil, o Espectro, olhou fixamente para Thomas, depois para o senhor Majeika e, ento,
comeou a sorrir.
- Aprendiz de Bruxo Majeika? - falou, nervoso.
O senhor Majeika, que tambm havia comeado a sorrir, confirmou com um movimento de cabea.
- Aprendiz Esprito?
- Espectro, senhor - disse Phil, o Espectro. Ento, ele e o senhor Majeika puxaram um
o nariz do outro, que  como todos os walpurgianos sempre se sadam.
- Mas o que, em nome de Walpurgis, voc est fazendo aqui embaixo, ainda mais na
Noite de Walpurgis? - perguntou o senhor Majeika.
- Foi tudo idia do Venervel Bruxo - explicou Phil, o Espectro. - V l - disse
- e anime Majeika.
- Ele fez isso? - perguntou o senhor Majeika, excitado. - Ele fez mesmo isso?
- Assim voc no ficaria sozinho na Noite de Walpurgis.
- Bem, bem - disse o senhor Majeika. Ento, um pensamento cruzou-lhe a mente.
- Aprendiz Esprito Espectro, voc no gostaria de um emprego?
- Um emprego, Aprendiz de Bruxo Majeika? - perguntou Phil, o Espectro, nervoso.
- Uma assombrao - explicou o senhor Majeika. - Uma assombrao verdadeira,
permanente. Um adorvel castelo histrico, todo para voc. E muitas pessoas de verdade para
assustar.
- Um castelo? Pessoas? - disse Phil, o Espectro, ansioso. - Oh, no-no, ainda no. Sou
muito jovem.
- Quantos anos voc tem? - perguntou Thomas.
- Quatrocentos e trinta - respondeu Phil, o Espectro.
- Tudo bem, ento - disse o senhor Majeika -, imaginei que voc teria idade suficiente
para um verdadeiro emprego de assombrao. Bem aqui, no Castelo Chutney.
Lorde Reg e lady Lillie ficaram bastante surpresos por terem sido acordados no meio da
noite, especialmente quando o senhor Majeika explicou que desejava apresent-los a um fantasma.
S depois de dominar o medo, lady Lillie comeou a se dirigir a Phil.
- Oh, ele no  um amorzinho, Reg? - falou suavemente.
- Certamente, minha pequena Pickalillie - concordou lorde Reg. - Pense em todos os
amveis visitantes que ele nos trar.
O fantasma do Castelo Chutney! Podemos anunci-lo em todos os cartazes.
- Mas eu sou um fantasma tmido - ponderou Phil, nervoso, para o senhor Majeika.
- Diga a eles que eu sou tmido.
- Eu era tmido quando comecei a trabalhar como professor, Phil - tranqilizou-o o
senhor Majeika -, mas essa vida em Britland faz milagres. Voc vai adorar.
Phil pensou por alguns instantes.
- Posso dormir em uma torre? - perguntou, esperanoso.
- Claro - afirmou lorde Reg.
- Uma torre antiga, realmente malcheirosa, onde nenhuma pessoa se atreveria a ir?
- A torre oeste est cheia de cebolas mofadas que no puderam ser postas em conserva
- explicou lady Lillie. - Ningum pe os ps ali.
- Oh, senhor Majeika - suspeitou Phil, o Espectro, sorrindo. - Pense s nisso, uma torre
de verdade para mim. Puxa, posso fazer a minha algaravia ao luar e voar junto com os morcegos.
Mal posso esperar!
- Parece que Phil, o Espectro, no voltar - disse o Venervel Bruxo. - Majeika
solicitou uma ausncia permanente para ele.
Ele conseguiu um verdadeiro trabalho de assombrao.
- Esplndido - considerou o Bruxo Thymes. - Precisamos assinalar isso no carto de
progresso de Majeika. Ele est indo realmente bem neste perodo.
- E aparentemente ele e Phil, o Espectro, tiveram uma alegre Noite de Walpurgis juntos,
comendo cebolas em conserva.
- Ugh! - rosnou o Bruxo Thymes. - Nenhum elogio ao gosto de Britland. D-me
qualquer dia um sanduche de erva do pntano.

                                 *  *

HUMPHREY CARPENTER traz muitos conhecimentos do mundo da magia a suas
histrias, tendo escrito as biografias de dois dos mais famosos escritores de histrias
na rea da fantasia, J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis. A leitura de seus livros preparou-o
para criar as aventuras do pequeno bruxo, o senhor Majeika, que agora se tornou
famoso em livros e na televiso. Carpenter, que nasceu em Oxford, foi
apropriadamente educado na Escola Dragon e durante algum tempo tocou em uma
banda chamada Vile Bodies. Depois trabalhou na BBC antes de se dedicar  literatura
em tempo integral. Carpenter apresentou seu personagem mais popular em 1984, em
Mr. Majeika, ao qual se seguiu quase uma dzia de outros ttulos. Ele ainda encontrou
tempo para dirigir um grupo teatral chamado The Mushy Pea Theatre Company, e
gosta de seu passatempo de explorar cruzamentos de estradas de ferro em
decadncia. Homem com um maravilhoso senso de humor, Humphrey Carpenter sabe
como as crianas pensam e se acredita parecido com o senhor Majeika "Ele sou eu e
est a meio caminho entre o mundo da criana e o do adulto." Por instinto, defende as
crianas e no  exatamente anti-autoritrio, mas fica bastante satisfeito quando
a autoridade se irrita.

                                  * *

GRIMNIR E A ALTERADORA DE FORMAS
Alan Garner

                                   *

    Muito j foi escrito sobre feiticeiros em livros de histria e vrios personagens temerosos em
fico: por exemplo, o cruel Gorice em The Worm Ouroborus, de E. R. Eddison (1922), o monstro
do mal, Grimnir, em A pedra encantada de Brisingamen, de Alan Garner (1960), e claro,
Voldemort, o Lcifer entre os feiticeiros, que matou os pais de Harry Potter antes do lanamento
do primeiro romance, Harry Potter e a pedra filosofal (1997), e tambm infligiu a cicatriz em
forma de raio na testa do menino. Com certeza, ele far outras tentativas contra a vida do jovem
feiticeiro em prximas histrias. Grimnir, "O Encapuzado", tambm foi uma vez um homem sbio
que caiu na tentao de praticar as artes proibidas da magia negra e agora est dominado pelas
ambies do mal. Como freqentemente acontece com feiticeiros que escolhem o caminho errado,
Grimnir formou uma aliana com uma feiticeira igualmente intrigante, Selina Place, a principal
feiticeira do Morthbrood, temida por causa de sua reputao como "velha alteradora de formas".
Nesta histria, os dois se apoderam da pedra Firefrost e planejam aprision-la em um crculo
mgico deforma que possam usar o seu poder. Ignoravam, porm, que duas crianas inteligentes,
Colin e Susan, de quem a pedra em forma de lgrima foi roubada e que sabiam muitas coisas sobre
magia negra e branca, graas aos ensinamentos do grande feiticeiro Cadellin Silverbrow, haviam
seguido a sua pista at a manso sombria e muito comentada de Selina - o Penhasco de Santa
Maria -, onde foras terrveis esto prestes a ser libertadas...

                                  * *

    O quarto era comprido, com o teto alto, pintado de preto. Nas paredes e sobre as janelas, tapearias
de veludo preto. O cho de madeira, gasto, estava manchado de um vermelho-intenso. Sobre uma
mesa repousava uma vara com extremidade bifurcada e uma bandeja de prata contendo um
montculo de p vermelho. Em um lado da mesa, sobre um suporte para leitura, apoiava-se um
velho e grande livro em pergaminho e, no outro, havia um braseiro com pedaos de carvo ardendo.
No havia nenhuma outra moblia.
Grimnir observava com muita m vontade, enquanto a alteradora de formas prosseguia com
o ritual de preparao. Ele no gostava de magia de feiticeiras, pois dependia demais dos grosseiros
espritos da natureza e do lento fermentar do dio. Preferia o rpido golpe de medo e os poderes
negros da mente.
Mas no havia dvida de que essa magia nada refinada tinha o seu valor. Empilhava fora
sobre fora, como uma onda em ascenso, e subjugava a presa com a lenta violncia de uma
avalancha. Se pelo menos fosse uma magia rpida! Talvez, agora, restasse muito pouco tempo antes
de Nastrond agir, baseado em suas crescentes suspeitas, e, ento... O corao de Grimnir contraiu-se
ante o pensamento. Oh, mas quando ele conseguir controlar o poder dessa pedra  sua vontade,
Nastrond ver surgir um verdadeiro esprito da escurido, para quem Ragnarok com tudo que
continha nada mais seria a no ser um fosso de criaturas nocivas que deveriam ser controladas e
ignoradas.
Mas como dominar a pedra? Ela fora capaz de aparar todos os seus ataques e, em
determinado momento, quase o destrura. A nica possibilidade dependia agora da feitiaria dessa
mulher, que precisava ser vigiada, pois a pedra no poderia tornar-se sua escrava. Ela tambm no
confiava nele mais do que se poderia esperar, e livrar-se dela, quando tivesse terminado sua parte
nos esquemas dele, no era problema de importncia imediata. A sombra de Nastrond estava cada
vez maior em sua mente e s poderia admitir um sucesso rpido.
Com a areia negra que havia derramado de uma vasilha de couro, a feiticeira alteradora de
formas comeou a traar no cho um crculo de padro intrincado. Parou diversas vezes para fazer,
com a mo, um sinal no ar, murmurar algo para si mesma com reverncia e, depois, continuar
derramando. Vestia uma tnica preta, atada na cintura por um cordo escarlate, e nos ps calava
sapatos pontudos.
A Morrigan estava to concentrada em seu trabalho e Grimnir to envolvido com os
prprios pensamentos, que no repararam nos dois pares de olhos que ocupavam totalmente a
lateral da janela.
O crculo estava completo. A alteradora de formas dirigiu-se  mesa e pegou a vara.
- O momento no  adequado para invocar a ajuda de que precisamos - disse ela,
- mas, se naquilo que voc ouviu, houver pelo menos um mnimo de verdade, temos de agir
imediatamente, embora pudssemos esperar uma atitude mais discreta de sua parte. - Ela apontou
para a nuvem cinzenta que pressionava a vidraa, agora livre de olhos observadores. -  bem
possvel que voc atraia atenes indesejveis.
Naquele momento, como que em resposta a seus receios, ouviu-se um clamor no lado mais
distante da casa. Era o lgubre ladrar de ces de caa.
- Ah, veja! Eles esto inquietos: h algo no ar. Talvez fosse prudente deix-los procurar o
que quer que seja. Assim, logo saberemos se  algo alm de suas foras, como pode muito bem ser!
Porque, se no tivermos Ragnarok e Fundindelve sobre nossas cabeas antes de terminar o dia, ser
um no, obrigado e adeus para voc.
A passos largos, ela contornou o canto da casa at a construo externa de onde viera o
barulho. Selina Place estava apreensiva e irritada. Apesar de toda a sabedoria, que grande tolo
Grimnir conseguira ser! E como se arriscara! Quem, em s conscincia, se encarregaria to
obviamente de tal incumbncia? Tal qual sua magia, ele no era adversrio para a pedra  encantada
de Brisingamen. Ela sorriu. Sim, a velha feitiaria seria capaz de subjug-lo, e ele sabia disso,
apesar de todo o seu rebulio em LJyn-dhu.
- Est bem, est bem! Estamos chegando! No precisam derrubar a porta!
Atrs dela, duas sombras saram da nvoa, deslizaram ao longo da parede e entraram pela
porta aberta.
- Por onde agora? - sussurrou Susan.
Encontravam-se num corredor apertado, com trs portas para escolher. Uma delas estava
entreaberta, e parecia ser de um vestirio.
- Vamos entrar aqui; ento veremos por qual porta ela passa.
Fizeram-no sem demora, porque o passo masculino de Selina Place vinha na direo deles,
saindo da nvoa.
- Agora faamos rapidamente o que for possvel - disse ela, quando voltou para junto de
Grimnir. - Talvez no haja qualquer perigo, mas no devemos nos sentir em segurana at termos
o controle da pedra. Entregue-a agora para ns.
Grimnir desatou uma sacola que levava  cintura e, de seu interior, puxou a pulseira de
Susan. Firefrost estava pendurada l, sua intensidade radiante oculta sob um vu leitoso.
A Morrigan pegou a pulseira e colocou-a no cho, no centro do crculo. Puxou as cortinas
sobre as janelas e portas, e ficou de p perto do braseiro, cujo brilho fraco quase no conseguia
vencer a escurido. Levou um punhado de p da bandeja de prata e, borrifando-o em cima dos
carves, gritou em voz alta:
- Demoriel, Carnefiel, Caspiel, Amenadiel .
Uma chama sibilou, enchendo o quarto com um brilho vermelho vivo. A alteradora de
formas abriu o livro e comeou a ler.
- Vos onmes it ministri odey et destructiones et seratores discorde...
- O que ela pretende fazer? - perguntou Susan.
- No sei, mas estou ficando arrepiado.
-... eo quod est noce vose coniurase ideo vos conniro et deprecur...
- Colin, eu...
- Psiu! Fique quieta!
- ... et odidfiat mier alve...
Sombras comearam a se juntar nas dobras das tapearias de veludo nos cantos mais
distantes do quarto.
Durante trinta minutos, Colin e Susan foram obrigados a ficar naquele esconderijo
desajeitado e, em menos da metade daquele tempo, o ltimo vestgio de entusiasmo evaporou-se.
Estavam onde estavam como resultado de um impulso, de um desejo interior que os havia impelido
sem que pensassem no perigo. Mas agora havia tempo para pensar, e a inatividade nunca  uma
ajuda  coragem. Teriam provavelmente rastejado para longe e tentado encontrar Cadellin, caso o
terrvel som de uma forte respirao que passava com regularidade embaixo da janela do vestirio
no os deixasse pouco dispostos a abrir a porta exterior. E, durante todo o tempo, o canto montono
da alteradora de formas fazia-se ouvir, elevando-se a determinados intervalos e transformando-se
em gritos severos de comando.
- Venha, Haborym! Venha, Haborym! Venha, Haborym!
Ento, as crianas comearam a sentir o calor seco e opressivo que logo se tornaria
simplesmente insuportvel. Penetrou-os at o bombear do sangue ecoar-lhes nos ouvidos e o quarto
girar de maneira enjoativa acima de suas cabeas.
- Venha, Orabas! Venha, Orabas! Venha, Orabas!
Seria possvel? Durante um intervalo de trs segundos as crianas ouviram o rudo de patas
andando nas tbuas desgastadas e um som alto de relincho selvagem naquela casa.
- Venha, Nambroth! Venha, Nambroth! Venha, Nambroth!
Um vento agarrou a casa pelos beirais, tentando arranc-la de suas fundaes de arenito.
Algo passou apressadamente com a fora cada vez maior do vento. As vozes perdidas do ar
chamavam umas s outras nos ambientes vazios, e uma nvoa apareceu rapidamente.
- Coniuro et confirmo super vos potentes in nomifortis, metuendissimi, infandi...
No momento em que Susan pensou que iria perder os sentidos, o calor sufocante diminuiu
o suficiente para lhes permitir respirar sem dificuldade; o vento amainou e um silncio pesado
envolveu a casa.
Aps minutos de profunda quietude, uma porta se abriu e a voz de Selina Place chegou at
as crianas, vindo do lado de fora do vestirio. Ela respirava com bastante dificuldade.
- E... podemos dizer que a pedra... estar... em segurana. Nada... de... fora... poder
atingi-la. Afaste-se... essa  uma fervura perigosa.... Se transbordar... e estivermos... perto, ser o
nosso fim. Depressa! A fora est aumentando e no  seguro ficar assistindo.
Cheio de desconfiana e com muitos olhares de relance para trs, Grimnir reuniu-se a ela,
passaram juntos pela entrada do lado oposto do corredor at que o som dos passos deles se
extinguiu.
- Bem, como samos desta confuso? - suspirou Colin. - Parece que estamos presos
aqui at ela chamar esses animais. E se ela for fazer mais daquelas coisas que escutamos, creio que
no desejo esperar tanto tempo.
- Colin, ainda no podemos ir! Minha Lgrima est naquele aposento e jamais teremos
outra oportunidade!
O ar agora estava muito mais fresco, no se conseguia ouvir qualquer som, estranho ou no.
Susan sentiu aquele aperto insistente no mais ntimo de seu ser, o que a fez ignorar todas as
promessas e prudncia quando encarou a nvoa l da ponte, na estao.
- Mas Sue, voc no ouviu a velha Place dizer que no era seguro permanecer ali dentro?
Se ela mesma tem medo de ficar, ento deve ser perigoso.
- Eu no me importo, tenho de tentar. Voc vem? Caso contrrio, vou sozinha.
- Oh... est bem! Mas acho que seria melhor se continussemos aqui dentro.
Saram do vestirio e, cuidadosamente, abriram a porta da esquerda.
No princpio, a luz sombria no lhes permitiu ver muito; contudo, conseguiram identificar a
mesa, o suporte de leitura e a coluna preta no centro do aposento.
- Caminho livre! - sussurrou Susan.
Entraram p ante p, fecharam a porta e ficaram parados enquanto seus olhos se
acostumavam  luz. Ento, viram.
A coluna estava viva. Erguia-se de dentro do crculo to laboriosamente feito por Selina
Place. Era uma coluna de fumaa oleosa em que se moviam formas estranhas. Seus contornos eram
indistintos, porm as crianas conseguiam ver o suficiente para desejar estar em outro lugar.
Enquanto assistiam, ocorreu o clmax. A coluna girou com velocidade cada vez maior e a
fumaa tornou-se mais espessa e densa. O cho comeou a tremer e vozes tristes, de uma grande e
terrvel distncia, encheram subitamente as cabeas das crianas. Fragmentos de sombras,
zumbindo como moscas, rodopiavam para fora das tapearias, sendo sugadas pela mal-cheirosa
espiral. Ento, sem aviso, a base da coluna tornou-se azul. O zumbido transformou-se em um
gemido louco e parou.
A massa giratria estremeceu como se um freio tivesse sido furiosamente acionado, perdeu
o impulso, morreu e tombou, como os restos de uma enorme rvore. Raios prateados subiram
atravs da fumaa, a coluna oscilou, fez-se em pedaos e desmoronou na bola de fogo que cresceu
para absorv-la. Uma voz protestou perto das crianas e cruzou a entrada atrs deles.
A intensidade da luz azul diminuiu e em seu lugar estava Firefrost, cercada pelos resduos
espalhados do crculo mgico da alteradora de formas.
Colin e Susan estavam assombrados. Ento, lentamente, como se receasse que a pedra
desaparecesse caso respirasse ou desviasse os olhos dela, Susan avanou e a pegou.
No silncio, ela abriu a pulseira e a prendeu no prprio pulso. No conseguia acreditar no
que estava fazendo. Haviam sido tantos os meses em que aquele momento assombrara os seus
sonhos e tantas as vezes em que lhe causara um despertar amargo.
Selina Place e Grimnir aguardavam em um quarto pequeno, abarrotado, sob os beirais.
Ambos foram levados a dar um passo quase insuportvel. Sabiam muito bem o preo do fracasso.
Nenhuma vez em mil anos algum daquela espcie havia desobedecido  ordem de
Nastrond, mas todos, em algum momento, haviam estado nos corredores externos de Ragnarok e
tinham olhado para o abismo. Por isso, Nastrond unia o mal  sua vontade.
- No deve demorar muito mais - disse a Morrigan. - Em cinco minutos a pedra deve...
Um rastro de fumaa apareceu por baixo da porta e flutuou pelo quarto, acompanhado por
um som borbulhante de lgrimas. A Morrigan ergueu-se da cadeira em um salto: seus olhos tinham
uma aparncia selvagem e havia gotas de suor em suas sobrancelhas.
- Non licet abire! - Ela abriu os braos em toda a sua extenso, obstruindo o caminho.
- Coniuro et confirmo super... - Mas a fumaa passou por ela, coleante, em direo  lareira e saltou
na boca de chamin. Uma rajada de vento passou gemendo tristemente pelas janelas e tudo ficou
quieto.
- No! No - ela resmungou, procurando a porta no escuro, mas Grimnir j a abrira,
disparando apressado ao longo dos corredores em direo s escadas. Estava a meio caminho do
primeiro lance quando se ouviu o som de vidros quebrados. A escadaria ficou momentaneamente
envolvida pelas sombras quando uma figura escura bloqueou a janela na altura de sua cabea. A voz
severa da Morrigan gritou de medo, e Grimnir virou-se como uma veloz e ameaadora aranha faminta.
O barulho despertou Colin e Susan do transe. A Morrigan gritou novamente.
- Preste ateno, vamos sair daqui! - disse Colin, puxando a irm para o saguo.
- Assim que estivermos fora, corra como uma louca. Estarei logo atrs de voc!
No andar de cima, dava-se incio a um verdadeiro tumulto e a maioria dos sons no era de
maneira alguma agradvel, mas pelo menos haviam feito com que o outro perigo parecesse menos
terrvel, at Colin abrir a porta. Ouviu-se um rosnado spero, e, saindo da nvoa, apareceu uma
forma que obrigou as crianas a voltarem aos tropeos para dentro da casa. Antes que pudessem
fechar a porta, o co de caa da Morrigan cruzou o limiar, revelando-se em toda a sua malignidade.
Parecia um bull-terrier, exceto que media quase um metro de altura at os ombros. As
orelhas, ao contrrio do restante do corpo branco, estavam cobertas com espesso plo vermelho.
Mas o que o diferenciava de todos os outros era o fato de que, das orelhas pontudas aos
lbios torcidos, nada havia entre a cabea e o focinho. O co no tinha olhos.
A besta deu uma parada, balanando a cabea alongada de um lado a outro e farejando, e
quando captou o cheiro das crianas moveu-se na direo delas com tanta segurana como se
tivesse olhos. Colin e Susan mergulharam em busca da porta mais prxima e para dentro do que era,
obviamente, uma cozinha e que nada mais tinha a oferecer a no ser outra porta.
- Temos de arriscar - disse Susan -, aquela coisa estar aqui em um segundo. - Ela
no depositava a menor confiana no frgil trinco que chacoalhava furiosamente sob o arranhar de
garras. Enquanto ela falava, ouviram outro som: o de passos que se aproximavam rapidamente da
outra porta!
Ento o trinco abriu e o co de caa estava no quarto.
Colin agarrou uma cadeira da cozinha e sussurrou:
- Fique atrs de mim.
Ao som daquela voz, o bruto imobilizou-se, mas s por um momento; ele havia encontrado
os seus alvos.
- Podemos alcanar uma janela? - Colin no ousava desviar os olhos do co de caa
enquanto ele avanava.
- No!
- H algum outro modo de sair?
- Nenhum. - Ele estava aparando os golpes e brandindo a cadeira, mas ela era pesada e
os braos dele doam. - H um armrio de vassouras ou coisa parecida, atrs de ns, com a porta
entreaberta.
- De que nos adiantar isso?
- No sei, mas Grimnir talvez no nos note ou o cachorro pode atac-lo ou... Oh, qualquer
coisa  melhor do que isto!
-  grande o bastante?
- Vai at o teto.
- Vamos. Entre.
Susan entrou e segurou a porta aberta para Colin, enquanto ele andava de costas para l. O
co de caa estava mordendo as pernas da cadeira, tentando abaix-la. A madeira estalou e as lascas
voaram. A cadeira se inclinava nas mos de Colin, mas ele conseguiu chegar l. Lanou a cadeira
na cabea rosnante e caiu para trs, dentro do armrio. Susan teve a viso de uma lngua vermelha
saindo de uma boca aberta e de presas brancas, brilhantes, a poucos centmetros de seu rosto, antes
que ela batesse a porta. Naquele mesmo momento, ela ouviu a porta da cozinha se abrir com
violncia. Ento, desmaiou.
Ou, pelo menos, pensou ter desmaiado. Seu estmago revirou, a cabea rodopiou e ela
parecia estar caindo na escurido insondvel. Teria mesmo desfalecido? Colin bateu-se contra ela,
lutando para se aprumar, ela podia sentir. E estava sendo pressionada contra a parte de trs do
armrio. Beliscou-se. No, no havia desfalecido.
Colin e Susan estavam de p, rgidos, lado a lado, aguardando em agonia o momento em
que a porta seria aberta, porm o aposento ainda parecia estranhamente quieto. Eles no conseguiam
ouvir qualquer som.
- O que est acontecendo? - sussurrou Colin. - Est muito quieto l fora.
- Shh!
- No consigo ver buraco algum de fechadura, e voc?
Deveria haver algum. - Ele se curvou para sentir. -Ai!! - Colin deu um grito de
surpresa e dor, e dessa vez Susan quase desfaleceu. - Sue! No h nenhuma porta!
- O-o qu?
- Nenhuma porta! E algo que parece pedra lisa passando muito depressa e onde eu esfolei
a minha mo.  por isso que senti um estalo nos ouvidos! Estamos em um elevador!
Enquanto ele falava, o cho parecia fazer presso contra os ps deles e um ar frio e mido
soprava em seu rosto. Tinham conscincia de um silncio to profundo, que podiam ouvir as batidas
do prprio corao.
- Em que lugar estaremos? - perguntou Colin.
- Provavelmente a pergunta deveria ser: Dentro de que lugar estaremos? - Susan
ajoelhou-se no cho do armrio e estendeu a mo para onde estivera a porta. Nada! Estendeu-a para
baixo, e tocou uma pedra molhada. - Bem, h um cho. Vamos pegar nossas lanternas de bicicleta
e ver que tipo de lugar  este.
Tiraram as mochilas e mexeram entre a limonada e os sanduches.
A luz das lanternas, viram que estavam na boca de um tnel que se estendia na escurido.
- E agora, o que faremos?
- No podemos voltar, no , mesmo que quisssemos?
- No - respondeu Susan -, mas no gosto disso.
- Nem eu, mas, na verdade, no temos muita escolha, venha.
Voltaram a colocar as mochilas nos ombros e comearam a percorrer o tnel; no entanto,
segundos mais tarde, um leve barulho fez com que dessem meia-volta e corressem, com o corao
na boca.
Est subindo! - disse Colin, observando a coluna pelo qual o armrio estava desaparecendo.
Eles chegaro aqui em pouco tempo.
As crianas correram to rpido quanto puderam, tropeando no piso irregular e chocando-se
contra as paredes. O ar cheirava a mofo. Depois de um minuto, estavam ofegantes como se
tivessem corrido quilmetros, mas continuaram a acelerar, com dois pensamentos na mente: escapar
do que quer que os estivesse seguindo e achar Cadellin...

                                 *  *

ALAN GARNER  famoso por ter utilizado a lenda do "Feiticeiro de Alderley" em
Cheshire, onde ele e sua famlia viveram durante geraes, como inspirao para seu
par de clssicos romances de fantasia: A pedra encantada de Brsngamen (1960) e
sua continuao, A lua de Gomrafi (1963). Esses livros e os romances que se seguiram
marcaram-no como um dos mestres do gnero. Como resultado, Alderley Edge tornou-se
um local popular, com visitantes de todas as idades, vidos para acompanhar a
lenda, existindo at mesmo um Restaurante do Mago em Nether Alderley. Alan Garner
sempre enfatizou que no inventa suas histrias, mas que as descobre em paisagens e
entre os artefatos da histria antiga, especialmente aqueles de sua nativa Cheshire.

                                   * *

O MISTERIOSO OLIVER
Russell Hoban

                                   *

    Uma das coisas ruins na escola  a tirania. Muitas crianas tm inimigos e precisam suportar
abusos e xingamentos sem nenhuma razo em particular, exceto, no deliberadamente, ter cruzado
o caminho de algum. Quem tem o poder da magia no  diferente, embora possa ter os meios para
acabar com a tirania. Nesta histria, o problema de Oliver  enfrentar um menino mais forte
chamado Geoffrey. Oliver tem 10 anos. Geoffrey tem dois anos a mais e gosta de se divertir
torcendo os braos dos meninos mais fracos e esfregando dolorosamente a cabea deles. Geoffrey
pensa que tudo no passa de um pouco de brincadeira e, muitas vezes, zomba de Oliver, recitando
esta pequena cano: "O Azeite de Oliva tinha um furnculo bem no fundo do traseiro". Porm,
Oliver no  igual aos outros meninos; ele tem sonhos estranhos, que se tornam ainda mais
estranhos quando sai de frias com a me e o pai para a ilha grega de Paxos. L,  espera dele, h
algo que lhe abrir os olhos para as maravilhas da magia e, ao mesmo tempo, resolver o pior de
seus problemas...

                                 *  *

    Oliver costumava sonhar, algumas vezes, com um rosto verde como o fogo quando est se
extinguindo e preto como terra misturada com cinzas. Era um rosto enorme e estava ao redor dele
como se ele fosse o interior de um tubo infinito que girasse bem devagar e pelo qual ele caa
eternamente. E, ento, sentia uma tristeza, uma dor na garganta, uma perda... Que nome daria
quela sensao? Quem teria morrido? Oliver tinha 10 anos.
O ptio de recreio da escola era, para Oliver, um lugar triste: de raiva, de suor de meninos e
de Geoffrey.
Geoffrey era dois anos mais velho e vinte centmetros mais alto do que Oliver. Geoffrey
torcia o brao de Oliver e esfregava a cabea dele de modo doloroso. Oliver lutava com ele e perdia.
Geoffrey chamava-o de "Azeite de Oliva" e recitava:

"O Azeite de Oliva tinha um furnculo
bem no fundo do traseiro."

Ao terminar o perodo de vero, Oliver, a me e o pai pegaram o avio para Corfu. De l
subiram a bordo de um barco para a ilha de Paxos, onde haviam alugado uma casa. O nome em
letras gregas nos costados do barco era PERSEPHONEIA.
O ar estava limpo, o sol quente, o motor roncava suavemente e a luz solar formava
deslumbrantes pontos danantes no mar azul. Havia fortalezas de pedra, a costa era montanhosa e
no convs superior um homem tocava bouzouki, um bandolim grego. O barco estava lotado de
pessoas comendo, bebendo, fumando, jogando cartas. Reflexos do sol moviam-se lentamente pelos
copos e pelas garrafas de cerveja e de limonada turva no bar. No convs inferior, havia um
caminho, dois carros e uma motocicleta. Havia tambm uma cabra, um burro e um galo novo com
penas verdes, vermelhas e cor de bronze. O galo olhava para as montanhas e cantava de alegria. O
pai de Oliver, de p na proa, olhava para baixo, para o constante divisor das guas que deslizavam
ao longo dos costados, unindo-se na popa, na esteira branca como mrmore. A me dele, calando
sandlias, as pernas expostas j bronzeadas pelas tardes no Clube Hurlingham, estava sentada sobre
uma tampa de escotilha, lendo e fumando.
A ateno de Oliver se dirigia para alm do zumbido do motor, do bater das ondas no casco,
do chiado do bouzouki. Ele observava a ondulao prateada das oliveiras da ilha  luz solar.
Demorou muito tempo para chegar l, horas e horas cruzando o mar at a ilha.
Quando o barco lanou ncora na enseada, em Gaios, a corrente chacoalhando pelo
escovem, Oliver olhou para as colinas e os terraos, alm dos telhados vermelhos da cidade.
- Que rvores prateadas so aquelas? - perguntou.
- So oliveiras - respondeu a me dele.
- Persephoneia - sussurrou Oliver.
- O que voc est sussurrando?
- Nada.
A casa parecia ter sido manchada h muito tempo com suco de roms. Tinha o telhado
curvo, vermelho, e tambm um ptio pavimentado. Havia uma mesa sob um parreiral, laranjeiras e
uma romzeira. Oliver estava surpreso com as roms, que s conhecia por meio dos contos de
fadas. Agora, tinha a oportunidade de ver a rvore em que elas cresciam. J havia comido sementes
de rom em casa, mas, naquele momento, a fruta que segurava na mo delas significava um mundo
de desconhecimento alaranjado.
O pai de Oliver cortou uma rom em trs partes e ofereceu uma  me de Oliver. Ela olhou
para o filho enquanto dava uma mordida, mas nada disse. Por alguns instantes os outros dois teros
ficaram no prato branco, entre gotas de suco vermelho.
De longe chegaram os zurros impressionantes de um burro, que, para Oliver, representavam
a excluso e o banimento da felicidade, um som negro que se estendeu no prato branco com os dois
teros de rom e as gotas de suco vermelho.
- Persfone - disse Oliver - comeu sete sementes de rom no reino dos mortos e, por
causa disso, tem de passar trs meses por ano com Hades, l nas profundezas da terra que, em
conseqncia, fica estril at que ela retorne.
- Quantas sementes voc comeu? - perguntou o pai  me de Oliver.
- Muitas - respondeu ela.
Anos depois, Oliver lembrava-se de alguns detalhes e esquecera-se de outros. Lembrava-se
das latas de leite em p Noynoy.
Seu rtulo mostrava a imagem de uma mulher holandesa bem jovem, amamentando uma
criana. No fundo, um canal e moinhos de vento. Ele se lembrava de garrafas de gim com rtulos
desconhecidos e esquecera nomes; pistache; azeitonas pretas enrugadas e queijo de cabra; espirais
contra mosquitos, feitas de alguma substncia verde comprimida, que queimava com o odor de
sombrios feriados de infncia perdida.
Lembrava-se de um minsculo escorpio morto no cho de um armrio e tambm de um
verme marinho aneldeo, ampliado pela gua clara, uma viso mtica, cor-de-rosa e prpura, o corpo
orlado de ondulantes cerdas pretas que o deslocavam por cima das pedras incolores. Era um
pensamento gigantesco.
Havia trs meninas suecas que nada usavam da cintura para cima, tinham seios grandes e
flutuantes; nadavam juntas, como um signo do zodaco.
Um dia, uma mulher jovem em roupa de mergulho arpoou um polvo. Ela o retirou do arpo,
carregou-o por dois de seus tentculos at uma rocha plana, contra a qual o golpeou at a morte,
respingando gotas salgadas sobre Oliver. Cada vez que o polvo atingia a pedra, ele a agarrava com
seus tentculos livres, de onde se soltavam com um som semelhante a beijos.
Oliver e a me iam diariamente  praia; o pai, com menos freqncia. A me de Oliver
nadava, tomava banho de sol, fumava, escrevia cartas, lia contos de mistrios, enquanto o pai
sentava  mesa sob o parreiral, lendo Doutor Fausto, de Marlowe, e fazendo anotaes para o seu
prximo livro. A noite, os dois tomavam gim  luz de velas.
Diariamente, o sol parecia to plano quanto um carto-postal. As mulheres idosas, vestidas
de preto, tricotavam, sentadas do lado de fora das lojas. No paredo da enseada, os velhos
barqueiros observavam, de seus barcos, a passagem das mulheres quase despidas.
A gua para a casa vinha de um reservatrio que parecia um pequeno edifcio quadrado, da
mesma cor da casa, com degraus subindo at seu topo plano. A gua das chuvas enchia a caixa por
um tubo longo que vinha das calhas do telhado da casa.
Sempre que uma torneira era aberta, ou quando se usava a descarga no banheiro, a bomba
ofegava na cisterna e arquejava no trabalho de levar a gua para onde era exigida.
A noite, deitado na cama, Oliver ouviu o canto de um galo, enquanto a bomba retumbava na
escurido. Lembrou-se da voz de rejeio do burro, do suco vermelho da rom, do rosto verde e
preto de seu sonho. A noite, aquele ms de agosto parecia um grande animal de formas e cores
desconhecidas, que se virava, virava e virava.
Em toda parte da ilha viam-se muros rsticos de pedras. Os muros evitavam o desabamento
dos plats de terra nos declives e, s vezes, cercavam oliveiras solitrias. Em todos os lugares, havia
pedras e fragmentos de pedra com superfcies planas, sobre as quais era fcil escrever, usando uma
caneta com ponta de feltro. Algumas eram cor de areia; outras, cinza, e tambm brancas. Algumas
pareciam cortinas de pedra; outras, monumentos desmoronados. Na praia e na gua, acumulavam-se
grandes formaes de venerveis pedras em forma de vermes marinhos, curvadas e escavadas. Elas
tinham ouvido rdios tocando rock and roll e tambm tinham ouvido Orfeu. Deitado meio
submerso, Oliver se agarrava nelas enquanto seu corpo subia e descia ao balano das ondas. s
vezes, ele passava horas na praia, curvado sobre a prpria sombra, juntando pedras do tamanho da
mo, com vrias formas arredondadas. Algumas se encaixavam curiosamente.
No incio, Oliver desenhava monstros e drages em algumas das pedras; depois, comeou a
escrever nelas. Em algumas, de formas longas e arredondadas, repetia uma nica palavra em volta,
em espirais ao redor da pedra: abaixo abaixo abaixo abaixo abaixo abaixo... ou verde verde verde
verde... Tambm escrevia, com as letras gregas que vira no barco, o nome Persephoneia.
A estrada que vinha das colinas at a cidade passava entre terraos de olivais. Havia lixo
espalhado em todos os lugares, as pessoas simplesmente o jogavam declive abaixo. Os olivais
estavam cheios de garrafas plsticas azuis de gua mineral espalhadas, junto com enferrujados
foges jogados fora. Muitas das rvores tinham sido plantadas numa poca distante, quando no
havia coisas como garrafas plsticas de gua mineral. Elas tranavam suas razes no cho pedregoso
dos terraos suportados pelos muros de pedra, enquanto, em suas folhas prateadas, os ventos
variveis sussurravam o conhecimento de sculos.
Havia uma determinada oliveira que Oliver sempre olhava quando passava. Muitas vezes,
havia um burro preto amarrado nela e, de vez em quando, uma cabra preta e branca por perto. Foi
aquele burro que Oliver ouviu enquanto comia a rom sob o parreiral. Quando ele abriu largamente
a boca e zurrou, ficou evidente que o burro era um intermedirio de alguma outra coisa. "Esta  a
minha proclamao", disse a voz que falou pelo burro, "esta  a minha revelao de algo to
horrendo, que no pode ser descrito em palavras, e a voz, com a qual eu falo, no  notada".
A rvore no ficava longe da casa. Uma tarde, Oliver foi at l sozinho. O burro havia
enrolado na rvore toda a corda que o prendia e agora se mantinha calado. A cabra olhou
calmamente para Oliver com seus olhos estranhos que pareciam pedras de cor ocre-acinzentada,
onde haviam sido embutidos pedaos alongados de pedra preta. Um galo cantou em meio s
garrafas de plstico azul de gua mineral.
A rvore, cheia de azeitonas pretas, estava viva. Suas folhas prateadas sussurravam sob a
luz do sol. Embora o tronco fosse oco, aquilo era apenas a concha de uma rvore com as trevas no
interior da antiga forma tranada. A espessa casca cinza-esverdeada, cheia de salincias e enrugada,
estava aberta como se duas mos a tivessem separado. A rvore no tinha uma forma feminina,
mas, apesar disso, era uma rvore com forma de mulher, como se uma mulher tivesse vestido a
rvore e depois sado de dentro dela.
"Onde ela estar agora?", pensou Oliver. Olhou para as orelhas do burro. O que estariam
escutando? Olhou para os olhos da cabra. O que tinham visto de diferente daquilo que ele vira?
O galo cantou novamente.
- Al? - disse Oliver.
As folhas sussurraram.
- J foi? - perguntou Oliver.
A rvore oca manteve a sua escurido aberta para ele. O burro zurrou mais uma vez, a cabra
olhou para Oliver, o galo cantou pela terceira vez. Oliver aproximou-se da rvore. Pensou ter
ouvido msica, mas no poderia dizer como soara. Talvez s tivesse imaginado a msica.
Oliver estava dentro da rvore. No sabia como havia chegado l. Por um momento, viu os
muros de pedra e as oliveiras na estrada, o cu azul e as folhas prateadas, a sombra verde e a
dourada luz do sol e um moedor de carne de plstico amarelo jogado na beira da estrada. Ento,
tudo ficou indistinto acima dele. Estava caindo, caindo, com uma sensao de enjo no
estmago.Tudo nele e ao redor dele era um grande suspiro. Lembrou-se dos olhos da cabra, das
orelhas do burro.
Caindo, caindo, com a escurido saltando dentro dele como uma r preta. Oliver comeou a
chorar, mas no de medo, estava chorando de tristeza. Com uma dor terrvel na garganta, chorava
por algo perdido para ele, embora no soubesse o qu. Durante todo o tempo em que estivera
caindo, desejou saber quando seria esmagado como um ovo derrubado do ninho.
Um nome rugira dentro dele, berrando nele: PERSEPHONEIA.
Pensou que seu crnio iria estourar, pensou que aquilo quebraria seus ossos. Ainda
continuava caindo, no estava em parte alguma, nada mais havia alm do negrume, e, no negrume,
veio-lhe  mente o rosto que, s vezes, via nos sonhos. Estava pensando nisso ou isso estava
pensando nele? Inexplicavelmente tudo estava a seu redor enquanto caa. Ficava cada vez maior,
grandes manchas pretas sobre verde-plido, como um esfregao feito sobre papel verde. Mas o
verde parecia mais uma chama em vias de se extinguir. Frio, sim, estava tremendamente frio,
gelado, e havia um vento congelante soprando.
Oliver comeou a compreender que aquilo, a seu redor, era o rosto de Hades. No tinha fim,
a chama sem vida, uma combinao de negro com um verde frio, como se estivesse prxima da
extino, girando, girando, uma concavidade rodopiante em descida direta. Oliver caiu, caiu e
continuou caindo, enquanto os lbios de Hades moviam-se, lentamente, a boca bramindo
silenciosamente: PERSEPHONEA.
Como o mar inundando uma caverna, o conceito de Hades e Persfone ocupou toda a mente
de Oliver. No conseguia deixar de pensar que o vero verde e dourado do mundo era inverno para
Hades, seu perodo negro, seu tempo morto, o tempo perdido e rompido, sem Persfone.
Persfone significava toda a beleza, e ela partira para o mundo superior, onde a luz do sol
sussurra nos olivais. Como Hades poderia saber se ela alguma vez voltaria para ele? Por que ela
desejaria voltar ao mundo sombrio da morte como sua rainha negra? O rei da morte enfureceu-se e
chorou no prprio terror, enquanto lentamente virava, virava, virava a face de sua raiva para o
mundo.
Oliver continuava a cair e aquele rosto girante ainda girava, passando por ele em rpida
ascenso, vindo de todos os lugares l de baixo, durante todo o tempo da queda. Aceitar tudo aquilo
na mente era uma tarefa muito difcil e pesada, e a dor que sentia, insuportvel. Creio que isso me
matar, pensou. Mas no morreu.
A queda parou. O rosto de Hades, em lenta rotao, desaparecera. Oliver viu os olhos da
cabra, as orelhas do burro viradas para trs e escutando. Ouviu o cantar do galo, o sussurro das
folhas das oliveiras. Estava na sombra esverdeada do olival. A arvore em forma de mulher estava na
frente dele, mantendo o cu vazio aberto para ele. Talvez nada tivesse acontecido.
Uma pedra preenchia, confortavelmente e com um peso agradvel, a mo de Oliver. Era um
pedao de pedra fulva, com extremidades afiadas e facetas irregulares que se afilavam em uma base
triangular. Parecia uma escultura abstrata, monumental e comemorativa. Havia uma concavidade
rasa de tamanho adequado a seu polegar. Quando ele segurou a pedra sob um certo ngulo em
direo  luz, aquela depresso encheu-se com a sombra de um grande pssaro do reino da morte,
com o dorso voltado para ele. Sabia que aquele era um pssaro de poder, mas tambm um pssaro
de perda, uma tristeza alada pelo que se fora para sempre. Esse pensamento de repente tornou-se
insuportvel e Oliver chorou.
Oliver pensou na pedra como sua pedra de Hades. Manteve-a no bolso durante todo o dia e,
 noite, guardou-a sob o travesseiro. No escreveu ou desenhou sobre ela. Com o polegar, sentia a
forma da sombra-pssaro. Imaginou-o estendendo as asas escuras e sentiu curiosidade sobre a sua
face indivisvel..
Quando Oliver, a me e o pai retornaram de Paxos, as ruas de Londres pareciam
desprezveis e cinzentas.
- Hades - sussurrou Oliver.
- O inferno no tem limites - disse o pai - nem est circunscrito a um nico lugar,
porque onde estamos  o inferno e onde o inferno est ns sempre devemos estar.
- Fale por voc mesmo - disse a me de Oliver.
Quando Oliver voltou para a escola, levava a pedra de Hades no bolso, encaixando
o polegar.
Era um frio ms de setembro, a atmosfera estava cinzenta, as ruas estavam cinzentas, o
alcatroado do ptio de recreio estava rgido sob os ps de Oliver.
E l estava Geoffrey novamente.
- Oi, Azeite de Oliva - disse.
Oliver nada disse. Viu a oliveira, mantendo aberto seu vazio escuro. Com o polegar, sentiu
a forma da sombra-pssaro cuja face ainda no vira.
- O que est havendo? O gato comeu a sua lngua? - perguntou Geoffrey.
Oliver tirou a pedra do bolso.
-  Sabe de onde  isso?
- No! De onde ?
- Talvez voc descubra logo. O inferno no tem limites, sabe disso?  onde quer que
estejamos.
- Acho que voc voltou biruta de onde foi, Azeite de Oliva.
- Talvez voc tambm v a algum lugar. - Oliver queria arrancar alguma coisa de
Geoffrey, desejava que Geoffrey sentisse a tristeza que ele sentia sem saber por qu.
- H uma escurido dentro da rvore - disse.
- A escurido parece estar  dentro de sua cabea.
- Nada  eterno: o vero chega, o vero vai. Geoffrey vem...
- Mas felizmente no est indo, Azeite de Oliva.
Oliver deu trs passos para trs. Inclinou a cabea, escutando a voz imponente falando
atravs do burro.
- A escurido est esperando; o burro diz para ir.
- Voc  o burro e acho que est precisando de uma boa pancada.
Oliver deu trs passos para a esquerda. Fez seus olhos parecerem pedras de cor
ocre-acinzentada, com pedras pretas alongadas e encaixadas.
- A cabra diz para ir.
- Baaa - disse Geoffrey. - Por que voc no tenta me fazer ir?
Oliver avanou trs passos. Do fundo da garganta ele cantou silenciosamente como o galo.
- O galo diz para ir. Porque est na hora.
- Acabou seu tempo, Azeite de Oliva - disse Geoffrey, recuando o punho.
Oliver segurou a pedra de Hades de forma que a grande sombra do pssaro aparecesse. Viu
o pssaro elevar-se no ar, viu sua face, que parecia terra preta e cinza, verde como chamas prestes a
se extinguirem.
- Est na hora de voc ir - disse ele a Geoffrey quando o pssaro de sombra se inclinou.
Oliver estava completamente s, caindo sem parar, enquanto o onipresente rosto de Hades,
em sua lenta rotao, ascendia rapidamente por ele. No sem parar, pois ele havia parado de cair e o
que vira fora o rosto imvel da enfermeira da escola quando despertara, respirando com dificuldade,
em razo da pequena garrafa que ela segurava sob o nariz dele. A pedra de Hades no estava mais
em sua mo.
- Voc est novamente conosco? - perguntou a enfermeira.
- O que aconteceu?
- Parece que voc desfaleceu depois de seus esforos.
- Que esforos?
- Geoffrey disse que voc estava lhe mostrando um golpe de jud.
- Onde Geoffrey est agora?
- Levaram-no ao hospital; vai precisar de alguns pontos na cabea. O ptio de recreio no
 lugar para a prtica do jud. Algum poderia ter-se ferido gravemente.
- No faremos mais isso.
- Espero que no.
- Aqui est a sua pedra - disse Geoffrey, depois. - Quer saber de uma coisa... 
engraado. Quando voc me bateu com ela, vi um rosto grande a meu redor. Era verde e preto e no
parava de girar.
- Eu vi aquele rosto - disse Oliver.
- Onde? Quando?
- Na ilha de Paxos, no ms passado.
- Como pode ter visto?
- No posso falar a respeito.
- Eu lhe darei uma fita do Iron Maiden em troca daquela pedra.
- Sinto muito, mas no.
- Ela est com meu sangue nela.
- Tenho outra pedra boa de Paxos, da praia. Essa eu lhe darei, mas voc tem de parar de
me chamar de Azeite de Oliva.
- Est bem!
O perodo de outono correu bem para Oliver; os outros meninos pareciam olhar para ele de
maneira diferente da que olhavam antes. Havia uma pea teatral na escola sobre o rei Artur, e ele
recebeu o papel de Merlin.

                                 *  *

RUSSELL HOBAN  o autor de um dos melhores livros modernos para crianas, que
trata da busca de um rato de mecanismo de relgio e seu filho por uma casa em que
no precisassem mais de corda. Na realidade, essa  uma das quase 50 histrias que
ele escreveu para leitores mais jovens, bem como vrios romances de fantasia para
adultos. Hoban  um norte-americano que se mudou para a Inglaterra depois da
Segunda Guerra Mundial e trabalhou com publicidade e televiso antes de escrever e
ilustrar os livros que fizeram sua reputao. Sua fascinao pelos poderes da magia
tornou-se bvia em uma histria, na qual  concedido a uma verruga o desejo de
ganhar um telescpio para ver as estrelas, e em uma outra, sobre criaturas falantes,
especialmente um caranguejo de rosto assustador. Russell Hoban considera-se um
mago com as palavras. Ele gosta de dizer ao leitor "meu prximo truque  impossvel"
e, ento, o realiza da mesma maneira que mostrou em "O misterioso Oliver", conto
que me faz lembrar o jovem feiticeiro do sculo XVII, mestre Oliver, que mencionei em
O mundo da magia.

                                  * *

OS GUARDIES DO DESCOBRIDOR
Joan Aiken

                                   *

Denzil Gilbert  o novo aluno na Candlemakers, uma escola antiga perto de Norwich. E magro e
cheio de espinhas; alm disso, sofre de estrabismo, o que significa que uma pessoa no pode dizer
com certeza se ele est falando com ela ou com algum atrs dela. Ele se vangloria muito e inventa
histrias sobre as, assim chamadas, pessoas famosas da famlia dele. Por isso, no  de
surpreender que a maioria das crianas no goste realmente de Denzil, embora isso no parea
aborrec-lo muito. Entretanto, h uma coisa em que Denzil  bom: contar histrias de fantasmas.
Depois do apagar das luzes, no dormitrio, ele consegue deixar
qualquer um de cabelos em p com as histrias de magia e mistrio que conta. Mas quando Denzil
e os outros alunos fazem uma excurso a um pequeno museu de folclore em Strand-next-the-Sea,
algo muito estranho acontece, com uma exibio conhecida como "O descobridor". O que todos
querem saber  se aquilo tinha poderes sobrenaturais, como Denzil dizia, ou se  apenas outra de
suas grandes histrias...

                                 *   *

L pela primavera, sempre fazemos uma excurso escolar ao museu de Strand-next-the-Sea. Strand
 a cidade mais prxima de nossa escola, Candlemakers, que no fica distante de uma aldeia
chamada Far Green. Far Green quase no pode ser chamada de lugar: tem trs casas e uma lagoa.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a escola foi transferida de Londres para essa manso
vitoriana, velha, vermelha, desajeitada e cheia de correntes de ar, pensando que assim estariam
livres dos bombardeios, porque os alemes nunca prestariam ateno nela. Na verdade, ela  to
difcil de se ver, que, freqentemente, os pais em visita se perdem e acabam em Staithe Cross ou
Watchett. A casa fica no centro de uma espcie de floresta em miniatura, como que isolada pelos
olmos aglomerados a seu redor. Muito dos olmos adquiriram a doena holandesa e parecem velhos
esqueletos sombrios, at que um arvoredo inteiro de sicmoros jovens apareceu entre eles.
Com exceo das rvores ao redor da escola, aquele  um lugar plano, ventoso. Supe-se
que em dias claros, olhando-se em uma direo, pode-se ver Norwich do pinculo da igreja de
Far Green e, olhando-se em outra direo, em dias nublados, o pinculo de Losthope Minster, que
desapareceu sob o mar na grande tempestade de 1609.
A primavera  sempre sombria. O vento sopra com violncia ao longo do Mar do Norte e
chove cinco dias em cada seis. Os campos de jogos, geralmente, esto debaixo d'gua, e, ento, s
resta andar pelos campos, dia aps tempestuoso e encharcado dia. Em meados da estao, embora
Strand seja uma pequena cidade deserta e o museu se limite a trs aposentos com quinquilharias
colecionadas por um reverendo do sculo XIX que nada mais tinha para fazer em seu tempo livre,
todo mundo tem prazer em ir l. Pelo menos  um lugar fechado, coberto. Vamos para l no nibus
escolar, e no deixa de ser uma pequena mudana. Entretanto, claro, depois de ter passado alguns
anos na escola, conhece-se to bem o que existe no museu quanto o contedo da prpria
escrivaninha.
Na poca da qual estou falando, havia l um menino novo chamado Denzil Gilbert. Era uma
criatura magra, de olhos plidos, rosto cheio de espinhas, com uma pele spera como lixa e um leve
estrabismo no olho esquerdo, de forma que nunca se sabia se ele estava falando conosco ou com
algum por cima de nosso ombro. Ningum gostava muito dele, mas isso no parecia deix-lo
aborrecido. Ele vivia incrivelmente satisfeito consigo prprio e poderia falar eternamente sobre si
mesmo com qualquer pessoa que estivesse disposta a escutar. Muitas das histrias que contava nada
mais eram do que mentiras deslavadas que o pai dele havia recebido o Prmio Nobel de poesia e a
av era uma atriz famosa que fizera o papel de lady Macbeth com sir Henry Irving, que o av era
lord chancellor da Inglaterra e a famlia dele tinha vindo para a Inglaterra com os normandos.
Qualquer pessoa que se desse o trabalho de verificar no Quem  Quem ou na enciclopdia
descobriria que, na maior parte das vezes, as histrias no eram bem assim, exceto por um
minsculo gro de verdade em algum ponto do final. Em meados da estao ningum mais prestava
muita ateno a suas vanglorias.
Denzil era o tipo de pessoa que, por nada ter de interessante nele mesmo, sempre procurava
estar de posse de coisas bastante incomuns, para poder exibi-las e, assim, angariar um pouco de
prestgio. Tinha um conjunto de moedas Maundy - um minsculo penny prateado, uma moeda de
dois centavos, uma de trs e uma outra de quatro -, um chifre de metal para guardar plvora,
adornado com partculas de turquesa e coral vermelho, que, segundo ele, pertencera ao rei James I
(embora, em minha opinio, se James I tivesse um chifre para guardar plvora, seria um artefato de
aparncia bem mais elaborada do que o de Denzil). Tinha um fssil que ele disse ter vindo de Marte
e uma concha grande, por onde se supunha ser possvel ouvir o bramir do Oceano Indico, alm de
um pequeno tinteiro em pedra-sabo que, de acordo com Denzil, havia pertencido a um velho poeta
chins chamado Li Po, e quem quer que o usasse poderia escrever poesia chinesa da mais alta
categoria.
Tambm possua um punhal malaio, um pedao de quartzo rosa, uma folha da rvore do
leno e muitos pedaos de mrmore antigos e verdes.
As pessoas riam das histrias que Denzil contava sobre seus pertences, claro, mas estavam
interessadas e habituadas a pedir para v-los, assim como Denzil sempre tinha prazer em exibi-los.
Em pouco tempo (sabe como so as coisas na escola, especialmente se uma pessoa 
bastante impopular), diversas coisas desapareceram; em particular, o jogo de minsculas moedas
Maundy. Denzil ficou muito aborrecido com aquilo. As moedas haviam sido retiradas de uma
caixinha prateada de rap que ele guardava na cmoda de seu quarto.
 evidente que aquilo chegou aos ouvidos de Jasper, o diretor, que fez uma preleo aps as
oraes, perguntando se algum sabia onde elas estavam. Ningum disse uma s palavra.
Jasper estava muito zangado e, em parte, com Denzil. Lembrou-lhe de que o tampo de uma
cmoda era um lugar estpido para se guardar algo to valioso e que, assim, ele estava lanando
tentaes injustas no caminho das pessoas. E, no final, foi declarada uma regra nova: todas as coisas
de valor deveriam ser entregues a Sally Lunn, a supervisora. Dessa forma, Denzil teve de se separar
de seu quartzo e do tinteiro, ainda que o tivessem deixado ficar com a concha e com o fssil
marciano, porque ningum acreditava que fossem o que ele anunciara.
Foi uma situao embaraosa e constrangedora que, como se pode imaginar, no contribuiu
para tornar Denzil mais popular.
Entretanto, em uma coisa ele era bom: contar reveladoras histrias de fantasmas, quando a
hora dos estudos j havia terminado e estvamos todos amontoados ao redor da estufa na sala de
jantar ou,  noite, depois do apagar das luzes. Ele deixava todos de cabelo em p com as histrias
dos guerreiros dinamarqueses que se haviam afogado quando a mar os pegara no pntano de
Saltwagon, depois que um menino da aldeia, deliberadamente, lhes indicara o caminho errado. Os
encharcados dinamarqueses, dizia ele, erguem-se, respingando gua, das suas sepulturas barrentas
na ltima noite de maio e saem  procura daquele menino para se vingar; por isso, cuidado! E havia
outra histria interessante sobre a floresta afundada de Lost-hope e as terrveis coisas da floresta
que saem deslizando, s vezes, nos ventos fortes de inverno, quando as ondas so to enormes,
subindo e descendo, que ainda podem ser vistos os tocos apodrecidos, fossilizados, das rvores. 
 o que dizem. E havia ainda a histria sobre as gigantescas abelhas africanas, deslocando-se em
direo ao norte ao longo da Europa, uma massa negra de fora descomunal, matando tudo pelo
caminho.
Mas nenhuma das histrias que Denzil Gilbert nos contou era mais estranha do que o que
lhe aconteceu.
Naquele sbado, no caf da manh, Sally Lunn anunciou que iramos ao museu de
Strand-next-the-Sea aps o almoo.
Quem j havia ido l umas quatro ou cinco vezes soltou o habitual suspiro de enfado.
Denzil, ao contrrio, parecia bastante interessado e entusiasmado. Biddy Frazer teve a ousadia de
perguntar o motivo. Fiquei surpreso, porque geralmente ela era uma das primeiras pessoas a critic-lo.
Era escocesa, franca, uma monitora, e dizia que as histrias dele eram apenas tolices e bobagens.
Denzil informou:
- Meu pai nasceu em Strand-next-the-Sea. Nossa velha casa da famlia est l.
- Ento, por que voc no  aluno externo?
O tom de voz de Biddy era pensativo. Obviamente, imaginava que seriam menos horas com
Denzil todos os dias.
- Meu av vendeu a casa. Sempre vivemos no exterior. Meu pai  professor de ingls na
Universidade de Adis-Abeba.
Aquilo era verdade, uma das coisas que Denzil no tinha inventado.
Depois do almoo, o velho e chacoalhante nibus azul aproximou-se lentamente do ptio
coberto de cascalho diante do prdio principal da escola. Todos patinamos na chuva e subimos a
bordo, com os habituais suspiros, resmungos e piadas grosseiras.
Ningum quis se sentar junto com Denzil; ento, ele acabou sentando-se ao lado de
Tom Oakenshaw, o professor de ingls que poderia ser muito sarcstico, mas que ainda estava sendo
bastante paciente com Denzil, uma vez que ele era aluno novo, e que se preparou para prestar
ateno a suas histrias exageradas sem mostrar uma expresso muito bvia de descrena.
O velho nibus ps-se a abrir caminho ao longo das estradas pantanosas, lanando torrentes
de gua para o alto, sob o imenso cu cinzento, mido e ventoso. Eu estava sentado atrs de Denzil
e de Oakie, e pude ouvir Denzil se vangloriar da famlia dele.
- Os Gilbert habitaram Strand-near-the-Sea desde o sculo XII.
- No tenho certeza se Strand j existia no sculo XII - disse Oakie delicadamente.
- Naquele tempo, o mar era mais distante, voc sabe.
- Oh, bem, seja como for, desde aquela poca minha famlia vivia por esses lados
- corrigiu Denzil, numa resposta rpida. - Alguns saram daqui para as Cruzadas. Um antepassado
meu foi enterrado em Losthope Minster, sir Geoffroi de Guilbert; h uma foto de seu monumento
em um livro chamado Curiosidades Perdidas da Arquitetura Anglicana Oriental.
-  mesmo? - disse Oakie. - Eu tenho esse livro l na escola. Quando voltarmos, farei
uma consulta sobre o seu antepassado.
Biddy, a meu lado, no assento atrs deles, reprimia as risadas e me cutucava, porque estava
disposta a apostar que nada da histria de Denzil era verdade e que Oakie logo o descobriria.
Denzil, porm parecia bastante tranqilo.
Naquele momento, chegamos  praa principal de Strand, um lugar sempre ventoso e
desagradvel. Uma das quatro ruas curtas e largas conduzia diretamente a uma fileira de dunas
sempre em mutao, outra ia at o porto. Na terceira, havia algumas lojas e, na quarta, casas, a
igreja e o museu.
- O museu primeiro - anunciou Oakie. - Depois vocs podem gastar a mesada e dar um
passeio na praia, se no estiver chovendo muito.
Corremos curvados, de dois em dois, ao longo de rua Staithe em direo ao museu, um
edifcio georgiano de tijolos vermelhos chamado Acre House. Quando Denzil chegou em frente ao
prdio, numa atitude dramtica, exclamou:
- A casa de meus antepassados!
Quase todos riram silenciosamente e Oakie fez com que nos apressssemos a entrar.
Como eu disse, h trs aposentos. Um est cheio de velhos utenslios agrcolas e de cozinha,
arados, batedores de manteiga e calandras. As peas de metal esto enferrujadas e as de madeira,
carcomidas, e, a menos que voc seja um entusiasta de histria,  bastante enfadonho.
No outro, h muitos pssaros empalhados, plantas locais crescendo em barricas e um
modelo em escala da rea circunvizinha ( o meu aposento preferido).
O terceiro  o das roupas e fantasias. Tambm h uma antiga casa de bonecas, enorme, e
jornais do sculo XVIII espalhados. A maioria das meninas passa ali todo o tempo da visita.
Biddy afastou-se em direo ao quarto das fantasias, depois de sussurrar em meu ouvido
que iria desfalecer em 10 minutos.
Biddy  plida e ruiva, e consegue provocar um desmaio pondo papel mata-borro nos
sapatos e se concentrando. No faz isso com muita freqncia, caso contrrio, o pessoal comearia a
perceber a jogada. Dessa vez, argumentando j ter visto Acre House um nmero suficiente de vezes,
disse que queria gastar o dinheiro que a me lhe enviara no aniversrio. Se ela desmaiasse, sups,
talvez nos permitissem ir embora e tomar um ch no Polly's Plat, o nico caf que ficava aberto no
inverno.
Denzil foi direto  sala das fantasias e eu perambulei por l, mais ou menos uns cinco
minutos, porque queria observar Biddy preparando o seu desmaio.
A velha senhorita Thorpe estava fazendo o seu trabalho. Ela  a curadora, parece uma
lichia, de cor entre o marrom e o rosado, e enrugada. Deve ter lido aproximadamente um milho de
livros, porque  capaz de fazer uma eterna dissertao sobre qualquer objeto do museu.
- Essa  uma roupa de peregrino - explicava. - Podem-se ver as conchas ou vieiras no
chapu; elas indicam que quem a usava visitou o santurio de Santiago de Compostella. E as palmas
mostram que ele tambm foi  Terra Santa. O gancho no basto era para carregar a bolsa. Aqui
temos a roupa de um expedicionrio das Cruzadas. Ele usava uma cota de malha, uma veste branca
para proteg-lo do sol quente e, como se pode ver, na veste h uma cruz vermelha. Essas so as
roupas de sir Geoffroi de Guilbert, cuja famlia viveu em Gippesvicum, ou seja, Ipswich, e cujos
descendentes construram essa casa no sculo XVIII.
- Viu? -gritou Denzil, orgulhosamente, para Jane Hall, que estava perto dele. - No
disse que esta foi a casa de meus antepassados?
Diante do ocorrido, a senhorita Thorpe virou-se, muito interessada.
- E qual o seu nome, meu menino? - Quando ele disse que era Denzil Gilbert, ela ficou
to alegre quanto um polichinelo.
- O filho do professor Robert Gilbert? Mas  esplndido!  a primeira vez que um
membro da famlia vem a esta casa.
Como voc pode imaginar, Denzil ficou ali mesmo, radiante como o sol nascente. Pelo
menos uma vez ficou comprovada a veracidade de uma de suas histrias e era evidente que durante
um longo tempo ele no permitiria que esquecssemos o fato.
Mas a senhorita Thorpe ainda no havia terminado.
- Como membro da famlia - prosseguiu - voc pode exercer o privilgio defilius
donationis; isso nunca aconteceu durante o tempo em que trabalho aqui. Que felicidade! Que coisa
formidvel!
Quando a senhorita Thorpe fica excitada, tende a usar o linguajar caracterstico dos meninos
de 1920.
- O que  filius donationis? - indagou o senhor Oakenshaw, quase to interessado
quanto a prpria senhorita.
- Bem, quando a casa, incluindo diversos pertences, foi transformada em museu, uma das
condies do acordo era que se um descendente do doador, sir Giles Gilbert...
- Meu av - interrompeu Denzil, alegremente.
- ... se um descendente de sir Giles chegasse, teria permisso para mexer nas peas
daquela caixa fechada ali.
Todas as cabeas se viraram, e todos os olhares se concentraram na caixa fechada, que no
era muito grande, contendo diversos objetos foscos de dimenses reduzidas: correntes, fivelas,
selos, moedas, elos e algumas pequenas colheres sem brilho.
Denzil no iria perder uma oportunidade daquelas, claro.
- Posso ver as coisas, por favor? - perguntou.
- Certamente que sim, meu menino. Espere um pouco enquanto vou buscar a chave.
Denzil olhou atravs do vidro, com ar terrivelmente presunoso, enquanto todos os
interessados se aglomeravam em volta para tambm dar uma olhada.
- H algo escrito na colher, em latim - disse uma menina chamada Tansy Jones.
- Provavelmente, a verso latina para "Lembrana de Norwich"* - zombou Bill Humphrey.
- Dona ex Norvicio - sugeriu Jane.
- No, no ! - protestou a senhorita Thorpe, voltando com a chave. Essas so colheres
de prata romanas, descobertas no local de um templo a Fauno, o deus da floresta. Fauno, como
talvez saibam, tambm  o deus britnico Vann e o deus grego P, as letras V, F e P so todas
intercambiveis. A senhorita Thorpe sentia-se bem  vontade agora.
- O que significam as palavras? - perguntou Tansy.
- Algo como "Regozijem-se nos bosques".
- Tenham um piquenique agradvel - murmurou Bill.
- E evidente que, naquela poca, todo esse pas era coberto de florestas. O local do templo
 onde se encontra sua escola.
Estes so pequenos pedaos de vidro romano - disse a senhorita Thorpe, passando-os a
Denzil, que tentou se mostrar interessado; mas era uma tarefa difcil. - E essas so antigas pontas
de setas britnicas. E essa Coisinha tem uma histria curiosa, chamam-no de Descobridor.
Era uma pequena imagem em metal de um homenzinho atarracado, sorridente, cabeludo e
barbudo, usando um bon pontudo. Os ps dele apontavam para trs.
- Por que Descobridor? - perguntou Denzil.
- Porque se supe que ele ajude a encontrar coisas perdidas.  uma imagem do deus da
floresta Fauno ou Vaun.
- Por que ele acharia coisas perdidas?
- Porque... imagino... porque freqentemente perdem-se coisas nos bosques. No tempo dos
romanos ou dos britnicos, provavelmente, seriam crianas, ces, porcos ou gado e acreditavam
que, se voc fizesse sacrifcios a Vaun, ele ajudaria a achar o que voc havia perdido.
Posteriormente, em vez dos sacrifcios, as pessoas comearam a fazer pequenas imagens como essa
e do-las ao templo. Esta foi desenterrada no sculo XVII por um fazendeiro e chamada de
Descobridor porque as pessoas acreditavam que tinha o poder de achar coisas perdidas.
Passou de mo em mo por todo o distrito e, no final, foi guardada por seu bisav, sir
Neville Gilbert - explicou a senhorita Thorpe a Denzil.
- Eu bem que gostaria que fosse minha - ele suspirou. -   exatamente do que preciso.
Aquele foi o momento que Biddy escolheu para encenar seu desmaio. Foi um desempenho
muito artstico, tornando-se plida como uma folha de papel, oscilando para l e para c e, depois,
caindo no cho de madeira com um baque extraordinrio.
- Oh, valha-me Deus! - exclamou a senhorita Thorpe, fechando apressadamente a caixa
de vidro e enfiando a chave no bolso da jaqueta. Ela e Oakenshaw levantaram Biddy e a deitaram
em um grande sof antigo de couro no aposento da frente.
Um minuto depois, ela abria os olhos, olhava em volta como se estivesse confusa, dizendo:
- O que aconteceu? Onde estou?
- Continue deitada, querida, e lhe trarei um copo d'gua - disse a senhorita Thorpe.
- Prefiro uma xcara de ch - disse Biddy.
- Por que no a levamos ao Polly's Plat? - sugeri.
Mas, irritantemente, Oakie no a deixaria ir ao caf. Argumentando que ela estava muito
tonta para caminhar, decidiu que deveria sentar-se tranqilamente no nibus, enquanto o restante de
ns gastava a mesada. Escoltou Biddy at o nibus e a deixou sob a responsabilidade do motorista,
Gus Beadle, que nunca se interessava em sair e ficava a bordo, lendo o Sporting Times.
Biddy deu-me dinheiro para lhe comprar um sanduche de hortel, e eu fui a uma loja de
doces. Denzil acompanhou-me.
Ele ainda parecia to feliz quanto um cachorro com dois rabos, suponho que devido a toda a
ateno de que era alvo.
Peguei uns cereais e o sanduche de hortel de Biddy, ento esperei no caixa, atrs de um
senhor idoso que estava comprando um pacote de fumo para cachimbo e um pouco de balas de
hortel extra-forte. O senhor estava procurando algo em todos os seus bolsos e parecia aborrecido.
Na verdade, estava to plido quanto Biddy.
- O que est acontecendo, meu senhor? - perguntou a jovem na caixa registradora.
- Perdi uma nota de cinco - ele balbuciou. - Oh, que tristeza, o que posso ter feito com
a maldita nota? No sei o que a minha velha vai dizer.
- Est debaixo de seu p - informou Denzil, calmamente, enquanto o homem continuava
a revistar-se, em vo.
Sem a menor dvida, l estava a nota. De algum modo, ele devia t-la tirado do bolso sem
notar e ento pisara nela depois que cara. Ele estava aliviado!
Pagou suas coisas, eu comprei as minhas e Denzil comprou marshmallows, alis, umas
coisas repugnantes. Suspeito que os tenha comprado porque ningum mais gostava deles. Assim,
ficaria com todos. Em seguida, voltamos ao nibus. O chuvisco tinha piorado, transformando-se
num aguaceiro constante, intensificado por um cortante vento do norte; certamente no era um bom
dia para passear ao longo das dunas de areia.
Denzil e eu fomos os ltimos a voltar ao nibus. Entreguei a Biddy o sanduche de hortel.
Ela estava sentada ao lado de Oakie, parecendo arrependida e to plida, que suas sardas tornaram-se
intensas como manchas de ferrugem. Na verdade, comecei a questionar se no teria sido um
desmaio real.
Gus Beadle ligou o motor, mas, antes que conseguisse partir, a porta do nibus se abriu. O
vento forte tinha soprado com uma tremenda velocidade, como costuma acontecer naquelas
paragens: num minuto tudo est mortalmente calmo, cinco minutos depois, canos de chamin e
telhas esto voando estrada abaixo.
- Feche a porta, Bill, por favor - pediu Oakie.
Bill, que estava perto, fechou-a de um golpe, mas ela voltou a abrir. No final, Gus teve que
mant-la fechada, amarrando-a com um pedao de corda, e Bill precisou segur-la durante todo o
caminho de volta. O prprio velho nibus, de vez em quando, quase decolava da estrada. Era uma
verdadeira fora de intensidade 10.
Denzil estava sentado a meu lado. Ainda sorria maliciosamente; num certo momento, deu
uma cutucada nas costelas e murmurou:
- O negcio  o seguinte! Vou lhe contar uma coisa.
Fingi no ouvir. Eu estava prestando ateno em Oakie, no assento da frente, conversando
com Biddy e algumas outras meninas sobre o Descobridor.
- H oito ou nove meses, um arquelogo chamado Murray Parkin pediu-o emprestado ao
museu. Esperava que pudesse ajud-lo a achar um tesouro em um navio saxo como aquele de
Sutton Hoo.
- E conseguiu?
- No que eu tenha ouvido. A menos que tivesse sumido com o tesouro! Talvez no
funcione se voc o pedir emprestado. No sculo XVII, acreditava-se que ele tinha que ser dado, ou
roubado.
- Talvez durante os ltimos 300 anos seu poder tenha diminudo devido  falta de uso
- sugeriu Jane Hall. - Como uma bateria de lanterna.
- Seja como for, no creio que pudesse acontecer. - Oakie levou-a bastante a srio.
- Tenho a impresso de que seria exatamente o oposto. O poder se concentraria cada vez mais. Vaun,
Fauno, era um deus da floresta, bastante selvagem, bastante forte. Qual voc supe deve ser a
sensao de ser um deus e no ser adorado? De ser esquecido, ignorado, pelas pessoas durante
centenas de anos?
- No muito agradvel, eu diria - falou Tansy.
- Voc ficaria com raiva - disse Jane. - Principalmente se, quando as pessoas se
lembrassem, tudo o que quisessem fosse que voc encontrasse um co terrier perdido.
Biddy estremeceu e disse em tom queixoso:
- Estou me sentindo mal, senhor Oakenshaw! Minha cabea est doendo e estou sentindo
muito frio.
- Provavelmente est ficando gripada - ele disse. - Tem de ir diretamente para a
supervisora assim que voltarmos.
Comeava a parecer um milagre que tivssemos conseguido voltar. Os olmos e os
sicmoros em volta do prdio da escola se sacudiam tanto, que era como se estivessem prestes a sair
do cho, e, quando Bill desamarrou o pedao de corda, a porta se abriu com tamanha violncia, que
bateu contra o lado do nibus e rachou uma janela. Oakie e eu ajudamos Biddy. Ela estava
tremendo e parecia verde em vez de branca. Aquela viso fez com que eu tambm me sentisse um
pouco enjoado.
Chovia torrencialmente, de modo que todos ns corremos para dentro da escola. Mas no
conseguimos manter as portas da frente fechadas. So duas grandes portas duplas, pesadas, de
carvalho e com cintas de ferro, e o vento as abria como se fossem de papelo. Oakie e o velho Gus
tiveram que fech-las e tranc-las, e, mesmo assim, elas sacudiam e balanavam como se um
dinossauro estivesse batendo nelas.
Sally Lunn acompanhou Biddy at a enfermaria.
- No posso ir primeiro para o meu quarto e pegar um livro? - perguntou Biddy.
- No, voc vem comigo. Depois, um de seus amigos poder trazer um livro para voc
- disse a supervisora.
O restante de ns entrou para o ch, que, aos sbados,  sempre chocolate e pezinhos suos.
Denzil deixou-se cair perto de mim.
- Ei! Olhe o que eu tenho! - disse ele, mostrando-me depressa algo que tinha na palma
da mo.
S dei uma olhada rpida e precipitada, mas aquilo se parecia notavelmente com o pequeno
Descobridor preto.
- Jesus Cristo! - exclamei. - Voc no est querendo dizer que furtou o...
- Ssssh! No fale alto. Eu no furtei isto.
- No ouvi voc pedir  velha senhorita Thorpe.
- Eu o devolverei, um dia - disse ele, meio evasivo. - Depois que ele encontrar as
minhas coisas perdidas. - Engoliu o resto de seu ch. - Vamos! Quer v-lo trabalhar?
Eu realmente no queria. Sentia algo estranho a respeito daquela coisa toda. E o tempo no
ajudava, pois estava muito mais escuro do que o normal quela hora da tarde. O vento l fora uivava
sem parar, como uma serra de cadeia e, em todo o prdio, s se ouvia o barulho de portas batendo.
- O velho Jasper vai ficar raivoso como um cachorro se descobrir o que voc fez - falei.
- Roubando de um museu.
- Oh, no seja to puritano! - disse Denzil veementemente.
- Alm disso, tenho direito sobre isto. Pertenceu a meu bisav.
- E como sabemos de que modo chegou s mos dele?
Denzil simplesmente saiu da grande sala de jantar e subiu as escadas, ocultando a pequena
coisa preta na mo.
- Ele est me conduzindo - disse.
Muito de m vontade, fui atrs dele e o mesmo fizeram mais duas ou trs outras pessoas
que, de alguma forma, desconfiavam que algum negcio estranho estava em curso.
- Olhe - falei, gritando para me fazer ouvir acima do uivar do vento -, honestamente,
acho que voc no deveria fazer isso.
Tem uma tendncia a causar aborrecimentos. E ouviu o que Oakie disse no nibus: se usa
esse tipo de coisa, voc est se abrindo a foras das quais  melhor manter distncia.  como tocar
um circuito eltrico. Voc est se expondo a seu poder.
- Oh, bobagem - respondeu Denzil. - Voc no quer que eu faa isso porque est
assustado com o lugar onde provavelmente minhas coisas aparecero. - Ao falar, deu um sorriso
desagradvel, olhando por cima do ombro. Como sempre, eu no tinha certeza se seus olhos
estavam fixos em mim ou em outra pessoa. - Por que seria como voc est falando? - perguntou,
seguindo em frente. - Veja, ele quer subir mais.
Subiu o prximo lance de degraus, que conduzia aos dormitrios das meninas.
- Ei! Voc no pode entrar nos quartos de outras pessoas - disse Tansy, que o seguia de
perto. Denzil ignorou a observao.
Entrou no grande quarto que Biddy Frazer compartilhava com Jane e duas outras meninas.
No havia ningum l. Uma das janelas abriu-se com estrondo quando Denzil entrou e todas as
cortinas deslocaram-se para os lados, como bandeiras. Uma chuva de cartes-postais e livros voou
de cima das penteadeiras.
Lutei para fechar e trancar a janela. Tansy tentava arrumar os cartes e coloc-los de volta
no lugar de onde tinham vindo.
Denzil havia caminhado diretamente para o canto que Biddy ocupava no quarto. Via-se uma
fotografia da famlia dela pendurada na parede, acima da cama. Quando ele afastou o quadro da
parede, um envelope grosso que havia sido escondido ali caiu. Em seu interior estavam as pequenas
moedas Maundy de prata: a de um centavo, a de dois, a de trs e a de quatro.
- Como imaginei! - disse ele com voz satisfeita.
- Sua grandessssima besta! Voc sabia que eles estavam l! - exclamou Tansy. - Ou,
melhor, voc mesmo as colocou l.
Que truque sujo! No acredito que Biddy as tenha levado.
- Oh, sim, ela levou - disse Denzil, regozijando-se. - E agora vou achar o resto de
minhas coisas: o chifre de plvora, o punhal malaio e os meus mrmores verdes. - Olhou em volta
para todos ns. Seu sorriso era muito desagradvel. - Quem poderia imaginar que fosse Biddy
quem havia levado as moedas, sendo monitora e to boazinha, tentando se mostrar melhor do que os
outros. O velho Jasper ficar surpreso quando souber!
-  melhor voc falar com ele agora - reagiu Jane, muito agitada. - Para o caso de voc
estar suspeitando da pessoa errada.
- Eu lhe contarei tudo - disse Denzil. - Mas no agora.
- Por que no?
- O qu? E dar s pessoas que levaram as minhas outras coisas a oportunidade para rep-las?
Nem pensar! - E sorriu novamente, um sorriso feio. Ento ele olhou novamente para baixo,
para a pequena coisa preta em sua mo. - Vaun, Vaun, pequeno deus dos bosques - ele cantou,
me ajude a encontrar meu chifre de plvora, meu punhal malaio e meus mrmores verdes.
Naquele momento, ouviu-se uma voz chamando:
- Denzil! Denzil Gilbert! Voc est a em cima?
- Ele est aqui em cima! - gritou Jane. - Quem quer falar com ele?
- Querem que desa.
Mais tarde, nenhum de ns chegaria a uma concluso sobre que voz tnhamos ouvido. Jane
pensou que fosse a de Jasper, eu pensei que fosse a do senhor Oakenshaw.
- Oh, maldio - reclamou Denzil. Enfiou o Descobridor no bolso, com as moedas
Maundy. - Bem, continuarei a caada em um minuto,  melhor que esperem aqui... se quiserem
assistir. - Ele olhou escadas abaixo. - S vou entrar ali - disse, penetrando em um lavatrio ao
lado da escadaria, um degrau acima. Ele fechou a porta e Tansy gritou:
- Rpido! No seria melhor contarmos ao velho Jasper o que est acontecendo? Ele no
gostar nada disso e, com certeza, tambm dir que a culpa  nossa, mas se lhe contarmos, tirar o
Descobridor de Denzil antes que...
Naquele momento, ouvimos Denzil, ainda dentro do banheiro, dar um grito extraordinrio.
Uma espcie de lamria uivante, como se todo o seu flego estivesse sendo sugado para fora de
seus pulmes. No mesmo instante, o vento forte abriu mais algumas portas e janelas. Todo o
edifcio parecia oscilar para l e para c, e alguns olmos caram l fora.
- O que est acontecendo, Denzil? - perguntei, sacudindo a maaneta. - Voc est
bem? Mas nenhuma resposta veio de dentro do banheiro.
No final, Oakie e Gus Beadle tiveram de arrombar a porta. E esse foi o momento mais
estranho de todos, pois Denzil no estava l dentro. Aquele toalete tinha uma diminuta janela
redonda, como uma escotilha de navio. Um gato bem-alimentado no conseguiria passar por ali. E
eram cinco andares de altura. Mas Denzil no estava l, e nunca mais o vimos.
Nove meses depois, quando ele foi considerado morto, realizaram uma cerimnia em sua
memria.
Durante a cerimnia, eu estava ao lado da lpide erguida para o bitatara ou l o que seja av
de Denzil, de maneira que tive bastante tempo para ler a frase nela escrita:

"Escute o lamento do vento.
Esteja atento a seu triste som.
O Homem! No tente encontrar
Para que voc mesmo no seja encontrado!
Esta lpide foi erguida em memria de
Sir Giles Gilbert,
que faleceu repentinamente aos 65 anos de idade,
em 27 de fevereiro de 1753."

O Descobridor, encontrado no cho do lavatrio, foi devolvido ao museu de Strand e
novamente trancado pela senhorita Thorpe na caixa de vidro. O dinheiro Maundy no foi
encontrado, mas as roupas de Denzil e outras coisas foram enviadas a seus pais. Os mrmores
verdes e o punhal malaio nunca apareceram. E eu enterrei o chifre de plvora sob os olmos em uma
noite ventosa. Parecia ser a melhor coisa a fazer com aquilo.

                                  * *

JOAN AIKEN  filha do famoso romancista norte-americano Conrad Aiken.Seu
primeiro emprego foi na Rdio BBC, antes de comear a escrever romances para
leitores mais jovens. The Wolves of Willoughby Chase (1962), apresentando a notvel
herona Dido Twite, tornou-se sucesso imediato e, depois, foi transformada em filme.
Twite retornou em diversos romances posteriores, incluindo The Stolen Lake (1971),
no qual ela encontra o rei Artur. O pblico leitor de Aiken continuou a crescer devido a
uma torrente de contos, muitos dos quais envolvendo magia de maneira realista.
O Times Educational Suppiement declarou recentemente sobre a autora: "Em sua melhor
fase, Joan Aiken no tem igual nesse gnero", uma afirmao, creio, amplamente
justificada por "Os Guardies do Descobridor".

                                  * *

OS ENDIABRADOS
William Harvey

                                   *

    Atividades secretas, rituais especiais transmitidos de uma gerao a outra de alunos so
tradicionais em muitas escolas. Poucas tm "atividades" que envolvem experincias com magia ou
tentativas de invocar foras ocultas, e essas so bastante assustadoras e at mesmo perigosas.
O grande autor de histrias de fantasmas, M. R. James, h muitos anos escreveu sobre uma dessas em
seu arrepiante conto "After Dark in the Playing Fields", e, em Hogwarts, o jogo  Quadribol, claro,
executado com cabos de vassoura e com Harry Potter como apanhador de sua equipe, Griffindor.
Recentemente, surgiu um livro, Quidditch Through The Ages, de Kennilworthy Whisp, no qual a
Inglaterra vence a Copa do Mundo de Quadribol... embora no futuro, daqui a 100 anos!
A atividade desempenhada nesta histria por Burlingham e seus amigos , no entanto, bem mais
sinistra. Ocorre na Abadia de Whitchurch, uma antiga escola pblica nas regies orientais da
Inglaterra. Correm boatos sobre procisses  meia-noite, cantos misteriosos e at mesmo
sacrifcios de animais.
O grupo secreto  conhecido como Os endiabrados e, segundo Harborough, um dos professores,
que revela os fatos a dois velhos amigos de escola, o interesse dos rapazes  em magia negra.
Os eventos que ele descreve,  primeira vista, parecem mais um pesadelo do passado, mas a
verdade  que foras antigas e aqueles envolvidos nelas nem sempre se extinguem
necessariamente...

                                 *   *

    Era uma mida noite de julho. Os trs amigos estavam sentados ao redor do fogo de turfa
na caverna de Harborough, cansados aps uma longa caminhada ao longo dos pntanos. Scott, o
siderrgico, vinha fazendo discursos contra a educao moderna. Recentemente, o filho de seu
scio comeara a trabalhar em um negcio para o qual precisava aprender muitas coisas, mas a
empresa no tinha condies de lhe ensinar.
- Suponho - disse - que, desde a escola preparatria at a universidade, Wilkins deva
ter gasto quase trs mil libras.  demais! Meu garoto vai para a escola de nvel secundrio de
Steelborough. Quando estiver com 16 anos, eu o mandarei para a Alemanha, a fim de aprender com
os nossos concorrentes.
Depois, ele vai ficar mais ou menos um ano no escritrio e, mais tarde, se mostrar alguma
capacidade, poder ir para Oxford.
Claro que ficar enferrujado e perder a prtica, mas poder estudar  noite para os exames,
como fazem os gerentes de minhas lojas com a sua histria industrial e economia.
- As coisas no so to ruins quanto voc as apresenta - ponderou Freeman, o arquiteto.
Acho que o problema com relao s escolas est em escolher a certa, uma vez que tantas so
excelentes. Matriculei meu filho em uma daquelas antigas escolas de nvel secundrio do interior e
que foram totalmente reformadas. O que um diretor esclarecido no consegue fazer quando recebe
carta branca e no est enterrado vivo em concreto e tradio!
- Voc provavelmente pensa - retrucou Scott - que tudo no passa de bobagens:
nenhuma disciplina, um monte de conversa sobre autoconhecimento e educao para o trabalho.
- Nesse ponto voc est errado. Eu diria que a disciplina , digamos, demasiadamente severa.
Outro dia, meu jovem sobrinho me contou que dois meninos foram expulsos por invadir um galinheiro
em uma dessas escapadas, mas suponho que aconteceram mais coisas do que o olho pode ver.
Por que est sorrindo, Harborough?
- Por causa de uma coisa que voc falou sobre diretores e tradio. Eu estava pensando
sobre tradies e jovens. Sujeitinhos esquisitos, reservados. Parece-me bastante possvel que haja
uma abundncia de sabedoria oculta transmitida de uma gerao a outra de meninos de escola,
digna de ser investigada por um psiclogo ou antroplogo. Ainda na minha primeira escola, lembro-me
de ter escrito alguns versos horrveis em meus livros. Constituam uma verdadeira "praga" a
quem os roubasse. Vi praticamente as mesmas palavras em antigos manuscritos monacais; do tempo
em que os livros tinham valor. Eu os escrevi nas margens do Via Latina, de Abbot, e de Aritmtica,
de Lock. Ningum iria querer roubar aqueles livros.
Por que os garotos devem quebrar a cabea em certa poca do ano? A data no 
determinada por lojistas, os pais no so consultados e, embora os santos tenham sido torturados at
a morte, no encontrei nenhuma conexo entre estouro de cabeas e o calendrio litrgico.
O assunto  decidido por uma tradio contnua, legada no de pai para filho, mas de jovem para
jovem. Talvez isso no se aplique s rimas infantis, apesar de estarem cheias de bizarros fragmentos
do folclore. Lembro-me de uma brincadeira com lenos amarrados e manuseados pelos dedos,
acompanhando uns versos que comeavam assim: "Padre Confessor, vim me confessar". Meu
instrutor, com 80 anos de idade, era filho de um proco da Igreja Superior Anglicana. No sei o que
aconteceria se o velho Tomlinson tivesse ouvido o ltimo verso:

"Padre Confessor, qual  a minha penitncia?
Ir a Roma e, do Papa, beijar o dedo.
Padre Confessor, beijar o senhor  a minha preferncia.
Bem, criana, faa-o, ento."

- Qual a origem dessa pequena pea de versos nada artsticos? - perguntou Freeman.
-  novidade para mim.
- No sei - respondeu Harborough. -Jamais a vi em livros. Mas por trs dos
movimentos dos lenos amarrados e das nossas risadinhas infantis, ocultava-se algo sinistro. Quase
consigo ver a figura encapotada, deslizante, parecendo um gato, rastejando entre as pginas dos
livros de George Borrow: dio e terror disfarados em libertinagem. Eu poderia lhes apresentar
outros casos: os cnticos sagrados, por exemplo, que costumavam ser cantados por meninos e
meninas como acompanhamento a uma dana, e que, de acordo com algumas pessoas, incorporam
uma forma grosseira de adorao  natureza.
- E o que tudo isso significa? - perguntou Freeman. - Que existe uma tradio
incorporada, ignorada pelo adulto comum, transmitida de uma gerao de crianas a outra. Se voc
quiser um exemplo realmente bom, um exemplo realmente mau, seria mais correto dizer contarei a
histria dos endiabrados.
Ele esperou Freeman e Scott acabarem de encher os seus cachimbos e ento comeou.
- Quando cheguei de Oxford e antes de ser chamado para a Ordem dos Advogados, passei
trs anos miserveis dando aula.
Scott riu.
- No tenho inveja dos pobres garotos que fizeram provas com voc - disse.
- Na verdade, eu tinha mais medo deles do que eles de mim. Consegui um emprego de
professor assistente em uma das velhas escolas de nvel secundrio em Freeman, s que ela no
havia sido reformada, e o diretor era um clrigo de total incompetncia. Foi l no leste. A cidade era
mais morta do que viva. A nica coisa que parecia aquecer os coraes daquelas pessoas era um
fogo de mexericos, sem chama, sem vigor, que todos se revezavam para manter aceso. Mas eu no
podia me afastar da escola. Os prdios eram antigos, a capela havia sido uma vez o coro de uma
igreja monstica. Havia um magnfico celeiro e algumas velhas pedras e bases de pilares no jardim
do diretor. Nenhuma outra indicao de que durante sculos, naquele lugar, viveram monges, com
exceo de um viveiro de peixes sem gua.
"No final de junho de meu primeiro ano, eu cruzava o ptio de recreao, a caminho de
minha residncia temporria na High Street. J era mais de meia-noite. No havia um sopro de ar, e
os campos de jogos estavam cobertos pela espessa neblina do rio. Havia algo meio misterioso
naquela cena. Tudo to quieto e silencioso. Era uma noite sufocante e, de repente, ouvi o som de
cantos. No sei de onde as vozes vinham nem quantas eram e, como no sou uma pessoa musical,
no posso lhes dar qualquer idia acerca da melodia. Era muito dissonante, com interrupes, e
havia algo nela que s posso descrever como perturbadora. De qualquer maneira, eu no tinha
vontade de investigar. Fiquei quieto, ouvindo, por uns dois ou trs minutos e depois sa pelos
portes da casa, percorrendo a deserta High Street. A janela de meu quarto por cima da tabacaria
dava para uma alameda que levava at o rio. Pela janela aberta, eu ainda conseguia ouvir, ainda que
bem fraca, a cantoria. Ento, um cachorro comeou a uivar e, quando parou, cerca de 15 minutos
depois, a noite de junho estava novamente em silncio. Na manh seguinte, na sala dos professores,
perguntei quem poderia ser o responsvel pela cantoria.
- So os endiabrados - disse o velho Moneypenny, o professor de cincias. - Eles
geralmente aparecem nesta poca.
 claro que perguntei quem eram os endiabrados.
- Os endiabrados - explicou Moneypenny - so cantores de hinos que no nasceram no
tempo devido. So uns rapazes do vilarejo que, por razes que s eles mesmos sabem, desejam
permanecer annimos. So, provavelmente, jovens de coro com uma mgoa, que desejam se fazer
de fantasmas. E, pelo amor de Deus, vamos esquecer esse assunto. J discutimos tantas vezes esse
caso dos endiabrados, que estou definitivamente cansado dele.
Ele era um sujeito difcil de lidar e acreditei nele. Porm, mais tarde, naquela mesma
semana, encontrei um dos professores mais jovens e lhe perguntei o significado daquilo tudo.
Aparentemente, era um fato j comprovado que a cantoria acontecia naquela determinada
poca do ano. Era um ponto delicado para discutir com Moneypenny, porque, em certa ocasio,
quando algum sugerira que poderiam ser travessuras dos jovens da escola, ele se descontrolara
completamente.
- Mesmo assim - disse Atkinson - podem ser tanto os nossos rapazes quanto quaisquer
outros. Se voc estiver disposto, ano que vem tentaremos ir a fundo deste negcio.
Concordei e encerramos o assunto. Na verdade, prximo ao aniversrio, eu j havia me
esquecido totalmente daquilo. Eu estava na hora de estudo com alunos de um nvel mais baixo. Os
garotos tinham estado invulgarmente agitados, estvamos a menos de um ms do final do perodo.
Foi com um suspiro de alvio que me dirigi  sala de Atkinson, pouco depois das oito, para pedir um
guarda-chuva emprestado, pois chovia bastante.
- A propsito - disse ele -, hoje  a noite em que os endiabrados devem aparecer.
O que faremos?
Disse-lhe que, se ele pensava que eu iria passar as horas, entre aquele momento e a
meia-noite, patrulhando os arredores da escola na chuva, estava muito enganado.
- Essa tambm no  a minha idia, de forma alguma. No botaremos os ps l fora. Vou
acender a lareira, preparar uns grelhados no fogo e ali no armrio h algumas garrafas de cerveja.
Se ouvirmos os endiabrados, iremos silenciosamente at os dormitrios para ver se algum est
faltando. Caso afirmativo, poderemos esperar que voltem.
Para encurtar a histria, aceitei aquela sugesto. Eu tinha muitos ensaios sobre a Revolta
dos Camponeses para corrigir, (garotos de 13 e 14 anos deveriam saber escrever ensaios sobre
alguma coisa), e poderia faz-lo to bem junto com Atkinson quanto em minha pequena e
melanclica sala.
 maravilhoso como um fogo pode ser bem-vindo em um ms de junho encharcado.
Esquecemos nosso vero perdido enquanto nos sentvamos ali, fumando, avivando as lembranas
na incandescncia das brasas.
- Bem - disse Atkinson finalmente -, j  quase meia-noite. Se os endiabrados forem
comear, no devem demorar muito. - Ele se ergueu da cadeira e afastou as cortinas. - Escute!
- disse. Depois do ptio de recreao, na direo dos campos de jogos, vinha o som dos cantos. A
msica, se  que poderia ser chamada assim, no tinha melodia nem ritmo e era interrompida por
pausas, tambm era encoberta pelo gotejar da chuva e o jorro da gua dos canos das calhas. Por um
momento, pensei ter visto o movimento de luzes, mas meus olhos devem ter sido confundidos pelos
reflexos na vidraa da janela.
- Vamos ver se algum dos nossos passarinhos fugiu - disse Atkinson. - Ele pegou uma
lanterna eltrica e fomos at os dormitrios. Tudo estava como deveria estar. Todas as camas
ocupadas, todos os meninos pareciam adormecidos. Quando voltamos ao quarto de Atkinson, j era
meia-noite e quinze e a msica havia cessado. Ento, peguei emprestada uma capa e corri para casa
sob a chuva.
"Aquela foi a ltima vez que ouvi os endiabrados, mas iria ouvi-los de novo. O segundo ato
foi encenado em Scapa. Eu havia sido transferido para um navio-hospital, a fim de tirar uma
radiografia por causa de um ombro deslocado, e, por um golpe de sorte, o catre a meu lado direito
estava ocupado por um tenente da Reserva Naval da Marinha Real, um camarada chamado Holster,
que havia freqentado a velha escola de Edmed um ano ou dois antes de mim. Com ele, aprendi um
pouco mais sobre os endiabrados. Aparentemente, eram rapazes que, por algum razo, mantinham
uma tradio escolar. Holster pensou que eles saam da escola pelos galhos da grande glicnia do
lado de fora do dormitrio B, aps deixarem bonecos cuidadosamente arrumados em suas camas.
Na noite de junho em que os endiabrados deveriam aparecer, permanecer acordado durante
muito tempo no era considerada uma atitude adequada e tambm no era nada saudvel fazer
muitas perguntas, para que a identidade dos endiabrados continuasse sendo um mistrio. Para o
grande e rude Holster, nada havia de verdadeiramente misterioso naquilo. Era apenas uma
brincadeiras de garotos de escola e nada mais. Uma atitude nada satisfatria, vocs devem
concordar, e que deixa de levar a histria adiante. Mas com o terceiro ato, a srie de episdios
comeou a tomar forma.
Tive a sorte de conhecer um dos endiabrados em carne e osso.
"Burlingham ficou, estruturalmente, muito abalado na guerra. Um psicanalista resolvera
cuidar de seu caso, conseguindo uma recuperao aparentemente miraculosa. Ento, h dois anos,
ele havia tido uma recada parcial e, quando nos encontramos na casa de lady Byfleet, ele estava
indo  cidade trs vezes por semana para receber tratamento especial de um praticante autodidata do
extremo oeste, que parecia estar chegando  raiz do problema. Havia algo de extraordinariamente
agradvel naquele homem. Tinha um extravagante senso de humor que deve ter sido a sua salvao,
associado a uma capacidade de intensa indignao que no se encontra com muita freqncia nos
dias de hoje. Tivemos diversas conversas interessantes (parte de seu tratamento consistia em longos
passeios pelos bosques, campos e trilhas, e ele estava bastante satisfeito por ter uma companhia),
mas aquela de que eu naturalmente mais me lembro foi quando, em uma crtica contra os mtodos
educacionais ingleses, ele mencionou o nome do Dr. Edmed, o diretor de uma abominvel e
pequena escola de nvel secundrio onde passei cinco dos mais miserveis anos da minha vida.
- Trs a mais do que eu - respondi.
- Bom Deus! - exclamou. - Imagine voc ser um produto daquele lugar!
- Fui um dos produtores - respondi. - No me orgulho do fato. Geralmente, no o
revelo.
- Existem coisas demais no reveladas sobre aquele lugar - comentou Burlingham. Era a
segunda vez que ele usava as mesmas palavras. O modo como pronunciara "aquele lugar" soava
quase o equivalente a um abominvel inferno. Conversamos algum tempo sobre a escola, a afetao
de Edmed, o velho porteiro Jacobson, um homem cujo bom humor recaa do mesmo modo sobre o
justo e o injusto, as caadas aos ratos do celeiro nas ltimas noites do perodo.
- E agora - disse eu finalmente - fale-me sobre os endiabrados.
Ele se virou para mim como um raio e desandou a rir, um riso esganiado, nervoso que,
lembrando-me de sua condio, fez com que eu lamentasse ter trazido o assunto  tona.
- Abominavelmente, divertido! - disse ele. - H 15 dias, o homem l da cidade onde
estou me tratando fez-me a mesma pergunta. Quebrei um juramento quando lhe contei, mas no
vejo por que voc tambm no possa saber. No que haja alguma coisa para saber, pois tudo no
passa de um ridculo pesadelo infantil sem rima ou motivo. Sabe de uma coisa, eu mesmo fui um
dos endiabrados.
A histria que Burlingham me contou era curiosa e desconjuntada. Os endiabrados eram
uma pequena sociedade de cinco membros que juraram solenemente manter segredo. Em
determinada noite de junho, depois do aviso dado pelo lder, eles saam dos dormitrios e se
encontravam perto do olmo no jardim do velho Edmed. Faziam uma incurso no galinheiro do
diretor e, aps capturarem uma ave, retiravam-se para o celeiro, cortavam-lhe a garganta,
depenavam-na, limpavam-na, em seguida a assavam em um braseiro, enquanto os ratos os
observavam. O lder dos endiabrados fabricava bastes de incenso, acendia um deles nas brasas, e
os outros quatro acendiam os seus, no dele.
Ento, todos se dirigiram em lenta procisso, cantando, at a casa de vero no canto do
jardim do diretor. As palavras que entoavam eram totalmente sem sentido. No eram em ingls nem
em latim. Segundo Burlingham, elas lembravam o refro das antigas rimas infantis:

"Havia trs irmos sobre o mar,
Peri meri dixd domine.
Eles me mandaram trs presentes,
Petrum partrum paradisi tempore
Peri meri dixi domine."

- E nada mais? - perguntei.
- No - respondeu - nada mais alm daquilo, mas...
Esperei o mas...
- Estvamos todos apavorados, terrivelmente apavorados.
Era bastante diferente de uma escapada comum de garotos de escola, mas no medo tambm
havia fascinao. Era como dragar uma piscina profunda para encontrar algum que se afogou.
Voc no sabia quem era e queria saber quem iria aparecer.
Fiz um monte de perguntas, mas ele no tinha mais nada de positivo para contar. Os
endiabrados eram garotos das sries mais baixas e intermedirias e, com exceo do lder, seu
tempo como membros da fraternidade estava limitado a dois anos. De acordo com Burlingham, um
nmero considervel de garotos deve ter feito parte dos endiabrados, mas jamais falavam a respeito
disso e ningum, que ele soubesse, quebrara o juramento. O lder em sua poca chamava-se
Tancred, o jovem mais impopular na escola, apesar de ser o melhor atleta. Ele foi expulso depois de
um acidente ocorrido na capela. Burlingham no sabia o motivo, estava na enfermaria quando
acontecera, e os relatos que reuni variavam consideravelmente.
Harborough fez uma pausa para encher o cachimbo.
- O quarto ato vir logo em seguida - disse.
- Tudo isso  muito interessante - observou Scott -, mas receio que se o seu objetivo
era gelar o nosso sangue, voc no teve muito sucesso. E se espera preparar-nos uma surpresa no
quarto ato, ficar decepcionado. - Freeman assentiu concordando.
- Scott que lia Edgar Wallace - comeou ele. - Hoje em dia, j estamos familiarizados
com todos esses truques. Black Mass  um vencedor, certo? Vou apostar o meu dinheiro nele.
Continue, Harborough.
- Vocs no do uma oportunidade a um companheiro, mas suponho que tenham razo.
O desenrolar do quarto ato  na sala de estudo do reverendo Montague Cuttler, vigrio de Saint Mary
Parbeloe, anteriormente um professor snior de matemtica, mas, antes da poca de Edmed, um
pobre garoto, cego como um morcego e membro da Sociedade dos Antiqurios.
Ele nada sabia a respeito dos endiabrados nem poderia saber.
Mas sabia muitas coisas sobre a histria antiga da escola, quando aquilo ainda no era uma
escola, mas um monastrio.
Durante as frias, ele costumava fazer umas pequenas escavaes e descobriu o que
acreditava ser a pedra que indicava o tmulo de Abbot Polegate. O homem, segundo parecia, tinha a
m reputao de mexer com mistrios proibidos.
- Da o nome endiabrados, suponho - disse Scott.
- No tenho tanta certeza - respondeu Harborough. - Na minha opinio,  mais
provvel que seja derivado de diabolos.
Mas, seja como for, do velho Cuttler consegui saber que foi sobre a pedra de Abbot que
Edmed construra a sua casa de vero. Isso no ilustra maravilhosamente a minha teoria?
Admito que no existem suspenses nessa histria. Nada existe realmente de sobrenatural.
Apenas mostra o poder da tradio oral, quando voc imagina uma forma adulterada de missa negra
sobrevivendo dessa forma durante centenas de anos bem sob os narizes dos pedagogos.
- Tambm comprova - acrescentou Freeman - que temos de sofrer com diretores
incompetentes. Agora, no estabelecimento de ensino sobre o qual lhes falava e onde matriculei o
meu filho e gostaria de poder lhes mostrar suas oficinas e salas de arte, h um colega que ...
- Qual era mesmo o nome da escola? - interrompeu Harborough.
- Whitechurch Abbey.
- E h 15 dias, diz voc, dois garotos foram expulsos por causa de uma incurso a um
galinheiro?
- Sim.
- Bem,  o mesmo lugar sobre o qual eu estava falando. Os endiabrados estavam em ao.
- Quarto ato - disse Scott - e fecham-se as cortinas.
Harborough, no final das contas voc teve o seu suspense.

                                 *  *

WILLIAM HARVEY  lembrado como autor popular de arrepiantes contos de
fantasmas e de uma histria de horror clssica, filmada e adaptada para a televiso,
The Beast with Five Fingers (1928), na qual um homem  assombrado por uma
simples mo sem corpo. Ele foi educado no Bailiol College, em Oxford, e por alguns
anos trabalhou no Fircroft College, perto de Birmingham. Durante a Primeira Guerra
Mundial, Harvey alistou-se na Marinha e, em 1918, recebeu a medalha Albert por ter
salvado a vida de outro marinheiro preso na destroada e inundada casa de mquinas
de um destrier prestes a se partir em dois. Sofreu terrveis ferimentos por sua
bravura e, aps a guerra, morou tranqilamente na Sua, escrevendo histrias que
deixavam os leitores arrepiados. Admirador das suas obras, Maurice Richardson
comentou sobre essa histria a respeito de garotos ocultistas: "Ela me surpreende
como uma pequena fantasia realmente original - o mais impressionante, levando-se
em conta suas possibilidades essenciais".

                                  * *

A Magia de Voar
Jacqueline Wilson

                                   *

    O mundo da magia est repleto de criaturas surpreendentes: feras tradicionais, como drages que
soltam fogo pelas ventas e enormes serpentes, bem como animais mais corriqueiros, incluindo
gatos pretos, ces do inferno e sapos encantados que podem ou no se transformar em prncipes
quando beijados. Nesta prxima histria encontraremos, provavelmente, a mais comum de todas as
criaturas mgicas, um sapo, e a pequena Rebecca, a amiga que o ajudar. A esta altura, Rebecca
j sabe o que  bruxaria, porque seu pai lhe explicou. Entretanto, ela ficou um pouco perturbada
com a histria a respeito de um pequeno lago perto de sua casa onde, h muito tempo, mulheres
suspeitas de bruxaria eram jogadas em suas guas profundas. O pai disse que, se flutuassem, eram
culpadas por serem ms; caso contrrio, afogavam-se,  claro. O fato no parecia deforma alguma
justo a Rebecca. Ento, ela encontrou um enorme sapo que morava no lago das bruxas. Mas aquele
no era um sapo comum: tinha centenas de anos, era capaz de falar e executar a mais assombrosa
magia. Seu nome era Glubbslyme e foi grande amigo de uma bruxa do sculo XVII, tambm
chamada Rebecca Cockgoldde, que havia sido torturada e afogada no mesmo lago. Nossa Rebecca
ficar maravilhada com o sapo e pedir para que ele lhe ensine magia. Especialmente, como
voar...

                                 *  *

- Voc me ensina a voar? - Rebecca perguntou ao sapo.
Glubbslyme balanou as pernas e suspirou.
- Eu no me interesso por voar - disse. - Sofro de vertigem.
- O que  isso? - perguntou Rebecca, indagando a si mesma se aquilo poderia ser uma
terrvel doena do sculo XVII. Mas era s tonteira.
- S! - disse Glubbslyme, fechando os olhos. - Uma vez ca do cabo da vassoura,
quando vovamos para assistir ao Grande Sabbat, e desci violenta e rapidamente como um falco.
Estava certo de que iria borrifar o cho com meu frio sangue, mas minha querida Rebecca deu um
mergulho atrs de mim e salvou-me a tempo.
- Eu no vou deixar voc cair, Glubbslyme, prometo. Por favor, eu daria qualquer coisa
para poder voar. Por favor! Por favor!
Glubbslyme suspirou de forma irritada.
- Muito bem. Uma aula de vo bem rpida. Primeiro, voc precisar preparar um
ungento para voar. Minha Rebecca usava o mais forte ungento possvel, porque se aventurava a
lugares amplos e distantes. Uma loo mais fraca ser suficiente para os seus propsitos. Agora, os
ingredientes. Claro que Rebecca os alterava segundo suas necessidades. Quando voamos sobre trs
municpios na noite de Halloween, ela usou uma base de gordura de ganso e adicionou garras de
guia, olho de albatroz, sangue de morcego e sangue coagulado de um homem enforcado. Imagino
que por aqui no existe uma forca, no , criana?
- O que  uma forca?
-  o pilar no qual os malfeitores so pendurados.
- Hoje em dia no existem mais - explicou Rebecca, aliviada.
Glubbslyme estalou a lngua.
- Bem, acho que poderemos preparar com guia, albatroz e morcego.
- Acho que isso tambm no ser possvel - respondeu Rebecca. - Estou certa de que
no poderia capturar uma guia ou um albatroz e tenho medo de morcegos.
- Voc no pode voar sem um ungento areo - argumentou Glubbslyme, impaciente.
Pela janela da cozinha, olhou atentamente para os pssaros na cerca. - E se tornarmos a coisa mais
simples? Por gentileza, pegue seis pardais.
- No vou arrancar olhos ou bicos ou unhas - disse Rebecca com firmeza. - Alm do
mais, serei denunciada  Sociedade Protetora dos Animais.
Ela fez com que funcionasse com duas penas de pardal, um zango morto e a asa de uma
das liblulas que serviam de petisco para Glubbslyme. Fez uma grossa pasta branca com sabo em
p (porque a marca era Ariel), picou as penas, o zango e a asa em pequenos pedaos e os
adicionou  mistura.
- Parece bastante repulsivo - ela disse. - Era um zango realmente morto.
- Quem recebe esmola no tem direito de reclamar - ponderou Glubbslyme. - Agora
traga seu cabo de vassoura e vamos nos ungir com esse ungento de baixa qualidade.
Havia outro problema.
- Eu no tenho um cabo de vassoura - disse Rebecca.
- No tem cabo de vassoura - disse Glubbslyme. - Posso perguntar como voc varre o cho?
Rebecca foi ao armrio e trouxe o aspirador de p, a p de lixo e a escova. Glubbslyme no
compreendia o que era um aspirador de p, de forma que ela o ligou para mostrar. Ele deu um grito
e pulou para dentro da pia, buscando um lugar seguro.
- Est tudo bem, Glubbslyme, no h motivo para ter medo, prometo - tranqilizou-o
Rebecca, desligando o aspirador. - Eu tambm tinha medo, mas s quando era beb.
- No creio que voc alguma vez tenha sido to pequena que pudesse ser sugada para
dentro daquele bico horrvel - disse Glubbslyme, estremecendo. - Por gentileza, leve isso de
volta para o armrio. Tambm no precisaremos da escova. Poderia ser uma montaria adequada
para algum como eu, mas no suportaria um grande peso como o seu.
Rebecca sentiu-se ofendida. Talvez fosse um pouco mais rechonchuda do que Sarah e a
velha e magra Mandy, mas no era realmente gorda.
- O que poderemos usar, ento? - perguntou, jogando o aspirador e a escova dentro do
armrio.
Glubbslyme esquadrinhava l no fundo.
- O que  aquele basto colorido comprido l no canto?
Rebecca percebeu que ele se referia ao guarda-chuva vermelho e amarelo do pai dela.
- Ser suficiente - disse Glubbslyme. - Aplique o ungento. Estamos prestes a aprender
a voar.
Rebecca enfiou os dedos em seu desagradvel ungento de Ariel e passou um pouco nos
braos e pernas. Tentou evitar os pequenos pedacinhos pretos caso fossem o zango. O ungento
causava uma desagradvel sensao de rano. Esperava que no lhe causasse nenhuma erupo,
uma vez que tinha a pele muito sensvel.
- Em mim tambm - ordenou Glubbslyme.
Ela passou o ungento no bizarro dorso verrugoso do sapo.
Glubbslyme certamente no parecia ter uma pele sensvel, mas, quando ela comeou a
esfregar a barriga dele, ele se dobrou numa louca gargalhada.
- Desista! - disse ele, ofegante. - Sou extremamente coceguento.
Rebecca tambm dava risadas em nervosa excitao. Glubbslyme disse-lhe para montar seu
corcel. Rebecca montou o guarda-chuva, sentindo-se bastante tola. Lembrava-se de antigos jogos de
cavalinho de pau e pensava se deveria dar ao guarda-chuva um encorajador estalo de lngua.
- No vai montar tambm? - perguntou a Glubbslyme.
- No, a menos que seja absolutamente necessrio - respondeu Glubbslyme. - Agora
concentre-se, criana. O malhado vai subir em direo ao cu.
Rebecca desejou to fortemente quanto podia, seus olhos apertados com esforo, quase
fechados. Absolutamente nada aconteceu. Ela permaneceu com os ps sobre o no esfregado
assoalho da cozinha, montando o guarda-chuva.
- Tente com mais fora! Concentre-se - sugeriu Glubbslyme.
Rebecca tentou. Concentrou-se at o ponto em que pensou que seu crebro iria estourar,
mas ainda assim nada aconteceu.
Glubbslyme sugeriu outra aplicao do ungento. Ento, ela esfregou at que seus braos e
pernas ficassem revestidos de branco, aplicou mais no rosto, com leves pancadinhas, e at debaixo
da camiseta. Sentiu-se horrivelmente engomada e pegajosa, mas no fazia a menor diferena.
- Parece que voc no tem nem a mais rudimentar aptido - resmungou Glubbslyme.
- Terei mesmo de ir com voc.
Ele pulou cautelosamente atrs dela. O guarda-chuva imediatamente estremeceu.
- Oh, piedade, meu estmago - gemeu Glubbslyme.
- Ele se mexeu, Glubbslyme! Senti que ele se moveu - Rebecca gritou excitada.
- Tenho medo que minha sopa tambm se mova - respondeu Glubbslyme. - Tem
certeza de que quer voar?
- Quero, quero sim!
- Assim seja - Glubbslyme suspirou. - D o comando mgico.
Rebecca pronunciou rapidamente sete Glubbslymes enquanto os olhos dele revolviam uma,
duas, trs, quatro, cinco, seis, sete vezes. O guarda-chuva estremeceu novamente e, ento, lanou-se
violentamente para cima, fazendo com que Rebecca se desequilibrasse de tal forma, que ela fechou
o guarda-chuva, esmagando dolorosamente Glubbslyme. Foi um segundo de confusa gritaria,
enquanto estavam de fato sendo transportados pelo ar, para logo se chocarem contra o assoalho da
cozinha. O guarda-chuva ficou quieto onde caiu. Glubbslyme no permaneceu quieto. Pulava,
coaxando furiosamente, esfregando o brao dolorido e o galo na cabea. Rebecca torceu o tornozelo
e bateu com a cabea na quina da mesa da cozinha, mas no ousava reclamar. Concentrava-se em
acalmar Glubbslyme, o que no estava sendo nada fcil.
- Sua desajeitada obtusa, bobalhona - zombou.
- Eu sei e sinto muito, Glubbslyme, de verdade. Juro que no vou esmag-lo da prxima
vez.  que aconteceu to de repente que me pegou de surpresa. Por favor, vamos de novo. Voc
senta na minha frente para ficar na parte segura.
- No existe parte segura quando voc est envolvida - respondeu Glubbslyme, mas
pulou no guarda-chuva, assentando-se sobre ele, agachando-se no cabo. Rebecca seguiu-o e sentou-se
no guarda-chuva, agarrando-o to fortemente com as mos quanto podia e, como medida de
segurana, tambm com os joelhos. Recitou sete Glubbslymes. Glubbslyme, esgotado, revolveu os
olhos uma, duas, trs, quatro, cinco, seis, sete vezes.
O guarda-chuva estremeceu, entrando em ao. Elevou-se no ar e, junto com ele, Rebecca e
Glubbslyme. Alcanaram o nvel da mesa da cozinha.
- Estamos conseguindo, estamos conseguindo! - gritou Rebecca. Estava to excitada,
que perdeu todo o bom senso e agitou as pernas amplamente, para convencer-se de que estava
realmente fora do cho.
No ficou fora do cho por muito tempo. O balanar de suas pernas fez com que o
guarda-chuva se inclinasse lateralmente.
Bateu nas prateleiras da cozinha, derrubando a lata de biscoitos no cho e o impacto f-lo
girar e rodopiar. Rebecca e Glubbslyme tambm giraram, rodopiaram e rapidamente retornaram ao
assoalho da cozinha. O guarda-chuva permaneceu rodando no ar por uns poucos segundos, como se
no tivesse percebido que eles no mais estavam sobre ele, para, ento, tombar e aterrissar aps
uma pancada contra o batente da porta do qual tirou uma grande lasca de tinta.
- Oh, ajude - pediu Rebecca, abatida.
Glubbslyme no disse absolutamente nada, por vrios segundos. Estava deitado de costas,
contorcendo-se.
- Glubbslyme? Voc est bem, no est? - perguntou Rebecca, aflita.
- Estou passando dos limites de tudo que pode dar errado - reclamou Glubbslyme. Ele se
levantou com esforo e limpou as migalhas de biscoito de seu corpo. Mordiscou, distrado, um
pedao e, ento, comeou a mastigar energicamente.
- Vamos abandonar imediatamente esta tolice de voar.
Talvez voc goste da idia de dor e confuso e indignidade, mas eu no!
- Mas no posso desistir agora, no quando estou quase pegando o jeito - respondeu Rebecca.
- Voc est "pegando o jeito" de cair, no de voar - observou Glubbslyme.
- Podemos tentar mais algumas vezes, por favor? Eu realmente consegui. Eu estava de
verdade no ar.
Glubbslyme suspirou. Rebecca pegou alguns pedaos maiores de biscoito para persuadi-lo.
Ela teria que varrer bem o cho da cozinha e ver se haveria alguma forma de colocar o pedao de
tinta de volta no batente da porta, mas no iria se preocupar com isso agora.
No havia muito sentido em se preocupar. No vo seguinte, ela derrubou, da mesma forma,
a caixa de flocos de milho da prateleira e, em mais outro, atingiu em cheio a parede, de tal maneira
que o guarda-chuva de seu pai lascou um grande pedao do reboco. Aquilo realmente a deixou
alarmada e ela tentou fazer um reparo temporrio com o resto do ungento de Ariel, que se mostrou
de uma ineficcia absoluta.
- O que papai vai dizer? - ela murmurou, mas a sensao de voar havia sido to
maravilhosa, que logo ela deixou de se preocupar. Chegou  concluso de que simplesmente no
havia espao suficiente na cozinha. Por isso, convenceu Glubbslyme a empoleirar-se no
guarda-chuva no alto da escada.
Foi uma idia sensata. Rebecca poderia impelir o guarda-chuva com as pernas e realmente
dirigi-lo. Voaram desde o alto da escada at embaixo, ziguezagueando um pouco e aterrissando
sobre uma pilha de coisas no saguo; apesar de tudo, foi um vo correto.
- No  fantstico!?! - exclamou Rebecca, pulando alvoroada. -  extremamente
melhor do que andar de bicicleta ou deslizar ladeira abaixo.
- Desista - gemeu Glubbslyme. - No h necessidade de pular como uma bola numa
xcara. J estou me sentindo tonto o bastante sem seus loucos pulos para cima e para baixo.
- Oh, Glubbslyme, no  possvel que voc esteja se sentindo tonto se voamos s um
pequeno trecho! Vamos l, vamos de novo. E de novo e de novo e de novo.
- Voc voa de novo e de novo. Eu vou ficar aqui deitado e fechar os meus olhos at que o
mundo pare de rodar - murmurou Glubbslyme.
Rebecca pensava se poderia realmente faz-lo sozinha. Parecia que agora havia realmente
descoberto o jeito. Decidiu fazer uma tentativa. Sabiamente, no subiu at o topo da escada.
Montou no guarda-chuva e lanou-se no ar a trs degraus do cho. Foi a mesmssima coisa.
Aterrissou rapidamente; na verdade, sobre os dois joelhos e o queixo. Permaneceu onde estava, com
o traseiro para cima, pensando se seus dentes ainda estariam no lugar. Correu a lngua sobre eles
cuidadosamente.
Todos pareciam ainda estar l. Ento, pensou se seu maxilar havia se deslocado, mas,
quando se inclinou e sentou, verificou que podia moviment-lo facilmente, embora estivesse
bastante dolorido.
- Por que voc est fazendo caretas to terrveis? - perguntou Glubbslyme. - Est tendo
um ataque?
- No, claro que no! Estou como que colocando meu rosto de volta no lugar, porque
bateu um pouquinho. No posso absolutamente voar sem voc, Glubbslyme.
- Sei disso - concordou Glubbslyme.
- Ento voc vai comigo? S mais uma vez?
Glubbslyme concordou relutante. Voaram do alto da escada at embaixo. Exceto um
encontro com o corrimo, foi um vo perfeito. Rebecca tentou outro mais uma vez. E outro.
Agora, estava comeando a conseguir dirigir adequadamente, e dessa vez at conseguiu um pouso
decente, os ps primeiro.
- Eu consigo, eu consigo! - gritou, triunfante.
- Eu? - perguntou Glubbslyme.
- Ns! Voc! Oh, Glubbslyme, no admira que o chamavam de grande. Voc realmente .
Voc  o sapo mais mgico de todos os tempos. Estou to orgulhosa e feliz por voc ser o meu
grande amigo!

                                 *  *

JACQUELINE WILSON foi definida pela revista Time como "a segunda autora infantil
britnica favorita viva", depois de J.K. Rowling. Ela escreveu aproximadamente 70
livros e vendeu mais de quatro milhes de exemplares, sem falar nos inmeros
prmios, incluindo o Children's Book Award, o Smarties Prize e o fato de ter sido
indicada vrias vezes para a medalha Carnegie. Nasceu em Somerset e iniciou sua
carreira em revistas, em particular na Jackie, uma revista para jovens, que recebeu
esse nome em sua homenagem. Ela lembra: "Minhas ambies eram ter os livros
publicados, receber algumas crticas positivas e, talvez, ganhar um prmio. Mas nunca,
nunca pensei que eles se tornariam bestsellers". A habilidade de Wilson para escrever
sobre meninas desembaraadas, corajosas e com senso de humor em todo tipo de
situao, desde um lar destrudo at uma escova com velocidade sobrenatural, fez
com que se tornasse uma grande favorita. Jacqueline Wilson visita escolas com
regularidade: " bom para a minha popularidade", afirma. D aulas de criao literria
e diz que adora ler. Aparentemente, tem mais de 10.000 livros em sua prpria biblioteca!

                                  * *

O ENIGMA CHINS
John Wyndham

                                  * *

    Os drages so, sem dvida, as criaturas mais populares na histria da magia.  possvel
encontrar contos a respeito de drages desde a poca de Merlin at os dias de hoje. Existem,
supe-se, diversas espcies ao redor do mundo, desde o tipo perigoso na Inglaterra e Europa, como
o vencido por So Jorge, at o benevolente, mencionado h 3.000 anos ou mais na mitologia
chinesa. Famosos drages de fico incluem o malvado Smaug, em O senhor dos anis (1954), de
Tolkien, os belos e superiores em Wizard of Earthsea, de Ursula Le Guin, srie das dcadas de
1960 - 1910, e o grupo do grande e malvolo drago com alguns pequenos drages propensos a
soluos no romance cmico Discworld, Guards! Guards! (1989), de Terry Pratchett. Eles tambm
aparecem em grande nmero nos contos de Harry Potter, e Ron Weasley, o melhor amigo de
Harry,  um dos grandes peritos nessa rea. Quando, por exemplo, Harry diz que no existem mais
drages selvagens na Inglaterra, Ron insiste: " claro que existem! Da espcie Common Welsh
Green e Hebridean Black. Tambm so partes importantes da lenda de Hogwart: o lema da escola:
Draco Dormiens Nunquam Titillandus, que significa Jamais Faa Ccegas em um Drago
Adormecido, e entre os livros didticos escolares podemos citar Espcies de drages da Inglaterra
e Do ovo ao inferno: um guia sobre como cuidar de drages. (At perguntaram a J. K. Rowling
com que se deve alimentar um beb drago e, na opinio dela, o melhor  uma mistura de sangue
de galinha e conhaque!) Nesta prxima histria, Dajyyd envia um ovo estranho, da China, a seus
pais no Pas de Gales. Ningum em Llangolwgoch est muito certo do que aquilo pode ser, at que,
na manh seguinte, os pais encontram a casca rompida e uma criatura com aparncia de lagarto,
olhos vermelhos esbugalhados e uma cauda longa, verde-azulada, olhando para eles. Quando o
bicho, repentinamente, lana dois jatos de fogo e uma nuvem de fumaa, eles tm,
indubitavelmente, uma boa idia...

                                 *   *

O pacote, aguardando provocantemente no aparador, foi a primeira coisa que Hwyl notou quando
chegou do trabalho.
-  de Dai? - perguntou  esposa.
- Sim, sem dvida. Os selos so japoneses - respondeu ela.
Ele se aproximou para examin-lo. Tinha o formato de uma pequena caixa de chapu,
talvez com 25 centmetros de altura.
O endereo: Sr. e Sra. Hwyl Hughes, Ty Derwen, Llynllawn, Llangolwgcoch,
Brecknockshire, S. Wales, cuidadosamente escrito em letras de frma, para que os estrangeiros o
entendessem perfeitamente. A outra etiqueta, tambm com letras de frma, mas em vermelho,
tambm era bastante clara. Dizia: OVOS! Frgil! Manusear com muito CUIDADO!
- Que estranho! Enviar ovos de to longe - disse Hwyl. - Temos ovos em quantidade
suficiente. Ser que so de chocolate?
- Venha tomar seu ch, homem - disse-lhe Bronwen. - Passei o dia inteiro olhando para
esse embrulho e, agora, posso esperar um pouco mais.
Hwyl sentou-se  mesa e comeou a refeio. De tempos em tempos, entretanto, seus olhos
se voltavam para o pacote.
- Se forem mesmo ovos,  preciso ser cuidadoso - observou. - Uma vez li em um livro
que na China eles conservam ovos durante anos. Enterram-nos, como uma iguaria. Isso agora pode
lhe parecer esquisito. Como so estranhos na China. No , de forma alguma, como aqui no Pas de
Gales.
Bronwen deu-se por satisfeita, dizendo que, talvez, no Japo tambm no fosse como na China.
Ao final da refeio, depois de tudo limpo, o embrulho foi transferido para a mesa. Hwyl
cortou os barbantes e retirou o papel marrom. No interior, havia uma pequena caixa de folha e
flandres. Depois de retirada a fita adesiva que prendia a tampa, viu-se que estava cheia at a borda
com serragem. A senhora Hughes pegou uma folha de jornal e, prudentemente, abriu o tampo da
mesa. Hwyl enfiou os dedos na serragem.
- H alguma coisa aqui, com certeza - anunciou.
- Como voc  estpido!  claro que existe alguma coisa a - disse Bronwen, afastando
a mo dele com um tapa.
Ela derramou, cuidadosamente, um pouco da serragem sobre o jornal e tateou, ela mesma,
dentro da caixa. O que quer que fosse, parecia muito grande para um ovo. Retirou mais um pouco
de serragem e voltou a enfiar a mo. Dessa vez, encontrou um pedao de papel. Puxou-o para fora,
depositando-o sobre a mesa; uma carta com a letra de Dafydd. Ento inseriu a mo mais uma vez,
passou os dedos sob o objeto e retirou-o suavemente.
- Bem, sem a menor dvida! Olhe s para isso! J viu algo assim? - exclamou. - Ovos,
ele havia dito, no ?
Ambos o observaram atentamente, atnitos, por alguns instantes.
-  to grande. E estranho, tambm - disse Hwyl por fim.
- Que espcie de ave botaria um ovo desses? - Bronwen perguntou.
- Avestruz, talvez? - sugeriu Hwyl.
Mas Bronwen balanou a cabea. Ela j havia visto um ovo de avestruz em um museu e
lembrava-se muito bem de que pouco tinha em comum com aquilo. O ovo de avestruz era menor,
com superfcie fosca, de aspecto amarelado, levemente ondulada. Aquela superfcie era lisa e
brilhante e, de forma alguma, tinha aquela aparncia morta: tinha um certo esplendor, um tipo
nacarino de beleza.
- Poderia ser uma prola? - arriscou em tom de voz denotando admirao.
- Que tolice a sua - retrucou o marido. - De uma ostra to grande quanto a Prefeitura de
Llangolwgcoch? Por acaso voc imagina isso?
Ele enfiou mais uma vez a mo na caixa, mas "Ovos", assim parecia, fora modo de
expresso: no havia outro, no havia espao suficiente para mais um.
Bronwen colocou um pouco da serragem em uma de suas melhores tigelas de vegetais e
depositou o ovo com todo o cuidado sobre ela. Ento, ambos se sentaram para ler a carta do filho:

"S. Tudor Maid,
Kobe.
Queridos mame e papai, Espero que tenham ficado to surpresos com o contedo quanto
eu.  uma coisa de aspecto interessante e espero que os pssaros da China tambm sejam
interessantes. Afinal, l existem pandas. Encontramos uma pequena sampana, mais ou
menos a 200 quilmetros da costa da China, com o mastro quebrado e que jamais deveria
ter-se afastado tanto. Com exceo de dois, os outros tripulantes estavam mortos. Agora,
todos esto mortos. Um deles, que ainda no estava morto, segurava essa coisa em forma
de ovo, toda enrolada em um acolchoado, como se fosse um beb, s que eu no sabia que
era um ovo, nem naquele momento, nem depois. Um deles morreu logo que chegou a bordo,
mas aquele outro ainda viveu mais dois dias, apesar de todo o meu esforo. Infelizmente,
ningum aqui falava chins, porque ele era um bom sujeito, solitrio, e eu sabia que ele era
um caso perdido, infelizmente assim so as coisas. E, quando percebeu que estava quase
no fim, ele me deu esse ovo e falou  alguma coisa, com a voz muito fraca que, de qualquer
forma, eu no teria conseguido entender. Tudo que pude fazer foi peg-lo, segur-lo
cuidadosamente, como ele o fizera, e dizer-lhe que cuidaria dele, o que ele tambm no
conseguiu compreender. Depois, falou mais alguma coisa, olhou muito preocupado e
morreu, o pobre sujeito. Isso  tudo! Sei que  um ovo porque, quando eu lhe levei ovo cozido
para ele comer, ele me apontou os dois para me mostrar, mas ningum a bordo sabe de que
tipo . Como eu lhe prometi que o manteria em segurana, estou enviando-o para vocs,
para que o guardem para mim, j que neste navio no h lugar seguro. Espero que o ovo
no rache na viagem. Espero que o ovo os encontre da mesma forma como me deixa agora.
Com muito amor a todos, Dai".

- Bem, agora h algo de estranho - disse a senhora Hughes, quando terminou de ler.
- E, de fato, parece um ovo; a forma dele - reconheceu. - Mas as cores no so. So parecidas.
Como voc v que h leo na estrada quando chove. Mas em minha vida jamais vi um ovo como
esse. A cor  positivamente de ovo, mas no o brilho.
Hwyl continuou a olhar para o ovo, pensativamente.
- Sim,  bonito - concordou -, mas para que serve?
- Tem a sua finalidade, claro! - disse a esposa. - E uma confiana... e tambm sagrada.
O pobre homem estava morrendo e nosso Dai deu-lhe a sua palavra. Agora, estou pensando em
como o manteremos em segurana at ele voltar.
Ambos ficaram olhando por algum tempo para o ovo.
- A China  muito longe - observou Bronwen sombriamente.
No entanto, passaram-se vrios dias antes que o ovo fosse retirado do aparador. O assunto
rapidamente se espalhou pelo vale, e os visitantes se sentiriam menosprezados caso no
conseguissem v-lo. Bronwen percebeu que retirar e devolver o ovo continuamente a seu lugar seria
mais perigoso do que deix-lo em exibio.
Quase todos consideraram compensador v-lo. Idris Bowen, que morava trs casas adiante,
estava praticamente sozinho em sua opinio divergente.
- Tem o formato de um ovo - reconheceu. - Mas deve ter cuidado, senhora Hughes. 
um smbolo de fertilidade, creio eu, mas provavelmente foi roubado.
- Senhor Bowen - comeou Bronwen, indignada.
- Oh, pelos homens daquele barco, senhora Hughes.
Devem ser refugiados da China, compreende? Traidores do povo chins. E fugindo com
tudo o que conseguissem carregar, antes que o glorioso exrcito de trabalhadores e camponeses os
pudesse pegar. E sempre a mesma coisa, como ver quando a revoluo chegar ao Pas de Gales.
- Oh, meu caro, meu caro! Como o senhor  engraado, senhor Bowen. Imagino o que a
propaganda poltica  capaz de fazer. - disse Bronwen.
Idris Bowen franziu o cenho.
- No sou engraado, senhora Hughes. E tambm existe propaganda em uma situao
honesta - respondeu ele, saindo com dignidade.
At o final daquela semana, praticamente todos os habitantes do vilarejo tinham visto o ovo
e ouvido a senhora Hughes responder que no sabia que espcie de criatura o botara e que j era
tempo de guard-lo em segurana at a volta de Dai.
Eram poucos os lugares na casa onde ela poderia ter certeza de que ele descansaria sem ser
perturbado, mas, pensando bem, o armrio parecia to bom quanto qualquer outro, de maneira que o
colocou de volta no que restou de serragem na lata e o deixou ali.
Ficou l durante um ms, fora das vistas e bastante esquecido at o dia em que Hwyl, ao
retornar do trabalho, encontrou a esposa sentada  mesa, com uma expresso desconsolada no rosto
e um curativo no dedo. Ela parecia aliviada por v-lo.
- Est chocado - observou Bronwen.
A expresso estupefata de Hwyl era irritante para quem no tivera outro assunto na mente
durante todo o dia.
- O ovo de Dai - explicou ela. - Estou dizendo que o ovo foi chocado.
- Bem, agora voc tem alguma coisa! - disse Hwyl. -  uma bela franguinha?
- No  galinha, de maneira alguma.  um monstro, sem dvida, e est me mordendo.
- Ela estendeu o dedo com a banem.
Explicou que naquela manh havia ido at o armrio para pegar uma toalha limpa e, quando
enfiou a mo l dentro, algo mordera dolorosamente o dedo dela. Inicialmente, pensou que poderia
ser um rato que, de alguma forma, havia entrado, vindo do quintal. Depois, ela notou a tampa fora
do lugar e a casca do ovo em pedaos.
- E como ? - perguntou Hwyl.
Bronwen admitiu que ainda no o vira bem; apenas de relance. Uma cauda longa, verde-azulada,
saindo de trs de uma pilha de lenis. Em seguida, o bicho olhou fixamente para ela do
topo da pilha, com os olhos vermelhos. Visto isso, parecia-lhe que aquele era mais o tipo de
trabalho que um homem deveria fazer, de modo que fechou a porta e foi fazer um curativo no dedo.
- Ele ainda est l? - perguntou Hwyl. Ela concordou com um movimento de cabea.
- Ento, vamos j dar uma olhada nele - disse ele, com ar decidido.
J ia saindo do aposento quando pensou melhor e voltou para pegar um par de grossas luvas
de trabalho. Bronwen no se ofereceu para acompanh-lo.
Pouco tempo depois, ouviu-se o rudo de uma briga, uma ou duas exclamaes; em seguida,
o som de passos descendo as escadas. Huye entrou, fechando a porta por trs. Colocou sobre a mesa
a criatura que carregava e que, por alguns segundos, ficou ali, agachada, sem se mover.
- Imagino que ele estivesse apavorado - observou Hwyl.
Quanto ao corpo, a criatura guardava uma certa semelhana com um lagarto. Um lagarto
grande, com mais de 30 centmetros de comprimento. As escamas, no entanto, eram muito maiores,
algumas torcidas para cima, erguidas aqui e ali, como barbatanas. A cabea era bastante diferente da
cabea dos lagartos, sendo mais arredondada, a boca larga, amplas ventas e, acima de tudo, umas
concavidades com um par de olhos vermelhos, esbugalhados. Perto da nuca, como se fosse uma
espcie de juba, exibia uns apndices curiosos, que pareciam fitas, sugerindo cachos de cabelos
permanentemente aderidos. A cor era principalmente verde, com alguns traos de azul, de um brilho
metlico, mas na cabea e nas pores inferiores dos cachos apareciam brilhantes manchas
vermelhas. Viam-se tambm pinceladas de vermelho na parte em que as pernas se uniam ao corpo e
tambm nos ps, com os dedos terminando em aguadas garras amarelas. Em sua totalidade, uma
criatura surpreendente e vivida.
A criatura examinou Bronwen por um momento, deu uma olhada maligna para Hwyl e,
depois, comeou a correr sobre o tampo da mesa, procurando uma sada. Os Hughes a observaram
por alguns instantes. Em seguida, comentaram entre si.
- Bem,  horrvel, sem dvida - observou Bronwen.
- Pode at ser horrvel. Mas tambm  bonito, veja - disse Hwyl.
- Tem uma cara feia - respondeu Bronwen.
- Sim, concordo. Mas tambm tem cores bonitas, olhe.
Magnficas, como tecnicolor, eu diria - acrescentou Hwyl.
A criatura, aparentemente, estava quase decidida a pular da mesa. Hwyl curvou-se para
frente, segurando-a. Ela se retorceu, tentando virar a cabea para mord-lo, mas logo descobriu que
estava sendo agarrada muito perto da nuca para consegui-lo. Fez uma pausa em seus esforos.
Ento, repentinamente, ela bufou. Dois jatos de fogo e uma nuvem de fumaa saram de suas
ventas. Hwyl, abruptamente, deixou-a cair, parcialmente pelo susto e mais ainda devido  surpresa.
Bronwen deu um grito agudo e subiu apressadamente na cadeira.
A criatura parecia, ela mesma, um pouquinho atnita. Por alguns segundos, continuou a
virar a cabea e a balanar a cauda sinuosa, quase do mesmo tamanho do corpo. Ento, correu pelo
tapete at a lareira, aninhando-se em frente ao fogo.
- Maldio! Veja s aquilo! - exclamou Hwyl, um pouquinho nervoso. - Ele cuspiu
fogo, acho eu. Gostaria de entender isso agora.
- Fogo, sem dvida, e fumaa tambm - concordou Bronwen. - Foi chocante, e nada
normal, de forma alguma.
Ela olhou indecisa para a criatura. O bicho instalou-se to obviamente para uma soneca, que
a mulher se arriscou a descer da cadeira, mas sem se descuidar da vigilncia, pronta para pular de
novo, caso ele se movesse.
- Jamais pensei que veria um desses. E tambm no tenho certeza se  correto t-lo dentro
de casa - disse.
- O que voc est pensando que ? - perguntou Hwyl, intrigado.
- Ora, um drago, sem dvida - respondeu Bronwen.
Hwyl olhou fixamente para ela.
- Um drago! - exclamou. - Isso  tolice. - E parou de falar.
Olhou novamente para o animal e depois baixou a vista para o local onde a chama havia
queimado levemente a sua luva. - No, maldito! - exclamou. - Est certo.  um drago, acredito.
Ambos pensaram no assunto, um pouco apreensivos.
- Fico feliz por no morar na China - observou Bronwen.
Aqueles que tiveram o privilgio de ver a criatura nos dois dias seguintes praticamente
confirmaram a hiptese de que aquilo era mesmo um drago. Fizeram-no, cutucando o animal com
varetas atravs da tela de arame da jaula que Hwyl fez para ele, at obrig-lo a lanar um irritado
jato de fogo. Nem mesmo o senhor Jones, o capelo, duvidou de sua autenticidade, embora, em
funo de sua posio na comunidade, tivesse preferido no emitir julgamentos naquele momento.
No entanto, pouco tempo depois, Bronwen Hughes deu um fim  prtica de cutuc-lo.
O primeiro motivo  que se sentia responsvel por seu bem-estar, em funo do pedido de Dai.
O segundo,  que ele estava comeando a desenvolver uma irritante disposio e probabilidade de
emitir chamas sem motivo.
Quanto ao terceiro, apesar de o senhor Jones ainda no ter decidido se o drago seria ou no
uma das criaturas de Deus, ela sentiu que, nesse nterim, ele merecia os mesmos direitos dos outros
animais irracionais, de maneira que colocou na jaula um cartaz que dizia: FAVOR NO
IMPORTUNAR, e, na maior parte do tempo, ficava por l para ver se estava sendo respeitado.
Quase todos de Iiynllawn e tambm alguns de Llangolwg-coch vieram para v-lo. Por
vezes, ficavam ali durante uma hora ou mais, com a esperana de v-lo bufar. Caso isso
acontecesse, retiravam-se satisfeitos por constatar que era realmente um drago; mas, se ele
mantivesse um comportamento contido, sem lanar chamas, iam embora e diziam aos amigos que
no passava de um velho lagarto, apesar de grande.
Idris Bowen era uma exceo a ambas as categorias. S na terceira visita ele teve o
privilgio de v-lo bufar, mas, mesmo assim, ainda no estava convencido.
- Sim,  incomum - admitiu -, mas no  um drago. Vejam o drago de Gales ou o
drago de So Jorge. Lanar chamas  um fato importante, posso garantir, mas um drago tambm
precisa ter asas ou no  um drago.
Aquele era o tipo de contestao que se poderia esperar de Idris e,  claro, desconsiderar.
Entretanto, depois de mais ou menos 10 dias de tardes cheias de gente, o interesse
arrefeceu. Aps algum ter visto o drago e comentado sobre seu brilho, pouca coisa havia a
acrescentar, a no ser mostrar satisfao por ele estar na casa dos Hughes e no na sua prpria, e,
tambm, curiosidade sobre o tamanho que o drago finalmente ficaria. Na verdade, ele nada mais
fazia alm de ficar sentado e piscar, e, talvez, soltar um pequeno bafo de chamas. De maneira que,
naquele momento, o lar dos Hughes voltou novamente a ser como antes.
Alm disso, no mais perturbado por visitantes, o drago mostrou uma disposio
correspondente. Jamais bufava para Bronwen e raras vezes para Hwyl. A primeira sensao de
antagonismo passou rapidamente e Bronwen se sentia cada vez mais apegada ao drago.
Alimentava-o, cuidava dele e descobriu que, com uma alimentao consistindo basicamente de
carne de cavalo moda e biscoitos de cachorro, ele estava crescendo a uma velocidade
impressionante. Na maior parte do tempo ela permitia que ele andasse em liberdade pelo aposento.
Para acalmar os temores dos visitantes, explicava:
- Ele  amigvel e demonstra isso de muitas maneiras, se no for perturbado. Tambm
sinto pena dele, porque no  bom ser filho nico e, pior ainda, rfo. E, veja bem, ele ainda  pior
do que um rfo. Nada conhece de sua prpria espcie, nem  provvel que isso acontea. Imagino
que deve se sentir muito solitrio.
Inevitavelmente, chegou a tarde em que Hwyl, olhando pensativamente para o drago,
observou:
- Filho, para fora! Voc est ficando muito grande para essa casa, compreende?
Bronwen ficou surpresa por descobrir como se sentia pouco  vontade a respeito daquilo.
- Ele  muito bom e quieto - argumentou -, e inteligente tambm, pois tira a cauda do
caminho, evitando que as pessoas tropecem. Tambm no suja a casa nem causa problemas. Sai
sempre para o quintal nos momentos certos. Exato como um relgio.
- Est se comportando bem, no h dvida - concordou Hwyl -, mas est crescendo
muito depressa agora. Precisar de mais espao, entende? Acho que ele ficaria bem-instalado em
uma jaula bonita num lugar cercado no quintal.
A convenincia daquilo foi demonstrada uma semana depois, quando Bronwen chegou na
sala e encontrou o canto de madeira parcialmente queimado, o carpete e o tapete em lenta
combusto, sem chamas, e o drago, confortavelmente aninhado na cadeira de balano de Hwyl.
- Ele est bem-instalado e tem sorte por no ter queimado a nossa cama.
- Vamos, para fora - disse Hwyl ao drago. - Muito bonito, queimar a casa de um
homem, alm de ser mal-agradecido. Deveria se envergonhar do que fez.
O homem da companhia de seguros que veio inspecionar os danos pensou a mesma coisa.
- A senhora deveria ter-nos avisado - disse ele a Bronwen.
- Ele  um risco de incndio.
Bronwen protestou, dizendo que a aplice no fazia meno a drages.
- No, claro! - reconheceu o homem. - Mas ele tambm no  um perigo normal. Vou
consultar a matriz sobre o que fazer. No entanto, acho melhor coloc-lo para fora, antes que cause
mais problemas e d graas por no ter sido pior.
Ento, alguns dias mais tarde, o drago ocupava uma jaula ainda maior, construda com
mantas de asbesto no quintal.
Havia uma rea cercada com tela de arame em frente da jaula, mas na maior parte do tempo
Bronwen trancava o porto e deixava a porta traseira da casa aberta; assim ele podia ir e vir como
lhe aprouvesse. De manh, ele entrava e ajudava Bronwen, acendendo o fogo da cozinha, mas, fora
isso, o bicho aprendera a no bufar dentro de casa. As nicas vezes em que perturbara algum
foram as ocasies em que ateou fogo na prpria cama de palha,  noite, fazendo com que os
vizinhos se levantassem para ver se a casa estava pegando fogo. No dia seguinte, todos estavam um
pouco irritados.
Hwyl mantinha um registro cuidadoso das despesas com a sua alimentao e esperava no
estar gastando mais do que Da estivesse disposto a pagar. Quanto ao mais, as suas nicas
preocupaes eram a dificuldade de encontrar uma forragem barata, no inflamvel e a especulao
sobre quanto o drago provavelmente cresceria at a volta de Dai, para livr-lo daquela
responsabilidade.  bem possvel que tudo corresse sem problemas, at aquilo acontecer, s para
aborrecer, com Idris Bowen.
O problema que surgiu inesperadamente certa tarde foi, na verdade, causado por Idris. Hwyl
havia terminado o jantar e estava pacificamente desfrutando o final do dia ao lado da porta quando
Idris apareceu, trazendo seu cachorro em uma trela.
- Ol, Idris - saudou-o Hwyl, amigavelmente.
- Ol, Hwyl - respondeu Idris. - E ento, como est aquele seu falso drago?
- Voc est dizendo que ele  falso? - repetiu Hwyl, indignado.
- Asas, um drago precisa de asas para ser um drago - insistiu Idris com firmeza.
- Que asas, que nada, rapaz! Ento venha. Olhe para ele agora e, por favor, diga-me se no
 um drago.
Acompanhou Idris para dentro da casa, guiando-o ao longo dos cmodos at o quintal. O
drago, reclinado em sua rea cercada de tela de arame, abriu um olho para eles e fechou-o em
seguida.
Idris, que no o via desde a poca em que estava praticamente recm-sado do ovo, ficou
impressionado com o crescimento do drago.
- Est bem grande agora - reconheceu. - Bonitas e agradveis cores as dele, mas ainda
no tem asas, de modo que no  um drago.
- Ento, o que ? - reclamou Hwyl. - Diga-me.
O que Idris teria respondido a essa difcil pergunta estava destinado a jamais ser conhecido,
porque, naquele momento, o cachorro conseguiu arrancar a correia de couro das mos do dono e
avanou, latindo, at a tela de arame. O drago acordou, assustado, de sua soneca. Sentou-se
repentinamente e bufou, surpreso. Houve um ganido do co, que saltou no ar e, ento, comeou a
rodear vrias vezes o quintal, uivando. Finalmente, Idris conseguiu encurral-lo e peg-lo. O plo
de seu lado direito tinha sido queimado e estava com uma aparncia bastante peculiar. Idris baixou
as sobrancelhas.
- Voc est procurando encrenca, no ? Pois encrenca voc vai ter, por Deus! - disse.
Pousou o cachorro novamente no cho e comeou a tirar o casaco.
No ficou claro se ele estava se preparando e pretendia brigar com Hwyl ou com o drago,
mas foi impedido pela senhora Hughes, que veio investigar o motivo dos uivos.
- Ah, importunando o drago! - exclamou. - Devia se envergonhar. O drago  manso
como um cordeiro, como as pessoas bem o sabem, e no gosta de ser importunado. Voc 
malvado, Idris, e brigar tambm no est certo. Saia daqui! - Idris comeou a protestar, porm
Bronwen sacudiu a cabea e continuou. - No estou prestando ateno a voc. Um homem
educado, corajoso, importunando um drago indefeso. O drago j no bufa h semanas. Por isso,
v embora! E sem demora.
Idris lanou um olhar ameaador. Hesitou. Depois, vestiu novamente o casaco. Pegou o co,
segurando-o nos braos. Aps um ltimo olhar depreciador ao drago, ele se virou.
- Vou process-lo - avisou, ameaador, quando partiu.
No entanto, nada mais se ouviu sobre processo algum. Aparentemente, Idris mudou de idia
ou foi aconselhado a no o fazer, pois tudo iria voltar  calma. Trs semanas depois, era a noite da
reunio do sindicato.
Foi uma reunio enfadonha, dedicada principalmente  divulgao de um certo nmero de
resolues sugeridas pela matriz, referente  conduta. Ento, quase no final, quando aparentemente
nada mais havia a discutir, apareceu Idris Bowen.
- Esperem! - disse o presidente queles que se aprontavam para sair e convidou Idris a falar.
Idris esperou at que as pessoas meio dentro, meio fora de seus sobretudos se aquietassem,
e ento:
- Companheiros - comeou.
Houve um alvoroo imediato. Em meio  mistura de aprovaes e gritos de "ordem" e
"silncio", o presidente bateu energicamente seu martelo at que a ordem foi restabelecida.
- Isso  tendencioso - censurou. - Por favor, nada de meias palavras e de maneiras
imprprias.
Idris comeou de novo.
- Colegas trabalhadores, sinto muito por ter que lhes falar sobre uma de minhas
descobertas.  uma questo de deslealdade, estou dizendo: grave deslealdade para com bons amigos
e com colegas trabalhadores. Entendem? - Fez uma pausa e continuou. - Todos vocs j sabem
do drago de Hwyl Hughes, no? Provavelmente, tambm j o viram pessoalmente. Eu mesmo j o
vi e dizia que no era um drago. Mas, agora, digo-lhes, eu estava errado! Errado, com certeza!
 um drago, sem a menor dvida, embora no tenha asas.
- Li na Enciclopdia da Biblioteca Pblica Merthyr a respeito de dois tipos de drago. O
drago europeu, que tem asas, e o oriental, que no tem. De modo que peo desculpas ao senhor
Hughes e que sinto muito.
Uma certa impacincia que se tornava aparente na assistncia foi dominada por uma
alterao em seu tom de voz.
- Mas - prosseguiu -, mas tambm h outra coisa que li e que me deixou interiormente
perturbado. Eu lhes contarei. J olharam para as patas daquele drago, no olharam? Elas tm
garras, sim, e horrveis. E quantas so, pergunto a vocs? Digo-lhes que so cinco. Cinco em cada
pata. - Fez uma pausa dramtica e balanou a cabea.
- Isso  mau, com certeza. Porque, vejam bem,  um drago chins com cinco dedos nas
patas. O drago de cinco dedos no  um drago republicano, no  um drago do povo; o drago de
cinco dedos  um drago imperial, compreendem?  um smbolo da opresso dos trabalhadores e
camponeses chineses.  chocante pensar que, em nossa aldeia, estamos mantendo tal emblema. O
que as pessoas livres da China diro sobre Uynllawn quando ouvirem algo a esse respeito,
pergunto? O que Mao Tse Tung, um lder glorioso do herico povo chins em sua magnfica luta
pela paz, estar pensando de Gales do Sul e seu drago imperialista? - Ele estava pronto para
continuar, quando a divergncia de pontos de vista na assistncia superou sua voz.
O presidente chamou novamente a assistncia  ordem.
Deu a Hwyl a oportunidade de responder e, depois que a situao foi resumidamente
explicada, o drago, por eleio de mos erguidas, foi absolvido de implicaes polticas por todos,
com exceo da faco doutrinria de Idris, e com isso a reunio encerrou-se.
Ao chegar em casa, Hwyl contou a Bronwen o ocorrido.
- No me surpreende - disse ela. -Jones, dos Correios, me disse que Idris andou
enviando uns telegramas.
- Telegramas? - exclamou Hwyl.
- Isso mesmo. Perguntando ao Daily Worker, em Londres, qual a opinio do partido sobre
drages imperiais. Mas, at agora, no veio nenhuma resposta.
Alguns dias mais tarde, os Hughes foram despertados por fortes batidas na porta. Hwyl se
dirigiu para a janela e viu Idris l embaixo. Perguntou qual era o problema.
- Venha at aqui e lhe mostrarei - respondeu Idris.
Aps pensar um pouco, Hwyl desceu. Idris seguiu caminhando  frente dele at os fundos
da prpria casa e apontou.
- Veja - disse.
Apenas uma dobradia sustentava a porta do galinheiro de Idris. Os corpos de duas galinhas
se encontravam no cho ali perto. Uma grande quantidade de penas voara para fora do cercado.
Hwyl olhou o galinheiro mais de perto. Diversos sulcos brancos, profundos, sobressaam da
madeira alcatroada. Em outros lugares, manchas mais escuras onde a madeira parecia ter sido
queimada. Silenciosamente, Idris apontou para o cho.
Havia marcas de garras afiadas, mas nenhuma impresso de uma pata inteira.
- Isso  mau. Ser que so de raposas? - perguntou Hwyl.
Idris tremeu levemente.
- Raposas, diz voc? Raposas, claro! O que mais poderia ser a no ser o seu drago? E a
polcia tambm o saber.
Hwyl balanou a cabea.
- No - disse.
- Oh - respondeu Idris -, quer dizer que sou um mentiroso? Vou tirar as suas tripas,
Hwyl Hughes, e bem quentes, e ainda ficarei satisfeito por faz-lo.
- Voc fala muito, rapaz - respondeu Hwyl. - S que at agora o drago ainda est
preso em seu cercado, estou dizendo.
Venha e veja voc mesmo.
Voltaram  casa de Hwyl. O drago estava na jaula, sem a menor dvida, com a porta
travada por uma cavilha. Alm disso, como assinalou Hwyl, mesmo que ele tivesse sado durante a
noite, no poderia ter chegado ao quintal de Idris sem deixar marcas e traos pelo caminho, e no se
via nenhuma.
Finalmente, separaram-se em estado de armistcio. Idris no estava, de forma alguma,
convencido, mas no podia ignorar os fatos. Tambm no ficou impressionado com a sugesto de
Hwyl, de que um brincalho poderia ter produzido o efeito no galinheiro com um prego forte e um
maarico.
Hwyl subiu novamente, para terminar de se vestir.
- Interessante isso, sempre a mesma coisa - observou para Bronwen. - Idris no
conseguiu ver, mas a cavilha estava queimada do lado de fora da jaula. Como poderia acontecer
isso, gostaria de saber.
- O drago bufou quatro vezes durante a noite, talvez cinco - disse Bronwen.
- Tambm est rosnando e batendo naquela velha jaula. Nunca o vi assim antes.
- Ele  esquisito, mas jamais saiu de sua jaula, isso posso jurar - disse Hwyl, carrancudo.
Duas noites depois Hwyl foi despertado por Bronwen sacudindo seu ombro.
- Oua - disse ela.
- Ele est bufando desnecessariamente - acrescentou.
Ouviram o estrondo de alguma coisa lanada com fora e o som da voz de um vizinho
praguejando. Hwyl, com relutncia, decidiu que seria melhor levantar-se e investigar.
Tudo no cercado parecia normal, com exceo da presena de uma lata grande,
evidentemente o objeto lanado. Entretanto, havia um forte cheiro de queimado e uma batida surda,
reconhecvel como as passadas pesadas do drago, tentando apagar a forrao novamente envolta
em chamas. Hwyl foi at l e abriu a porta. Com um ancinho, tirou a palha fumegante, pegou um
pouco da fresca e jogou l dentro.
- Voc, fique quieto - ordenou ao drago. - Mais uma dessas e tirarei a sua pele, lenta e
dolorosamente. V para a cama e durma!
Hwyl voltou a sua cama, mas parecia ter apenas deitado a cabea no travesseiro quando o
dia raiou, e ali estava Idris, batendo novamente na porta da frente.
Idris parecia no falar coisa com coisa, mas Hwyl conseguiu entender que algo acontecera
em sua casa, de maneira que se enfiou em um casaco e calas e desceu. Idris foi andando na frente,
em direo  prpria casa, e escancarou a porta do quintal com ares de prestidigitador. Hwyl ficou
ali, olhando fixamente por alguns instantes, sem falar.
Em frente ao galinheiro de Idris, havia uma espcie de armadilha, toscamente construda
com cantoneiras de ferro e tela de arame. Dentro dela, rodeado de penas de galinha, olhando para
eles com olhos parecendo topzios vivos, sentava-se uma criatura totalmente vermelha.
- Eis um drago para voc - disse Idris. - No tem as cores de um carrossel de parque
de diverses. Aquele  um verdadeiro drago, e tambm com asas adequadas, est vendo?
Hwyl, sem uma palavra, continuou a olhar para o drago.
Naquele momento, as asas estavam recolhidas e na jaula no havia espao para a sua
abertura. O vermelho, via agora, era mais escuro no dorso e mais claro embaixo, um efeito
ominoso, como se ele estivesse sendo iluminado de baixo por um alto-forno. Parecia ser mais
experiente do que seu prprio drago e, no todo, uma aparncia mais ameaadora. Hwyl adiantou-se
para examin-lo mais de perto.
- Tome cuidado, rapaz - avisou Idris, pousando-lhe a mo no brao.
O drago encolheu os lbios e bufou. Dois jatos de fogo com quase um metro de
comprimento foram lanados de suas ventas. Era um bufo muito melhor do que o outro drago
alguma vez conseguira. O ar estava impregnado pelo odor intenso de penas queimadas.
-  um drago espetacular - disse Idris mais uma vez. - Um verdadeiro drago gals.
Est zangado, v, o que no  de admirar. Para ele,  chocante ver um drago imperialista em seu
pas. Ele veio para expulsar e tambm fazer carne moda de seu drago piegas, de sala de visitas.
-  melhor que ele no tente - disse Hwyl, mostrando mais coragem nas palavras do que
no ntimo.
- E outra coisa. Esse drago  vermelho, como deve ser um verdadeiro drago do povo,
entende?
- Entendi. Entendi. Propaganda com drages de novo, no ? H dois mil anos o drago
gals foi vermelho, e tambm um lutador, garanto. Mas um lutador pelo Pas de Gales, e no um
desses conversadores de luta pela paz. Se ele for um perfeito drago vermelho gals, ento no saiu
de algum tipo de ovo posto por seu tio Joe; e sou grato por isso, na minha opinio - disse-lhe
Hwyl. - E, mais uma coisa - acrescentou aps um momento de reflexo -,  esse que est
roubando suas galinhas, no o meu.
- Ah, ele que fique com as velhas galinhas e satisfeito - respondeu Idris. - Ele chegou
aqui para expulsar um drago imperialista estrangeiro do territrio que lhe pertence por direito, uma
atitude apropriada. Tambm no queremos nenhum dos seus drages de dupla personalidade em
Iiynllawn ou Gales do Sul.
- V para o inferno, homem - disse Hwyl. - Meu drago tem um temperamento
tranqilo, no perturba ningum nem  ladro de galinhas. Se houver algum outro problema,
chamarei a polcia para voc e seu drago por perturbarem a paz. Estou avisando. E adeus.
Olhou mais uma vez, rapidamente, para os olhos de aparncia zangada, cor de topzio, do
drago vermelho e depois se afastou, em direo a sua prpria casa.
Naquela noite, quando Hwyl se preparava para sentar  mesa e jantar, ouviu-se uma batida
na porta da frente. Bronwen foi atender e voltou.
- Ivor Thomas e Dafydd Ellis querem falar com voc.  alguma coisa do sindicato
- disse ela.
Hwyl foi falar com eles. Tiveram uma longa e envolvente conversa sobre dvidas que no
teriam sido totalmente pagas.
Hwyl tinha certeza de que nada devia, mas eles no se convenceram. A discusso continuou
durante algum tempo, at que, com balanar de cabeas e relutncia, Ivor Thomas e Dafydd Ellis
concordaram em ir embora. Hwyl voltou  copa. Bronwen esperava, em p, perto da mesa.
- Eles levaram o drago - disse, em tom de voz montono.
Hwyl olhou-a. Repentinamente, compreendeu o motivo pelo qual o haviam retido na porta
da frente com argumentos sem sentido. Foi at a janela e olhou para fora. A grade traseira havia
sido derrubada e uma multido de homens carregando a jaula do drago j estava uns 100 metros 
frente.Voltando-se, viu Bronwen resolutamente encostada na porta dos fundos.
- Estavam nos roubando e voc no gritou - falou ele acusadoramente.
- Eles o teriam nocauteado e levariam o drago de qualquer jeito - explicou ela.
-   coisa de Idris Bowen e sua turma.
- O que faro com ele? - perguntou.
- Uma luta de drages - respondeu. - Estavam fazendo apostas. Cinco contra um no
drago gals e pareciam muito confiantes.
Hwyl balanou a cabea.
- Nem  de admirar. No  justo. Aquele drago gals tem asas, de forma que pode fazer
ataques areos. Isso no  esportivo,  vergonhoso.
Pela janela, olhou mais uma vez para fora. Mais homens juntavam-se ao grupo que
carregava a carga pelo terreno de sucata, em direo ao monte de lixo. Ele suspirou.
- Sinto muito por nosso drago. Acho que ser trucidado.
Mas vou l ver. Para evitar que os truques de Idris tornem a luta suja, ou melhor, mais suja
ainda.
Bronwen hesitou.
- Voc no vai brigar. Promete? - perguntou ela.
- No sou tolo, garota, de brigar com 50 homens ou mais. Por favor, reconhea que tenho miolos.
Ela lhe deixou o caminho livre, permitindo que abrisse a porta. Ento, pegou um leno de
cabea e foi atrs dele, amarrando-o, enquanto andava.
A multido reunida em um pedao de terreno plano perto da base da pilha de sucata j
consistia em mais de 100 homens, e outros mais corriam para se juntar. Diversos autodenominados
organizadores mantinham as pessoas afastadas, para deixar um espao oval livre. Em uma das
extremidades estava a jaula onde o drago vermelho se agachava, apertado, com uma aparncia
mal-encarada. Na outra, foi pousada a jaula de asbesto, e seus carregadores se afastaram. Idris notou
a chegada de Hwyl e Bronwen.
- Quanto vo apostar no seu drago? - perguntou, com um sorriso sarcstico.
Bronwen disse, antes que Hwyl pudesse responder:
- Isso  perverso e voc deveria ter vergonha, Idris Bowen.
Prenda as asas de seu drago para que essa seja uma luta justa e ento veremos.
- E arrastou Hwyl dali.
As apostas na rea oval continuaram, sempre favorecendo o drago gals. Naquele
momento, Idris entrou na rea aberta e ergueu as mos, pedindo silncio.
- Esta noite haver esporte para vocs. Atraes supercolossais, como dizem nos filmes, e
provavelmente, nunca mais.
Ento faam as suas apostas agora. Quando as autoridades inglesas ouvirem falar a respeito,
no haver mais lutas de drages, da mesma forma que no h mais brigas de galo.
O espao encheu-se com o som das vaias, junto com o das risadas daqueles que sabiam uma
ou duas coisas desconhecidas pelas autoridades inglesas. Idris continuou:
- Agora, ao campeonato de drages. Ao alcance de minha viso, o drago vermelho de
Gales, em sua terra natal. Um drago do povo. Mais do que uma coincidncia, a cor do drago
gals... - O som de sua voz perdeu-se por alguns momentos em meio a gritos antagnicos. Idris
continuou: - A esquerda, o decadente drago dos exploradores imperialistas do sofredor povo
chins que, em sua gloriosa luta pela paz sob a herica liderana...
O restante da fala tambm foi abafado pelas vaias e aplausos que s pararam quando ele
chamou os atendentes das extremidades da rea oval e se retirou.
Em uma das extremidades, dois homens segurando uma vara com um gancho puxaram o
dispositivo que prendia o drago vermelho e recuaram rapidamente. Na ponta mais distante, um
homem retirou a cavilha da porta de asbesto, abriu-a, afastou-se, da mesma forma que os outros, da
rea de perigo.
O drago vermelho olhou em volta, indeciso. Tentou abrir as asas. Notando que seria
possvel, empinou-se nas patas traseiras, apoiando-se na cauda, e sacudiu-as com energia, como que
esticando as dobras.
O outro drago saiu a passos lentos da jaula, avanou um pouco e ficou ali, piscando.
Contra o fundo do terreno de sucata e do monte de lixo, parecia mais extico do que o normal.
Abriu-se num amplo bocejo, com uma espetacular exibio de caninos, revirou os olhos para l e
para c, e depois bateu os olhos no drago vermelho.
Simultaneamente, o drago vermelho notou o outro. Parou de bater as asas e pousou nas
quatro patas. Os dois ficaram olhando um para o outro. Um silncio envolvia a multido. Ambos os
drages continuaram imveis,  exceo de um suave movimento dos ltimos centmetros de cauda.
O drago oriental virou a cabea um pouco de lado. Bufou levemente, murchando algumas ervas. O
drago vermelho ficou rgido. Repentinamente, assumiu uma posio defensiva, uma das patas
dianteiras erguidas, as garras estendidas, asas abertas. Bufou vigorosamente, vaporizou uma poa
d'gua e desapareceu momentaneamente em uma nuvem de vapor. Da multido veio um murmrio
esperanoso.
O drago vermelho comeou a andar devagar, circulando ao redor do outro e, de vez em
quando, batendo levemente as asas.
A multido observava atentamente. O mesmo fazia o outro drago. Ele no se movia de sua
posio, mas virava-se,  proporo que o drago vermelho circulava, mantendo a cabea e o olhar
fixo naquela direo.
Com o crculo quase completo, o drago vermelho parou.
Abriu amplamente as asas e soltou um urro do fundo da garganta. Ao mesmo tempo, lanou
dois jatos de fogo e arrotou uma pequena nuvem de fumaa negra. A parte da multido mais
prxima dele recuou, apreensiva.
Neste momento de tenso, Bronwen comeou repentinamente a rir. Hwyl sacudiu-a pelo
brao.
- Fique quieta! Isso no tem nada de engraado - censurou, mas ela no parou de imediato.
Durante um momento, o drago oriental nada fez. Parecia estar meditando sobre o assunto.
Ento, virou-se rapidamente e comeou a correr. Da multido, atrs dele, partiram gritos de
zombaria, os que estavam na frente balanavam os braos para espant-lo de volta. Ele seguiu em
frente, de vez em quando soltando curtos jatos de chamas pelas ventas. As pessoas hesitavam, mas
depois abriam caminho. Alguns saram em sua perseguio com varas, mas logo desistiram. A
velocidade dele era o dobro da velocidade dos homens.
Com um urro, o drago vermelho alou vo e cruzou o campo, cuspindo fogo como um
avio bombardeiro. A multido dispersou-se mais uma vez, rapidamente, tropeando ao abrir
caminho.
O drago que saiu correndo desapareceu pelo outro lado da base do monte de lixo, com o
outro drago planando logo acima. Gritos de desapontamento brotaram da multido e uma boa parte
da mesma o seguiu para assistir a sua morte.
Aps um ou dois minutos o drago fugitivo reapareceu.
Andava compassadamente, subindo a encosta da montanha, com o drago vermelho ainda
voando um pouco atrs. Todos continuaram a observar, enquanto ele abria caminho, subindo cada
vez mais, at que, finalmente, desapareceu por cima do pico. Durante um instante, o drago voador
ainda parecia uma silhueta negra acima da linha do horizonte; ento, com uma ltima baforada de
chamas, tambm desapareceu, iniciando-se  as discusses sobre os pagamentos.
Idris afastou-se das disputas, indo em direo aos Hughes.
- Quer dizer que seu drago imperialista  um covarde.
Nenhum bufo significativo, nenhuma mordida - disse ele.
Bronwen olhou para ele e sorriu.
- Voc  to tolo, Idris Bowen, com sua cabea cheia de propaganda e lutas. Existem
outras coisas alm de lutar, at mesmo para drages. O seu drago estava fazendo uma exibio to
magnfica, to bonita, oh, sim, como um pavo, imagino.
Bastante semelhante  dos rapazes em suas roupas domingueiras, na principal avenida de
Llangolwgcoch, todos prontos para matar, mas ningum disposto a lutar. - Idris olhou fixamente
para ela. - E quanto a nosso drago - continuou - bem, aquele tambm no  um truque novo.
Eu mesma j fiz um pouco daquilo. Lanou um olhar de esguelha para Hwyl.
Idris comeou a entender.
- Mas, mas, voc sempre estava chamando o drago de ele - protestou.
- Ah, sim,  verdade! Porm, como se pode saber, em se tratando de drages?
- perguntou ela.
Ela se virou, olhando para a montanha.
- Provavelmente, o drago vermelho se sentiu muito solitrio nestes dois mil anos; ento,
agora, ele no est se importando com a sua poltica. Tem outras coisas em que pensar, entende? E
imagino que ser interessante, sem dvida, ter, em pouco tempo, um monte de bebs drages no
Pas de Gales.

                                 *  *

JOHN WYNDHAM aprendeu tudo sobre drages com seus pais galeses.Muitas de suas
histrias revelam seu interesse pelo folclore e pelas tradies daquele pas. No
entanto, seus primeiros contos eram principalmente histrias de fico cientfica sobre
planetas distantes, como Marte e Vnus, escritos para revistas americanas. Em 1951,
ele publicou um romance aterrorizante sobre uma invaso aliengena na Terra,
The Day of the Triffids, que se tornou um bestseller e mais tarde foi transformado em
filme. Outros romances inovadores contriburam para garantir a sua fama. Na dcada
de 1960, John Wyndham foi um dos autores mais lidos e, durante anos, seus livros
famosos apareciam constantemente em planos de aulas das escolas.

                                  * *

O DESEJO
Roald Dahl

                                   * *

A transfigurao  outro dos grandes truques dos magos. Empregando a magia, eles conseguem
alterar completamente a estrutura e aparncia de alguma coisa. Um sapo pode se tornar um
homem, uma pedra pode se transformar em um pssaro, uma barra de ferro pode virar uma cobra.
Os magos tambm tm o poder de alterar padres e imagens em quadros vivos. Um famoso
exemplo dessa habilidade para metamorfosear coisas pelo poder da vontade pode ser visto no livro
A espada e a pedra, de T. H. White, em que Merlin transforma seu jovem discpulo, Arthur, em
diversos animais. Na histria anterior, lemos tudo sobre drages, e nesta que se segue  a vez das
serpentes - serpentes transfiguradas trazidas  vida pelo poder da mente. O menino da histria 
fascinado por serpentes de todas as formas, tamanhos e cores, que finalmente o conduzem a um
jogo perigoso. Ele no tem nome, poderia ser James ou Charlie, ou at mesmo Harry, mas, como
para qualquer menino (e muitas meninas quanto a esse assunto), a magia lhe desperta a
curiosidade. As coisas secretas sugeridas pelos objetos do cotidiano e tambm quadrados msticos
e buracos profundos, negros poderiam ser portais de entrada para mundos estranhos. Ento passe
cuidadosamente com ele pelas prximas poucas pginas e certifique-se de no sofrer o mesmo
destino.

                                 *  *

Sob a palma de uma das mos, o menino se conscientizou da crosta de um velho corte no joelho.
Curvou-se para a frente a fim de examin-la de perto. Uma crosta sempre foi uma coisa fascinante,
significava um desafio especial ao qual ele jamais conseguia resistir.
Sim, pensou, vou tir-la, mesmo que no esteja preparada, mesmo que o meio ainda esteja
preso, mesmo que doa como no sei o qu.
Com a unha, ele comeou a explorar cuidadosamente ao redor das bordas da crosta. Enfiou
a unha por baixo dela e, quando a ergueu um pouco, ela repentinamente se soltou, toda a crosta
marrom, endurecida, soltou-se maravilhosamente, aparecendo um crculo interessante, pequeno, de
suave pele vermelha.
Lindo! Muito lindo, sem dvida. Esfregou o crculo e no sentiu dor. Pegou a crosta,
pousou-a sobre a coxa e deu-lhe um peteleco, fazendo-a voar e aterrissar na beira do tapete, o
enorme tapete vermelho, preto e amarelo que se estendia por todo o comprimento do saguo, desde
as escadas onde ele estava sentado at a distante porta de entrada. Um tapete gigantesco.
Maior do que uma quadra de tnis. Muito maior. Tinha-lhe grande considerao, pousando
os olhos sobre ele com um terno prazer. Nunca o havia realmente observado antes, mas agora, de
repente, as cores pareciam se tornar misteriosamente mais vivas e saltar na direo dele de modo
fascinante.
Entendo, disse a si mesmo, eu sei como . As partes vermelhas so amontoados
incandescentes de carvo. O que preciso fazer  o seguinte: tenho de andar ao longo de todo o seu
comprimento at a porta da frente sem as tocar. Se toc-las serei queimado. Na verdade, serei
totalmente queimado. E as partes pretas do tapete...
Sim, as partes pretas so serpentes, serpentes venenosas, vboras, em sua maioria, e cobras,
grossas como troncos de rvores, redondas no meio, e se eu tocar alguma delas, serei mordido e
morrerei antes da hora do ch. Se eu conseguir passar em segurana, sem ser queimado ou mordido,
ganharei um cachorrinho amanh, como presente de aniversrio.
Ele ficou de p e subiu mais alto nas escadas, para obter melhor viso daquele vasto tapete
de cores e morte. Seria possvel? Havia amarelo suficiente? Amarelo era a nica cor sobre a qual se
tinha permisso para andar. Seria possvel? Aquela no era uma jornada para ser empreendida
levianamente, pois os riscos eram muito grandes. O rosto do menino - com uma franja de cabelo
dourado quase branco, dois grandes olhos azuis, um queixo pequeno, pontudo - estava pousado no
corrimo, de onde ele observava atentamente. O amarelo era um pouco fino na maioria das partes e
havia um ou dois espaos amplos, mas parecia percorrer todo o comprimento at a outra
extremidade.
Para algum que ontem cruzara triunfalmente todo o caminho de tijolos, desde os estbulos
at o quiosque, sem tocar as fendas, o problema do tapete no deveria ser muito difcil. Com
exceo das serpentes. O simples pensamento sobre as serpentes enviou uma leve corrente eltrica
de medo, como alfinetes, ao longo de suas panturrilhas e sob as solas dos ps.
Desceu lentamente as escadas e avanou at a borda do tapete. Estendeu um p calado com
pequenas sandlias, pousando-o cuidadosamente sobre uma parte amarela. Ento, ergueu o outro p.
O espao ali era apenas o suficiente para que ele ficasse em p com os dois ps juntos. Isso! Havia
comeado!
Seu amplo rosto oval, talvez um pouco mais branco do que antes, mostrava curiosa
inteno, com os braos lateralmente estendidos para ajudar no equilbrio. Deu mais um passo,
erguendo o p bem alto sobre uma mancha preta, mirando cuidadosamente com o dedo grande do
p, um estreito canal amarelo do outro lado. Quando completou o segundo passo, fez uma pausa
para descansar, ficando em p, quieto e rgido. O estreito canal amarelo corria continuamente por
pelo menos cinco metros, e o menino avanou com vivacidade ao longo do mesmo, passo a passo,
como se estivesse andando sobre um cabo esticado. Onde o tapete, finalmente, se torceu
lateralmente, ele precisou dar outro passo largo, desta vez sobre uma mistura de estilo imperfeito de
preto e vermelho. A meio caminho, comeou a vacilar.
Sacudiu os braos com selvageria, como um moinho, para manter o equilbrio, conseguindo
passar com segurana at o outro lado, onde descansou outra vez. Agora, respirava com bastante
dificuldade e to tenso, que ficou o tempo todo nas pontas dos ps, braos estendidos, punhos
cerrados. Estava em uma grande e segura ilha de amarelo. Havia muito espao nela. No havia
possibilidade de cair, de modo que permaneceu ali descansando, hesitando, esperando, desejando
poder ficar eternamente ali, naquela grande e segura ilha amarela. Contudo, o medo de no ganhar o
cachorrinho incentivou-o a continuar.
Passo a passo, seguiu em frente, entre cada passo fazia uma pausa para decidir exatamente
onde pousaria o p da prxima vez. Em uma das vezes, ele pde escolher os caminhos, pela
esquerda ou pela direita; ento, escolheu a esquerda porque, embora parecesse mais difcil, naquela
direo no havia muitas manchas pretas. O preto era o que mais o deixava nervoso.
Olhou rapidamente por sobre o ombro para ver o quanto j havia percorrido. Mais ou menos
metade do caminho, constatou. Agora, no havia mais volta. Estava no meio, no podia voltar nem
pular para o lado, porque a distncia era muito grande e porque, quando olhou para todo aquele
vermelho e todo aquele preto que ainda havia pela frente, sentiu o conhecido e repentino surto
doentio de pnico no peito, como na Pscoa passada, naquela tarde em que se perdera, sozinho, na
regio mais escura da Floresta Piper.
Deu mais um passo, colocando o p cuidadosamente sobre o nico pequeno pedao de
amarelo ao alcance. Dessa vez, a ponta do dedo do p chegou a mais ou menos um centmetro de
uma rea preta. No estava tocando o preto, conseguia ver que no estava tocando, podia ver a
estreita linha de amarelo entre a ponta da sandlia e o preto, mas a serpente se agitou, como se
estivesse sentindo a proximidade dele, erguendo a cabea e olhando fixamente para aquele p com
olhos grandes e redondos, atenta para ver se ele a iria tocar.
- No estou tocando voc! No deve me picar! Sabe que no a estou tocando!
Outra serpente deslizou sem rudo at ficar ao lado da primeira, ergueu a cabea, duas
cabeas agora, dois pares de olhos fixos em seu p, olhando para uma pequena rea descoberta,
logo abaixo da correia da sandlia, por onde a pele aparecia. A criana elevou-se nas pontas dos ps
e ficou ali, paralisada de terror. Vrios minutos se passaram antes que tivesse coragem para se
mover novamente.
O passo seguinte teria de ser realmente grande. Havia um rio profundo, coleante, de preto que
corria bem delineado pela largura do tapete, e por causa dessa posio ele era obrigado a cruz-lo
na parte mais larga. Primeiro, pensou em pul-lo, mas decidiu que no tinha certeza de pousar
com preciso na estreita faixa de amarelo do outro lado. Respirou fundo, ergueu um dos ps e,
centmetro a centmetro, esticou a perna para a frente, bem, bem longe e, depois, para baixo e para
baixo, at que, finalmente, a ponta da sandlia havia passado para o outro lado e pousava com
segurana na beira do amarelo. Ele se curvou para a frente, transferindo o peso para o p dianteiro e
tentou trazer o p que ainda estava atrs. Retesou, puxou e sacudiu o corpo, mas as pernas estavam
demasiadamente afastadas e ele no conseguiu. Tentou voltar, mas tambm no foi capaz. Com as
pernas abertas em direes opostas, ele estava definitivamente impedido de prosseguir. Olhou para
baixo e viu l embaixo aquele profundo e coleante rio de preto. Partes dele comearam a se agitar, a
se desenrolar, a deslizar e a luzir com um brilho oleoso e ameaador. Ele oscilou, sacudiu
freneticamente os braos para manter o equilbrio, mas aquilo parecia piorar ainda mais a situao.
Comeava a cair. A cair para a direita, lentamente em princpio, depois mais rpido, mais rpido e,
no ltimo instante, instintivamente, estendeu uma das mos para interromper a queda, mas o que viu
a seguir foi sua mo nua entrar bem no meio da grande e brilhante massa de preto, soltando um
penetrante grito de terror quando a tocou.
L fora, sob a luz do sol, bem distante da casa, a me procurava o filho.

                                 *  *

ROALD DAHL  um dos autores com maior ndice de vendas de histrias infantis do
mundo. Entretanto, como ele mesmo admitiu, no gostava muito da escola, era um
pouco inconveniente e os professores no gostavam dele, por ser to imprevisvel.
"No tenho dvidas", escreveu um dos seus professores de ingls, "de que jamais
conheci outra pessoa que com tanta persistncia escreve palavras com significado
exatamente oposto ao pretendido." Durante a Segunda Guerra Mundial, Dahl foi piloto
da RAF (Fora Area britnica) e sofreu uma queda terrvel que lhe causou uma fratura
do crnio. Mas, como ele disse posteriormente: "Enormes choques na cabea
costumam dar um pouco de magia." E usou a sua vivida imaginao para escrever
livros na rea da fantasia para leitores mais jovens. O sucesso desses livros resultou
na fundao da Roald Dahl Children's Gallery (Galeria Infantil Roald Dahl), em
Aylesbury, no muito distante de onde ele morava. Os visitantes podem achar tudo de
que precisam sobre magos na biblioteca Matilda, bem como divertimentos e surpresas
inesperadas. As iluses na galeria so to boas quanto as descritas nesta histria, mas
quem quer que v l deve sempre se lembrar do aviso de Roald Dahl; "Quem no
acredita em magia jamais a encontrar."

                                  * *

O MENINO INVISVEL
Ray Bradbury

                                   *

Quem no gostaria de ter o poder da invisibilidade? Os magos alegam ter descoberto o segredo
h muitos sculos. Charlie, o heri da prxima histria, quer o poder de conseguir andar por
qualquer lugar sem ser visto.  uma criana superdotada, cujos pais a abandonaram, de modo que
fugiu para morar com a tia que vive em uma velha e isolada choupana. Acontece que ela  uma
bruxa e sabe muitas coisas sobre magia. Ela emprega todo tipo de ingredientes estranhos em seus
encantamentos, como sapos mumificados e morcegos esfolados. Tambm gosta muito de Charlie e
quer lhe ensinar os segredos de sua arte: como fazer com que os animais parem nas trilhas, como
desencantar um bode e at mesmo como se tornar  prova de balas. O problema  que a magia da
velha senhora nem sempre funciona...

                                 *  *

Ela pegou a grande concha de ferro e o sapo mumificado, esmagou-o at transform-lo em p.
Conversou com o p, enquanto o moia rapidamente com o punho duro como pedra.
Seus grandes e redondos olhos cinza moviam-se rapidamente na choupana. Cada vez que
olhava, uma cabea na pequena janela se encolhia, como se ela tivesse disparado uma arma.
- Charlie - gritou a Velha Senhora. - Saia da! Estou preparando um feitio de lagarto
para destravar aquela porta enferrujada! Saia da porque no farei a terra tremer, as rvores pegarem
fogo ou o sol se pr ao meio-dia!
O nico som era o da morna luz da montanha nas altas rvores de terebintina, um esquilo
com penacho chilreando por todos os cantos em um tronco cado e forrado de verde, as formigas se
movendo em uma linha marrom, perfeita, aos ps descalos, cobertos por veias azuis, da Velha
Senhora.
- Voc est passando fome a dentro h dois dias, maldio! - falou, com voz ofegante,
batendo com a concha contra uma pedra achatada, fazendo com que a ampla sacola cinza de feitios
balanasse em sua cintura.
- Saia da agora! - Ela jogou uma pitada de p dentro da fechadura. - Tudo bem, vou
pegar voc! - falou, respirando com dificuldade. Girou a maaneta com a mo cor de noz,
primeiro para um lado e depois para outro. - Oh, Senhor - entoou -        abra totalmente esta porta!
Como nada acontecesse, acrescentou outra poro e prendeu a respirao. A saia longa,
azul, desmazelada, farfalhou quando ela examinou dentro de sua sacola de escurido, procurando
algum monstro com escamas, algum amuleto melhor do que o sapo que matara h meses para uma
ocasio de crise como aquela.
Ouviu a respirao de Charlie contra a porta. No incio da semana, os pais dele tinham ido
se divertir em alguma cidade de Ozark e no o levaram, de modo que ele percorreu quase dez
quilmetros at a Velha Senhora em busca de companhia. Ele no se importava com os modos
daquela que era uma espcie de tia ou prima.
Ento, h dois dias, a Velha Senhora, tendo se habituado  presena do garoto, resolveu
mant-lo como companhia conveniente. Espetou sua fina omoplata, retirou trs gotas de sangue,
lanou-as sobre o ombro direito, subiu em um banquinho baixo, e, no mesmo instante, fechou o
punho esquerdo, virando em direo a Charlie e gritando:
- Meu filho, voc  meu filho, por toda a eternidade!
Charlie, saltando como uma lebre assustada, enfiou-se nos arbustos, em direo a sua
prpria casa.
Mas a Velha Senhora, deslizando como um lagarto listrado, encurralou-o em um beco sem
sada e Charlie se entocou naquela velha cabana de ermito, de onde no queria sair, apesar de ela
ter rogado pragas contra a porta, janela ou ns de madeira, com o punho fechado pintado de mbar
ou dominado seus fogos rituais, explicando-lhe que, com certeza, agora ele era seu filho, sem
dvida.
- Charlie, voc est a? - perguntou, abrindo furos nas tbuas da porta com seus olhos
pequenos, brilhantes e enganosos.
- Estou aqui - respondeu ele finalmente, muito cansado.
Talvez ele casse dali de dentro a qualquer momento. Ela lutou mais uma vez com a
fechadura, esperanosa. Possivelmente, uma quantidade um pouco excessiva de p de sapo travara a
fechadura. Ela sempre pecava por falta ou por excesso em seus milagres, refletiu, irritada, jamais os
fazia com exatido.
Com todos os demnios!
- Charlie, eu s quero algum com quem conversar  noite, algum com quem aquecer as
mos na lareira. Algum que apanhe gravetos para mim pela manh e que apague as fagulhas que
saltam das primeiras ervas queimadas! No estou usando de nenhuma artimanha com voc, filho, s
desejo a sua companhia. - Estalou os lbios. - Vou lhe dizer uma coisa, Charles, saia da e lhe
ensinarei umas coisas!
- Que coisas? - perguntou ele, com desconfiana.
- Como comprar barato e vender caro. Pegue uma doninha, corte a cabea dela e carregue-a
no bolso traseiro. Pronto!
- Horrvel - disse Charlie.
Ela se apressou.
- Vou lhe ensinar como se tornar  prova de balas, assim, se algum atirar em voc, nada
lhe acontecer. - Como Charlie se mantivesse em silncio, ela lhe transmitiu o segredo em um
sussurro alvoroado. - Cave e costure uma orelha de rato na sexta-feira, durante a lua cheia, e
use-a em torno do pescoo em um pedao de seda branca.
- Voc est maluca - respondeu Charlie.
- Ensino como fazer parar de sangrar, com que os animais no se mexam, ou cavalos
cegos voltem a ver, todas essas coisas eu lhe ensinarei! Ensinarei como curar uma vaca inchada e
desencantar um bode. Mostrarei como se tornar invisvel!
- Oh! - respondeu Charlie.
O corao da Velha Senhora batia como um pandeiro do Exrcito da Salvao. A maaneta
girou do outro lado.
- Voc - disse Charlie - est zombando de mim.
- No, no estou - exclamou a Velha Senhora. - Oh, Charlie, ora, farei com que voc
seja como uma janela, que se possa ver atravs de voc. Nossa, criana, voc ficar surpreso!
- Invisvel de verdade?
- Invisvel de verdade!
- E no vai tentar me agarrar se eu sair?
- No tocarei um fio de seus cabelos, filho.
- Bem - falou ele, com relutncia, arrastando as palavras -, est certo.
A porta se abriu. Charlie ficou ali, descalo, cabea baixa, queixo contra o peito.
- Torne-me invisvel - disse.
- Primeiro, temos de pegar um morcego - respondeu a Velha Senhora. - Comece a
procurar!
Ela lhe deu um pedao de carne-seca para matar a fome e o ficou observando, enquanto ele
subia em uma rvore. Subia cada vez mais alto e era bom t-lo ali, depois de todos aqueles anos
sozinha, sem ningum para dizer bom-dia, a no ser excrementos de passarinho e trilhas prateadas
de lesmas.
Em poucos instantes, um morcego com a asa quebrada descia flutuando, vindo da rvore. A
Velha Senhora o agarrou, debatendo-se excitado e guinchando, entre seus dentes brancos como
porcelana, e Charlie desceu atrs dele, agarrando-se firmemente com as mos, berrando.
Naquela noite, com a lua beliscando os pontos mais elevados dos pinheiros, a Velha
Senhora retirou uma longa agulha de prata de debaixo da sua ampla roupa azul. Ruminando sua
excitao e secreta antecipao, ela observou o morcego morto e segurou a fria agulha com toda a
firmeza.
H muito tempo, ela compreendera que seus milagres, apesar de todas as transpiraes, sais
e enxofres, estavam falhando.
Mas sempre sonhou que algum dia os milagres comeariam a funcionar, desabrochariam
em flores carmesins e estrelas prateadas, para provar que Deus a perdoara por seu corpo rosado e
pensamentos rosados e seu corpo quente e seus pensamentos quentes de jovem senhorita. Contudo,
at aquele momento Deus ainda no se havia manifestado e no lhe dissera uma s palavra, mas
ningum sabia disso, exceto a Velha Senhora.
- Pronto? - ela perguntou a Charlie, agachado, joelhos cruzados, pernas envolvidas pelos
longos braos cheios de espinhas, boca aberta, dentes  mostra.
- Pronto - sussurrou, tremendo.
- Pronto! - ela enfiou a agulha profundamente no olho direito do morcego. - Assim!
- Oh! - gritou Charlie, escondendo o rosto.
- Agora, embrulho o feitio em tecido de algodo e aqui est, ponha-o no bolso, guarde-o
l, morcego e tudo. Vamos!
Ele guardou o feitio no bolso.
- Charlie! - ela gritou medrosamente. - Charlie, onde voc est? No consigo v-lo, criana!
- Aqui! - Ele pulou, de modo que a luz percorreu seu corpo em faixas vermelhas.
- Estou aqui, Velha Senhora! - Ele olhava freneticamente para os braos, as pernas, o tronco e os
dedos dos ps. - Estou aqui!
Os olhos dela pareciam estar vendo milhares de vagalumes cruzando uns com os outros no
agitado ar noturno.
- Charlie, oh, voc foi depressa! To rpido quanto um beija-flor! Oh, Charlie, volte para mim!
- Mas eu estou aqui! - reclamou ele.
- Onde?
- Perto da lareira, da lareira! E eu consigo me ver, no estou invisvel, de forma alguma!
A Velha Senhora se agitou em seus quadris curvados.
- Claro que voc consegue se ver! Todas as pessoas invisveis se vem. Caso contrrio,
como poderiam comer, andar ou ir a lugares? Charlie, toque-me. Toque-me, assim sentirei voc.
Meio receoso, ele estendeu uma das mos.
Ela fingiu estremecer, alarmada, ao toque.
- Ah!
- Quer dizer que no consegue me encontrar? De verdade? - perguntou ele.
- Nem o menor pedacinho de voc!
Ela encontrou uma rvore na qual fixou o olhar. Olhou para l com olhos brilhantes,
cuidando para no se virar na direo dele.
- Puxa, consegui mesmo fazer uma magia dessa vez - Suspirou com admirao. - Iuhu!
A invisibilidade mais rpida que j fiz! Charlie, Charlie, como se sente?
- Como gua de riacho. Todo agitado.
- Isso passar.
Ento, depois de uma pausa, acrescentou: - Bem, e o que voc vai fazer agora, Charlie,
uma vez que est invisvel?
Todos os tipos de coisas dispararam pela cabea dele, ela podia imaginar. Aventureiros
levantaram-se e danaram como fogo do inferno em seus olhos e a boca, cada, falou o que
significava ser um menino que se imaginava como os ventos das montanhas.
- Vou passar correndo pelos campos de trigo, subir em montanhas de neve, roubar
galinhas brancas das fazendas. Vou chutar porcos rosados, quando no estiverem olhando.
Beliscarei as pernas de meninas bonitas, quando elas estiverem dormindo, vou esticar as suas ligas
nas salas de aula.
Charlie olhou para a Velha Senhora, e pelos brilhantes cantos dos olhos ela viu algo de
perverso naquele rosto.
- E farei outras coisas, farei sim, farei - disse ele.
- No tente nada comigo - avisou a Velha Senhora. - Sou delicada como gelo de
primavera e no suporto toques. Outra coisa: e quanto a seus pais?
- Meus pais?
- No pode voltar para casa desse jeito. Vai deix-los aterrorizados. Sua me vai desmaiar
como uma rvore abatida.
Acha que eles o querem em casa para tropear em voc e sua  me ter de cham-lo de trs
em trs minutos, mesmo que voc esteja no mesmo aposento, perto do cotovelo dela?
Charlie no havia pensado naquilo. Ele como que se acalmou, sussurrou um "Puxa vida!" e
apalpou cuidadosamente seus longos ossos.
- Voc se sentir profundamente solitrio. Pessoas olhando atravs de voc do mesmo
jeito que atravs de um copo de gua, pessoas empurrando-o para o lado, porque no conseguem
imaginar que voc est no caminho. E mulheres, Charlie, mulheres...
Ele engoliu em seco.
- O que tem as mulheres?
- Nenhuma mulher olhar para voc uma segunda vez. E nenhuma mulher quer ser beijada
pela boca de um rapaz que nem mesmo consegue sentiu.
Charlie enterrou pensativamente o dedo do p descalo na terra. Fez beio.
- Bem, continuarei invisvel de qualquer maneira, por causa de um feitio. Vou me
divertir um pouco. S preciso ter muito cuidado,  tudo. Evitarei ficar em frente de carroas, de
cavalos e de meu pai. Papai atira ao menor rudo. - Charlie piscou. - Puxa, comigo invisvel,
algum dia ele poder me encher de chumbo grosso, pensando que sou um esquilo no ptio perto da
porta de entrada. Oh...
A Velha Senhora concordou com um movimento de cabea para a rvore.
-  provvel.
- Bem - decidiu ele lentamente - continuarei invisvel por esta noite e amanh voc
poder fazer com que eu volte ao normal de novo, Velha Senhora.
- Esse parece ser o eterno insatisfeito, sempre querendo ser o que no pode ser
- comentou a Velha Senhora com uma abelha em um cepo.
- O que quer dizer com isso? - perguntou Charlie.
- Ora - explicou - foi um trabalho realmente de difcil preparao. Vai levar um pouco
de tempo para desbotar. Como uma camada de tinta desbota, garoto.
- Voc! - gritou ele. - Voc fez isso! Agora me traga de volta, torne-me visvel!
- Fique quieto - ordenou ela. - Isso vai sumir, uma das mos ou um p de cada vez.
- Como ser quando eu andar pelas colinas com apenas uma das mos aparecendo?
- Como um passarinho com cinco asas pulando nas pedras e arbustos.
- Ou um p aparecendo!
- Como um pequeno coelho cor-de-rosa pulando no mato.
- Ou minha cabea flutuando!
- Como um balo cabeludo no carnaval!
- Quanto tempo at eu voltar todo - perguntou ele.
Ela considerou que poderia muito bem demorar um ano inteiro.
Ele suspirou. Comeou a soluar e morder os lbios e cerrar os punhos.
- Voc me enfeitiou, voc fez isso, voc fez essa coisa comigo. Agora, no poderei ir
para minha casa!
Ela fechou e abriu rapidamente os olhos.
- Mas voc pode ficar aqui, criana, ficar comigo de verdade, com todo o conforto, e eu o
manterei bem-alimentado e saudvel.
- Voc fez isso de propsito - respondeu rispidamente -, sua bruxa velha! Voc quer 
me prender aqui! - E saiu em disparada pelos arbustos.
- Charlie, volte!
Nenhuma resposta se ouviu, a no ser o rudo de seus passos na relva escura e macia e seu
choro sufocante que rapidamente se desvaneceu.
Ela esperou e depois acendeu uma pequena fogueira.
- Ele voltar - sussurrou. E pensando consigo mesma, disse: - Agora, terei companhia
por toda a primavera e at o final do vero. Ento, quando me cansar dele e quiser silncio,
mando-o de volta para casa.
Charlie voltou silenciosamente ao cinzento raiar do dia, deslizando por cima da orla relvada
at onde a Velha Senhora se encontrava esparramada como uma vareta descorada diante de cinzas
dispersas.
Sentou-se sobre uma das pedras do riacho e ficou olhando para ela.
Ela no se atreveu a olhar naquela direo ou mais alm. Ele no fizera qualquer barulho.
Ento, como ela poderia saber que ele estava por ali? De forma alguma.
Ele ficou ali sentado, com as marcas das lgrimas no rosto.
Fingindo estar acordando, embora no tivesse pregado olho durante a noite toda, a Velha
Senhora se levantou, resmungando e bocejando, fez um giro completo, observando o cenrio da
manh.
- Charlie? - Seus olhos passaram dos pinheiros ao cho, ao cu, s colinas distantes.
Pronunciou inmeras vezes o nome dele e sentiu como se o seu olhar estivesse exatamente sobre
ele, mas parou. - Charlie? Oh, Charlie! - gritou e ouviu os ecos repetindo exatamente a mesma
coisa.
Sentado, ele comeou a sorrir ironicamente, repentinamente se conscientizando de que,
apesar de sua presena ali perto, ela se sentia sozinha. Talvez ele estivesse sentindo o desabrochar
de um poder secreto, talvez se sentisse seguro do mundo, com certeza estava satisfeito com a sua
invisibilidade.
Ela exclamou em voz alta:
- Onde aquele garoto pode estar? Se pelo menos fizesse um leve rudo apenas, eu seria
capaz de dizer onde ele est e, talvez, o fritasse como caf da manh.
Preparou as refeies da manh, irritada com o contnuo silncio dele. Fritou toicinho
defumado em uma vareta de nogueira.
- Este cheiro chamar a ateno do nariz de Charlie - murmurou.
Enquanto ela estava de costas, o menino furtou todo o toicinho, devorando-o com prazer.
Ela se virou rapidamente, berrando:
- Meu Deus! - Examinou a clareira, desconfiada. - Charlie,  voc?
Charlie limpou os lbios com os punhos.
Ela andou rapidamente at a clareira, como se estivesse tentando localiz-lo. Finalmente,
agindo com esperteza, fingindo-se de cega, dirigiu-se diretamente na direo dele, tateando o ar.
- Charlie, onde est voc?
Rpido como um raio, ele escapou, movendo-se, com um meneio do corpo.
Ela precisou usar de toda a sua fora de vontade para no persegui-lo, pois no se pode
perseguir meninos invisveis, de modo que se sentou, olhar carrancudo, falando apressadamente, e
tentou fritar mais toicinho. A cada tira fresca que cortava, ele roubava, ainda chiando do fogo, e
corria para longe. Finalmente, com o rosto ardendo, gritou:
- Eu sei onde voc est! Est bem a! Estou ouvindo voc correr! - Apontou para um dos
lados dele, sem muita preciso.
Ele correu de novo. - Agora voc est ali! - exclamou. - Ali e ali! - disse, apontando
para todos os lugares em que ele estivera naqueles cinco minutos. - Ouo quando voc esmaga
uma folha de grama, bate em uma flor, quebra um ramo. Tenho ouvidos muito sutis, delicados
como rosas. Conseguem at ouvir o movimento das estrelas!
Silenciosamente, ele correu entre os pinheiros, a voz respondendo:
- No consegue me ouvir quando estou sentado em uma rocha. Vou me sentar!
Durante todo o dia, ele ficou sentado sobre uma rocha, como em um observatrio, ao vento,
mvel, sugando a lngua.
A Velha Senhora catou lenha nos recnditos do bosque, sentindo os olhos do garoto fixos
na nuca. Desejava poder balbuciar: "Oh, consigo v-lo, consigo v-lo! Voc est bem a! Estava
apenas brincando sobre essa histria de garotos invisveis!"
Porm, engoliu em seco, mantendo-se calada.
Na manh seguinte, ele fez coisas odiosas. Comeou a pular por trs das rvores. Fez
caretas, cara de sapo, cara de aranha, espremeu os lbios com os dedos, esbugalhou os olhos, puxou
as narinas para cima, para que se pudesse olhar l dentro e ver o crebro pensando.
A Velha Senhora fingiu ter-se assustado com um galho e caiu de joelhos.
Ele se moveu como que para estrangul-la.
Ela tremeu um pouco.
Ele se movimentou de novo, como se fosse dar-lhe uma canelada e cuspir no rosto dela.
Ela acompanhou todos aqueles movimentos sem um piscar de olhos ou mover de lbios.
Ele mostrou a lngua, fazendo rudos estranhos, desagradveis. Abanou as orelhas, e, ento,
ela sentiu vontade de rir e, finalmente, riu mesmo, mas sem demora lanou ao ar a explicao,
dizendo:
- Sentei sobre uma salamandra! Puxa, como ela se mexe!
L pelo meio-dia toda a loucura atingiu um pico terrvel, pois, naquela hora exata, Charlie
desceu o vale correndo, totalmente despido!
A Velha Senhora quase desmaiou com o susto! Charlie!
Quase gritou.
Charlie subiu correndo, nu, por um lado da colina e desceu, nu, pelo outro, despido como o
dia, despido como a lua, pelado como o sol ou um pinto recm-nascido, os ps pouco visveis
movendo-se freneticamente como as asas de um apressado beija-flor.
A Velha Senhora ficou com a lngua travada na boca. O que poderia dizer? Charlie vista-se!
Que vergonha! Pare com isso!
Seria capaz? Oh, Charlie, Charlie, Deus! O que poderia dizer naquele momento? timo!
L em cima, sobre a grande rocha, ela testemunhou os pulos de sua dana, para cima e para baixo,
nu como no dia do seu nascimento, batendo com as mos nos joelhos, contraindo e distendendo o
branco abdmen, como se estivesse enchendo e esvaziando um balo.
Fechou fortemente os olhos e rezou. Trs horas depois, ela suplicou:
- Charlie, Charlie, venha c! H algo que preciso lhe contar!
Ele veio, como uma folha cada, novamente vestido, graas a  Deus. - Charlie - comeou
ela, olhando para os pinheiros -, estou vendo o dedo de seu p direito. Est ali.
- Consegue ver mesmo? - perguntou.
- Sim - ela confirmou melancolicamente. - Est ali, como um sapo caloso na grama. E
l, bem ali, tambm est a sua orelha esquerda flutuando no ar como uma borboleta rosada.
Charlie comeou a danar.
- Estou voltando, estou voltando!
A Velha Senhora confirmou, com um movimento de cabea.
- E l vem o tornozelo!
- Devolva-me meus dois ps! - ordenou Charlie.
- Voc j os tem.
- E quanto a minhas mos?
- Vejo uma delas rastejando pelo seu joelho, como um pernilongo.
- E a outra?
- Tambm est se mexendo.
- Tenho corpo?
- Voltando muito bem  forma.
- Preciso de minha cabea para voltar para casa, Velha Senhora.
Voltar para casa, pensou ela, esgotada.
- No! - disse, teimosa e irritada. - No, voc no tem cabea. Nenhuma cabea
- gritou. Deixou aquela parte por ltimo. - Nenhuma cabea, nenhuma cabea - insistiu.
- Nenhuma cabea? - ele choramingou.
- Sim, oh, meu Deus, sim, sim, sua maldita cabea voltou! - falou com rispidez,
desistindo. - Agora, devolva-me o morcego com a agulha no olho.
Ele o jogou para ela.
- Haaaa-yoooo! - o urro dele percorreu todo o vale, e, muito tempo depois de ele ter
corrido de volta para casa, ela ainda ouvia seus ecos.
Ento, ela juntou os gravetos, profundamente exausta, e voltou para a cabana, suspirando,
conversando. Charlie seguiu-a por todo o caminho, agora realmente invisvel, de modo que no
podia ser visto, apenas ouvido, como um cone de pinheiro caindo, o fluxo de um profundo rio
subterrneo ou um esquilo trepando em um galho. Perto da fogueira ao crepsculo, sentavam-se ela
e Charlie, to invisvel, que no podia comer o toicinho que lhe era oferecido, de maneira que ela
mesma o comeu.
Depois, ela preparou alguns feitios e adormeceu com Charlie, feito de varetas, trapos e
seixos, mas ainda morno, seu verdadeiro filho, descansando, tranqilo, em seus braos maternos,
acalentadores... e conversaram sobre coisas douradas com vozes sonolentas, at que a alvorada fez o
fogo definhar, lentamente, lentamente...

                                 *  *

RAY BRADBURY escreveu algumas das mais imaginativas histrias de fantasia sobre
a infncia, muitas delas baseadas em sua prpria criao na zona rural no meio-oeste
norte-americano. Embora, em 1934, tenha sido levado com a famlia para Los Angeles,
ele jamais esqueceu as alegrias da infncia, e o personagem central em muitas de
suas histrias  um menino chamado Douglas, bastante parecido com o prprio autor.
Uma das primeiras grandes criaes de Bradbury foi uma srie de histrias sobre uma
famlia composta por seres sobrenaturais que viviam juntos em um lar comum. Outro
livro seu reuniu muitas histrias de Douglas, seguido por um aterrorizante romance do
futuro, vaticinando uma poca em que todos os livros seriam queimados para evitar a
circulao de idias, e um suspense sobrenatural, no qual dois adolescentes ficam
presos nas barracas de um parque de diverses.

                                  * *

MEU NOME E DOLLY
William E. Nolan

                                   *

Muito embora os magos, de um modo geral, no utilizem sua magia para prejudicar as pessoas,
eles tm sido sempre rpidos em agir a favor de crianas vtimas de maus-tratos. Alguns, talvez,
tragam consigo recordaes de suas prprias infncias e dos rigores que tiveram de passar para se
tornar magos. Adotados e filhos de me solteira, em particular, sofreram nas mos de novos
adultos que entraram em suas vidas. Veja Harry Potter, por exemplo, tendo sido criado pelo tio
Valter e pela tia Petnia que sempre lhe infligiram tempos difceis desde a morte dos pais de Harry.
Tio Valter  uma personagem bastante repulsiva mas, talvez, no to detestvel quanto o senhor
Brubaker, personagem da prxima histria. Ele literalmente aterroriza a rf Dorothy Ruiva e
sardenta, Dolly, como  conhecida pelos amigos, foi adotada pelos Brubakers. Durante algum
tempo, enquanto a senhora Brubaker era viva, as coisas iam bem, porm, aps a sbita morte dela
o velho comeou a tratar Dolly de forma realmente desagradvel. Ento, Dorothy vai visitar a
velha Meg, uma bruxa que mora num barco-casa, na esperana de que ela lance um feitio no
malvado senhor Brubaker. Para sua surpresa, o que lhe  dado para ajud-la  uma boneca, uma
rplica de sua prpria imagem...

                                 *   *

SEGUNDA-FEIRA - Hoje me encontrei com a bruxa, o que  um bom ponto para comear este
dirio (tive de procurar como se escreve isso. Primeiro, escrevi diria, mas isso  o que se paga por
dia a algum por algum servio, e aqui o pagamento ser com sangue, o que  bem diferente.).
Deixe-me contar-lhe sobre Meg. Ela talvez tenha uns mil anos (uma bruxa pode viver para
sempre, certo?). Ela  retorcida como a casca de um carvalho, quero dizer, sua pele, e tem olhos
realmente grandes.  como olhar para o interior de profundas e escuras cavernas sem saber o que
existe por l. Seu nariz  curvo e ela tem dentes afiados como os de um gato.
Quando sorri, alguns esto faltando. Seu cabelo  rebelde e embolado, e ela cheira mal.
Acho que no toma banho h muito tempo. Usa um vestido preto comprido, um pouquinho
esburacado. Provavelmente, pelos ratos. Ela mora em um velho e abandonado barco-casa, que no 
mais usado no lago, cheio de teias de aranha e de gordos ratos cinza. A velha Meg parece no se
importar com isso.
Meu nome  Dolly. Abreviao de Dorothy, como no livro O mgico de Oz. Ningum
nunca me chama de Dorothy. Ainda sou uma criana, no muito alta, sou ruiva e tenho sardas!
(Para falar a verdade, odeio sardas! Quando era muito pequena, tentei esfreg-las at
desaparecerem, mas no consegui. Esto cravadas como acontece com as tatuagens.)
A razo pela qual fui ao lago visitar a velha Meg foi o dio que sinto por meu pai. Bem, ele
no  realmente meu pai, pois fui adotada e no conheo o meu verdadeiro pai. Talvez ele seja um
bom homem, bem diferente do senhor Brubaker, que me adotou. A senhora Brubaker morreu de
uma gripe, no inverno passado, e foi quando o senhor Brubaker comeou a me molestar (eu
procurei a palavra molestar e  exatamente a correta para o que ele est sempre tentando fazer
comigo).
Quando no permito, ele fica realmente furioso e me bate.
Corro para fora de casa, at ele ficar calmo novamente. Ento, ele se torna muito amvel e
me oferece biscoitos com pedaos de chocolate, que so os meus favoritos. Ele quer que eu goste
dele, de forma que possa me molestar depois. Na semana passada, ouvi falar da bruxa que vive
junto ao lago. Uma amiga na escola me falou dela. Algumas crianas costumavam ir at l e atirar
pedras nela, at que ela lanou um feitio em Lucy Akins.
Lucy fugiu e ningum mais a viu desde ento. Provavelmente, est morta. Agora os garotos
deixam a velha Meg em paz. Pensei que talvez Meg pudesse lanar um feitio sobre o senhor
Brubaker por cinco dlares (economizei essa quantia). Foi por isso que fui v-la. Ela disse que no
era possvel, porque no podia lanar feitios em pessoas a menos que pudesse v-las de perto e
olhar em seus olhos como fizera com Lucy Akins.
O lago  escuro e ftido, e grandes bolhas de gs emergem dele. O barco-casa  frio e
mido, e os ratos me assustaram, mas a velha Meg era a nica forma que eu conhecia de me vingar
do senhor Brubaker. Ela guardou meus cinco dlares e me disse que em poucos dias iria  cidade e
que procuraria alguma coisa para ser usada contra o senhor Brubaker. Prometi retornar na
sexta-feira, aps o horrio da escola.
Teremos o sangue dele, prometeu-me.
                                   *
SEXTA-FEIRA  NOITE

- Fui ver a velha Meg novamente e ela me entregou uma boneca para levar para casa.
A boneca era realmente grande, to alta quanto eu, com sardas e cabelo ruivo como o meu.
Ela tem um bonito vestido rosa e pequenos chinelos pretos com laos vermelhos.
Seus olhos abrem e fecham e, nas costas, ela possui uma grande chave de metal para dar corda. Quando
a giramos, ela abre seus grandes e escuros olhos e diz: Al, meu nome Dolly. Igual ao meu.
Perguntei a Meg onde ela havia encontrado Dolly e ela respondeu que tinha sido na loja de
brinquedos do senhor Carter. Engraado  que eu j estive l muitas vezes e nunca vi uma boneca
como essa por cinco dlares. "Leve-a para casa", disse Meg, "e ela ser sua amiga." Eu estava
realmente animada e sa correndo, puxando Dolly atrs de mim. Ela tem uma caixa com rodas;
ento, coloca-se a boneca l dentro e puxa-se pela calada.
Ela  grande demais para ser carregada.
                                   *
SEGUNDA-FEIRA

- O senhor Brubaker no gosta de Dolly.
Diz que ela  uma estranha maldio. Estas foram as palavras dele: estranha maldio. Ela  a
minha nova amiga e eu no me importo com o que ele diz a respeito dela. Ele no me deixou lev-la
para a escola.
                                   *
SBADO

- Hoje, levei um pouco do cabelo do senhor Brubaker para a velha Meg. Ela me
pediu que cortasse um pouquinho,  noite, enquanto ele dormia. Foi difcil cortar sem o acordar,
mas consegui um pouco e dei a ela. Quis que eu levasse Dolly e eu a levei. Meg disse que Dolly
seria a sua agente. Esta  a palavra: agente (tento usar todas as palavras da forma certa).
                                   *
Dolly abriu seus profundos olhos escuros e viu o senhor Brubaker. A velha Meg disse que
era tudo de que precisava. Ela enrolou dois fios de cabelo do senhor Brubaker em volta da grande
chave de metal nas costas de Dolly e disse para eu no dar corda at domingo  tarde, quando o
senhor Brubaker estaria em casa assistindo  programao de esportes. Ele sempre faz isso aos
domingos. Ento, eu disse: ok!
                                   *
DOMINGO  NOITE

- Essa tarde, como sempre, o senhor Brubaker estava assistindo a um
jogo na televiso. Coloquei Dolly bem em frente a ele e fiz exatamente o que a velha Meg pediu
para fazer. Dei corda, depois tirei a grande chave das costas da boneca e a coloquei em sua mo
direita. A chave era comprida e afiada. Dolly abriu os olhos e disse: Al, meu nome  Dolly e,
em seguida, cravou a chave no peito do senhor Brubaker. Havia muito sangue (eu disse a voc que
haveria).
O senhor Brubaker pegou Dolly e atirou-a no fogo em frente. Quero dizer, foi assim que ela
caiu, de frente, na beira do fogo ( inverno agora e realmente faz frio em casa sem fogo).
Depois que fez isso, ele caiu e no levantou mais. Estava morto,  e, ento, chamei o doutor
Thompson.
A polcia veio com o doutor Thompson e resgatou Dolly do fogo. Ento contei a eles o que
acontecera. O bonito cabelo ruivo de Dolly estava quase todo queimado. O lado esquerdo de seu
rosto sofrer graves queimaduras e a tinta havia descascado e empolado totalmente. Um de seus
braos queimou e soltou-se. O vestido rosa estava, agora, da cor de carvo, com grandes buracos
produzidos pelo fogo. O policial que a resgatou disse que uma boneca de brinquedo no poderia
matar ningum e que eu  que deveria ter cravado a chave no peito do senhor Brubaker e jogado a
culpa em Dolly. Eles me levaram para um lar para crianas ms.
No contei a ningum sobre a velha Meg.
                                   *
TERA-FEIRA 

- Muito tempo passou. Agora, meu cabelo est realmente bonito, e meu
rosto, quase curado. A senhora que dirige esta casa diz que o lado esquerdo de meu rosto sempre
apresentar grandes cicatrizes, mas que eu tive sorte de no perder meu olho esquerdo. Com um
brao s,  difcil comer e brincar com as outras crianas, mas est tudo bem, porque ainda posso
ouvir os gritos do senhor Brubaker e ver todo o sangue saindo de seu peito, e isso  timo.
                                   *
Gostaria de poder agradecer  velha Meg. Eu me esqueci, mas voc deve sempre agradecer
s pessoas que lhe fazem bem.

                                 *  *

WILUAM F. NOLAN  um grande amigo de Ray Bradbury, o autor do conto anterior, e
ambos compartilham um interesse no folclore e nas tradies da infncia. Ex-ator de
comerciais e piloto de corridas de automveis, Nolan  agora famoso pelo romance
Logars Run (1967), sobre um mundo futuro no qual quem quer que atinja a idade de
21 anos  sentenciado  morte para evitar a superpopulao. Essa arrepiante trama na
qual dois jovens, um homem e uma mulher, rebelam-se contra a ameaa de morte,
fugindo para escapar de seu destino, foi filmada, inspirou uma srie de TV e deu
origem a duas seqncias: Logan's World (1977) e Logan's Search (1980). Nolan
tambm escreveu inmeros contos no gnero da fantasia que, como "Meu nome 
Dolly", foram objeto de considerveis elogios. Essa histria foi escolhida pelo "
The Year's Best Fartas", em 1988.

                                  * *

ALGO PARA LER
Philip Pullman

                                   *

A histria da magia foi colocada em papel h muitos anos em livros como The Wizard Unvisored,
que mencionei em O mundo da magia. No entanto, independentemente de tais volumes, existiram
muitos trabalhos de fico, como The Necronomicon, um livro de magia negra, criado por
H. P Lovecraft e mencionado em vrios de seus contos. The Book of Gramarye evidenciou-se no livro
The Dark is Rising (1973), de Susan Cooper, e todos aqueles ttulos mgicos como
Necrotele-comnicon (aka Liber Paginar um Fulvarum), escrito por Achmed the Mad, que podem ser
encontrados entre os 90.000 volumes na biblioteca da Unseen University nos romances Discworld,
de Terry Pratchett. Tambm Hogwarts possui uma biblioteca compilada de A-Z com ttulos
maravilhosos desde A History of Magic, de Bathilda Bagshott at o Standard Book of Spells (Grade
1), de Miranda Goshawk, The Dark Forces: A Guide to Self-Protection, de Quentin Trimble, e o
muito consultado clssico Magical Theory, de Adelbert Waffling. Annabel, a menina da prxima
histria,  obcecada por livros. S se sente realmente em casa na biblioteca da escola. Na verdade,
para ela, livros so mais reais do que pessoas. Quando vai s aulas de dana, todas as suas
inclinaes dizem-lhe para ler um livro em vez de perder tempo com os meninos. Mas a magia das
palavras est para ganhar um novo significado para Annabel, quando ela escapuliu da agitada
confuso da pista de dana...

                                 *   *

Annabel perambulava pelo corredor escuro que leva  biblioteca da escola, tocando levemente o
papel de parede. Havia um remendo junto  porta da secretaria, no lugar onde estava rasgado; ela
devia deslizar a mo sobre ele sem tocar o reboco descoberto, ou teria de voltar e comear
novamente. Um dia foi obrigada a fazer isso nada menos do que quatro vezes e, em conseqncia,
chegou atrasada  aula de cincias e teve de limpar os insetos pregados nos alfinetes.
Ela parou no saguo, onde o barulho da discoteca da escola estava mais fraco, e leu todos os
avisos pela dcima quinta vez, antes de olhar atravs das portas de vidro. Estava quase escuro. Os
vestgios do dia produziam no cu uma colorao avermelhada acima dos telhados das casas das
redondezas. Mais no alto, flutuavam pequenas e slidas nuvens cor de limo, manteiga e damasco
contra um fundo azul-marinho. Annabel l permaneceu, olhando, com uma das mos no vidro,
como uma professora vigiando o playground.
Repentinamente, percebeu um grupo de meninos em volta de uma motocicleta no porto da
escola. No reconheceu o que estava com capacete, mas os outros pertenciam a sua turma.
Abriu a porta e chamou:
- Vocs a! Deveriam estar aqui dentro!
Eles desviaram o olhar e no responderam, porm o garoto com o capacete disse uma
palavra grosseira e os outros riram.
Ela balanou a cabea. Garotos como esses deveriam ser punidos, mas ningum parecia
querer puni-los. Voltou-se e perambulou pela vitrina dos trofus. Nada mudara desde 1973, nenhum
nome novo acrescentado s embaadas taas de prata e s placas. Era uma relquia dos dias em que
aquela era uma escola elementar. s vezes, Annabel ansiava por voltar queles tempos, ser uma
aluna, ver seu nome inscrito na placa de Edith Butler por declamao dramtica, por exemplo. Mas
so tempos idos.
Podia ver seu reflexo no vidro. Ficou de p um pouco mais ereta e puxou o vestido para
baixo, esticando-o. Estava muito curto. Havia dito a eles que estava muito curto. Era verde-escuro
com uma gola branca de babados que j estava, pensou, soltando atrs. Por que a haviam obrigado a
ir? Seu gosto, eles sabiam, era por msica clssica. Nenhum menino quereria danar com ela, e no
tinha nenhum amigo especial para conversar, isto , supondo-se que fosse possvel conversar em
meio a uma msica to alta. A experincia seria purgatria, diria ela com veemncia.
Pouco depois, saiu do saguo prximo  sala de reunio e tentou a porta da biblioteca.
Mesmo sabendo que estaria fechada, sentiu uma onda de amargo desapontamento. Era o nico lugar
da escola onde se sentia em casa, e estava trancado... E o pior: l estava o ltimo romance de ris
Murdoch na prateleira de novas aquisies. Annabel havia lido todos os outros; s vezes, sentia
como se ris Murdoch escrevesse para ela. Ansiava por colocar suas mos nesse novo volume, mas
o direito  escolha era dos alunos avanados. Como se quisessem l-lo! Ela podia v-lo daqui,
torturantemente perto.
Annabel lia muito, como se fosse uma doena. Quando no tinha um livro por perto, seus
olhos tremulavam, impacientes, procurando algo impresso ao redor e, quando encontravam, dirigia-se
quilo com a mente intensamente concentrada, como um viciado em drogas se dirige ao letal p
branco. Sempre leu: era essa a medida de sua vida. Quando tinha cinco anos, leu Dr. Seuss; aos sete
passou para Dick King-Smith e Helen Cresswell; aos 10, estava lendo Diana Wynne-Jones e Susan
Cooper; e agora, aos 14, lia livros para adultos. Lia? Devorava, melhor dizendo, como aqueles
estranhos peixes de guas profundas, com uma boca enorme que arrasta um corpinho pequeno
como uma tira.
Qualquer um que a observasse pensaria que, na verdade, desejava consumir os livros
fisicamente. Tinha um prazer particular, exultante e feroz, em abrir um livro novo, ouvir o estalido
da encadernao, cheirar o papel, folhear as pginas, tirar lentamente a sobrecapa. Enquanto lia,
suas mos nunca estavam paradas: seus dedos moviam-se para trs e para a frente, sentindo a
suavidade do papel, e exploravam tambm os mistrios da cavidade da lombada. Brochuras eram
boas, mas quebravam facilmente. Cobiava livros de capa dura.
Sim, ela era diferente dos outros, mas o que importava? Os outros eram sombras. Os livros
 que eram reais. Os pais tinham a idia fixa de que ela deveria sair mais, para fazer amigos e
conversar com as pessoas; por isso fizeram com que ela fosse  discoteca com a finalidade de
promover seu desenvolvimento social. E l estava ela, zanzando pela escola vazia, enquanto a
horrvel msica martelava ao fundo. Se ao menos tivesse um livro, poderia sentar-se sossegada em
algum lugar e ler. Se tivesse um livro no atrapalharia ningum. No incomodaria ningum. Por que
a aborrecem com suas discotecas e desenvolvimento social? Quem precisa de desenvolvimento
social quando se tem algo para ler? Seria bem-feito para eles, se ela se matasse e os assombrasse. Se
fosse um fantasma, poderia ler o quanto quisesse.
Algum correu gritando pelo corredor, Annabel suspirou.
Ento, franziu os lbios em sinal de pesar e balanou a cabea.
Avistou a prpria imagem refletida na porta da biblioteca e tentou repetir a expresso mas
no havia luminosidade suficiente  para ver com clareza.
Que horas seriam? Olhou de perto o relgio de ouro em seu magro pulso. Era um objeto de
famlia, pertencera a sua tia-av, que publicara um livro sobre as reminiscncias de sua vida na
frica Oriental. Annabel orgulhava-se muito dele. Sob a fraca luz que vinha do final do corredor,
pde ver que ele mostrava 8h30min. Isso queria dizer - ela contou nos dedos - 8h41min, pois o
havia acertado exatamente s seis e ele atrasava um minuto a cada quinze. Sculos at a discoteca
terminar. Onde mais poderia ir? Tudo estava trancado. Suspirando, tocou novamente a porta da
biblioteca e, como no havia nada mais a fazer, dirigiu-se para o ginsio, onde acontecia a festa. O
barulho da msica, se  que pode ser chamada de msica, soava brutalmente, conforme se
aproximava. Respirou profundamente, empurrou a porta do ginsio e entrou.
O barulho era estarrecedor, assim como o calor. Luzes coloridas piscavam ao ritmo da
msica, mas  exceo delas, todo o lugar estava escuro. Parecia um subrbio do inferno, pensou
Annabel, habitado por espritos selvagens que pulavam para cima e para baixo. Tinha de ser o
inferno. Observou ao redor resignadamente. L estava o professor de educao fsica, senhor Carter,
danando energicamente ou fazendo Street dancing; como supunha que chamavam essa dana. E
no era a senhorita Andrews l adiante? Ela usava um vestido bastante revelador e muito mais
maquiagem do que o normal; contudo, era a professora de ingls. Annabel dirigiu-se a ela
automaticamente.
- Oi, Annabel! - gritou a senhorita Andrews. - No pensei que viesse.
Annabel fez uma careta e disse:
- Isso  como o segundo livro do Paraso Perdido.
- O qu? No consigo ouvir!
- Eu disse que isso  como o segundo livro do Paraso Perdido!
- ? Por que no est danando?
Annabel encolheu os ombros, desanimada. Achava que a professora talvez no a tivesse
ouvido corretamente. Ento, um dos garotos mais velhos deu umas batidinhas no ombro da
senhorita Andrews e fez um movimento com a cabea em direo  pista de dana. Ela sacudiu a
cabea afirmativamente e juntou-se a ele. Annabel sentiu-se trada.
Algum gritou em seu ouvido, causando-lhe um sobressalto:
- Quer danar? - e o grito se repetiu.
Ela se voltou e olhou. Era um garoto de sua turma chamado Tim; bastante decente,
medocre, levemente rechonchudo e que no lia muito.
Por que a estaria convidando para danar? Estaria querendo ridiculariz-la? No poderia
haver outra razo.
Torceu o lbio e respondeu:
- Para qu?
Ele ficou perplexo. Permaneceu ali, olhando desconcertado.
- Bem... s achei que poderia perguntar - respondeu. - S isso.
- Ah, s isso. Entendi. Acha que eu gostaria de danar com voc? Toc-lo, quem sabe?
Retorcendo e contorcendo-me e grunhindo? Acha que eu gostaria de parecer aquelas pessoas? No,
obrigada. Prefiro morrer.
Ele ficou sem resposta. Finalmente, piscou os olhos e afastou-se. Ela deveria ter-se sentido
triunfante, mas outra coisa veio a sua mente, fazendo com que se entusiasmasse com censurvel
prazer.
Ela se lembrou de onde havia deixado um livro!
No era um romance. Na verdade, era um manual sobre como colecionar e polir pedras
semipreciosas, mas era algo para ler. Ela havia pegado na biblioteca, na tera-feira  tarde, antes dos
jogos, e colocado em sua mochila de educao fsica, que ainda estava pendurada no cabide. Saiu
imediatamente do ginsio, respirando rpido, e dirigiu-se ao vestirio.
Estava escuro, mas encontrou o cabide facilmente. Remexeu a toalha que cheirava a
umidade e os pegajosos tnis at que os dedos encontraram a preciosa lombada do livro. Ela o
puxou e o apertou contra o peito. E agora, onde poderia sentar e ler sem ser perturbada?
O luar l fora era seguramente claro o bastante para ler. E no estava frio. Poderia ir para a
piscina, ningum teria mesmo vontade de ir para l.
Agarrando o livro, correu pelos corredores em direo  porta da frente e escapou quieta
como uma sombra pela parte lateral da escola. Havia uma cerca viva em volta da piscina e uma luz
alta na parede da escola, caso a luz da lua no fosse suficiente. Era perfeito. At mesmo a cerca viva
parecia tima: como um labirinto num jardim, com uma piscina secreta, escondida, banhada pelo
majestoso luar, onde poderia sentar e ler para sempre...
Procurou a porta com as mos, uma pea com dois metros de altura, feita de slidas e
polidas almofadas de cedro, e quase bateu o p, em total desalento, quando a encontrou trancada.
Contudo, estava por demais determinada para desistir. Jogou o livro sobre a porta, o que tornaria
impossvel retroceder, pulou at a parte superior da porta, agarrou-a, arrastou-se e pulou
pesadamente para o outro lado.
Ofegando com prazer, procurou com as mos o sapato que sara de seu p, empurrou para
trs o cabelo que estava cado sobre o rosto e levantou-se, com o livro a salvo na mo. Seu vestido
estava amarrotado e ela o puxou para baixo distraidamente. Estava sozinha, e a lua brilhava. Tudo
estava prateado,  exceo da reluzente e negra gua da piscina. At mesmo a fosca pavimentao
em quadrados parecia suave, gasta, como se fossem antigas pedras e no concreto.
E ningum por ali, s ela! O que era o melhor de tudo.
Volveu lentamente, imaginando um longo vestido de seda esvoaando livremente conforme
se movia. Levantou o brao esquerdo para ver como o relgio de ouro capturava o luar e pensou
como o brao parecia esbelto, at gracioso...
Entretanto, estava mais interessada no livro do que nas fantasias a respeito de sua prpria
aparncia. Chutando os sapatos para fora dos ps, sentou-se  beira da piscina e, animada,
colocou-os na fria gua, observando o reflexo da lua agitando-se como gelia e, pouco a pouco,
integrando-se numa s coisa.
Assim que o reflexo voltou a ser novamente um todo, ela abriu o livro. Se o segurasse
razoavelmente perto, seria possvel decifrar as palavras. Olhos bem abertos, cabea curvada,
comeou a ler. Aps um momento, ouviu um farfalhar na folhagem da cerca viva. A voz de uma
menina soava discreta e algum dava risadinhas.
Annabel ficou completamente imvel. Estava furiosa: sabia o que estavam planejando. Em
vez de responder, curvou-se mais perto do livro e encolheu os ombros. Como se atreviam?
- Annabel! - disse a mesma voz. Vinha de algum lugar prximo. Annabel no tomou
conhecimento. Houve uma troca de cochichos e outra risadinha. - Annabel! - insistiu a garota.
Annabel ps as mos sobre os ouvidos.
- Ah, deixe-a, Linda - ela ouviu claramente outra voz; de um menino.
- No! No quero que ela se intrometa. Ela pode ir para outro lugar.
Annabel reconheceu a voz, tendo j ouvido o nome. Linda era uma menina de sua turma:
bonita, popular e quase analfabeta, tanto quanto Annabel poderia dizer. Annabel pressionou mais
suas mos, curvou-se para mais perto, olhou de modo penetrante o livro, mais atentamente do que
nunca.
A folhagem da cerca viva farfalhou novamente e as duas figuras apareceram, o garoto com
mais relutncia do que a menina.
Linda passou da grama para a borda pavimentada da piscina e dirigiu-se a Annabel, parando
a mais ou menos um metro de distncia.
Annabel fingiu no perceber.
- Annabel, desaparece - disse a garota. - Vai pra outro lugar. Ns estava aqui antes.
Annabel no pde resistir.
- Ns estvamos aqui antes - corrigiu. - Estou surpresa por ouvi-la ainda cometendo
esse erro. Em todo caso, estou ocupada lendo. Nem posso imaginar que esteja interrompendo.
- Ah, no se preocupe, Linda - murmurou o menino, e, ento, Annabel o reconheceu
tambm. Chamava-se Ian, e ela havia percebido que muitas garotas o achavam atraente. - Ela no
vai ouvir. Deixe-a em paz.
- No, no vou deixar - disse Linda. - Ns viemos aqui pra tratar da nossa vida. Ela s
veio para atrapalhar. Ela pode ir e ler seu livro em qualquer lugar, no pode? Por que quer ficar aqui
e atrapalhar?
- No estou atrapalhando - disse Annabel.
- Se eu acho que voc est atrapalhando,  porque est atrapalhando.
- Pergunto-me se voc pensou sobre o que estava fazendo, antes de chegar aqui - disse
Annabel. - Se eu fosse voc, voltaria para a discoteca e me comportaria. No sei o que seus pais...
- No acredito! - bufou Linda. Aborrecida, aproximou-se do ombro de Annabel.
Annabel podia sentir seu perfume e o cheiro quente de sua carne, e franziu o nariz antes de retornar
ao livro.
Ian hesitou, triste. Linda deu uma forte joelhada em Annabel.
- Anda, vai embora! Tudo que quer  ler; ento, vai ler em outro lugar! Ningum chamou
voc aqui! Some!
Annabel olhou para ela friamente. Os olhos de Linda brilhavam, seu peito movia-se,
acompanhando a rpida respirao; a pele de seus braos nus brilhava, lustrosa, sob o luar.
- Certamente no - disse Annabel. - Tenho todo o direito de ficar aqui.
- Tenho todo o direito de ficar aqui! - zombou Linda, imitando a voz exata de Annabel.
- Ela no vai sair, Linda - disse Ian.
Annabel no se moveu um centmetro. O reflexo da lua ainda estava intacto sobre a gua, as
mos ainda seguravam o livro sobre o colo.
Linda, porm, tinha outros planos. Cutucou novamente Annabel com o joelho, mais forte
dessa vez, e o movimento fez com que os ps de Annabel se agitassem na gua. As ondulaes
lentamente se moveram em direo ao reflexo da lua.
- No suporto voc - disse Linda. - Voc  uma esnobe.
- No sou - respondeu Annabel. - Um esnobe  uma pessoa que imita aqueles que esto
num nvel social superior ao seu. No , absolutamente, o que voc pensa. Se voc procurar no
dicionrio...
- Por que voc no pode falar como todos os outros? Sua vaca estpida! Vai sair daqui ou no?
- Eu me recuso. Para falar a verdade, se voc no voltar para a discoteca imediatamente,
eu vou contar...
Antes que pudesse dizer mais alguma coisa, Linda abaixou-se e arrancou-lhe o livro das mos.
- O que est fazendo? - gritou Annabel e comeou a se levantar, mas Linda tinha
arremessado o livro na piscina. Ele voou como um pssaro ferido, atingiu a gua e flutuou
silenciosamente a poucos metros da borda.
- Oh!  um livro da biblioteca! - disse Annabel furiosamente. - No  nem meu!
Ela se ajoelhou na borda e curvou-se, esticando-se para tentar remar a gua em sua direo.
Linda virou-se em completa irritao.
- Ian! - gritou Annabel. - Voc tem de ajudar! Est longe demais para eu alcanar...
Onde eles guardam a vara de bambu?
V pegar! Rpido!
Ele no se moveu. Annabel inclinou-se um pouco mais para a frente. O livro estava
balanando ligeiramente sobre a gua e flutuando para mais longe. Ela se levantou, dirigindo-se
para Linda num frenesi de raiva e pnico. Agarrou o ombro de Linda e sacudiu-o com fora.
- Pegue aquele livro! V e tire-o da gua! Como ousa tratar uma obra literria dessa
forma, sua inculta! Sua analfabeta selvagem!
Linda, alarmada e encolerizada, virou-se e empurrou a mo de Annabel de seu ombro.
Ento, Annabel a golpeou. O som do tapa ecoou com estrpito acima da gua. Perplexa, sem flego,
Linda perdeu totalmente o controle e tentou revidar, mas Annabel a agarrou pelos cabelos e tentou
for-la a entrar na piscina.
Houve um momento de luta e algum gritou; ento, Annabel perdeu o equilbrio e, com um
grito, caiu na piscina.
E afundou imediatamente. Natao no era um de seus pontos fortes, mas sabia que o corpo
humano tendia a flutuar, poderia apenas supor que o vestido verde era o que a estava puxando para
baixo.
Tocou o fundo da piscina duas ou trs vezes at que comeou a subir novamente. Em algum
momento, sentiu o livro flutuante com a ponta dos dedos, mas no conseguiu segur-lo e, ento,
estava novamente na superfcie. A gua no estava muito fria.
Abriu os olhos para ver o que considerou divertido: Ian e Linda, ajoelhados lado a lado,
olhando atentamente para dentro da gua com expresso de culpa. Teve a impresso de que tinha
passado mais tempo do que imaginava.
S ento  que ela tomou conscincia de que estava morta.
Bem, no seria bem-feito para eles?
No havia dvida alguma. Saiu da piscina e ficou de p ao lado deles, arrepiada, pois seu
corpo flutuava desajeitadamente.
Ian colocou seus braos em torno de Linda; ento, mudou de idia e resolveu estender os
braos em direo ao corpo.
- No foi minha culpa, Ian! - disse Linda. - Voc viu! Ela tentou me empurrar... Oh,
isso  horrvel! O que vamos fazer?
- Ela caiu - respondeu Ian de forma tola. - Voc no empurrou... O melhor  eu tir-la
da, o que voc acha? Meu Deus! Olha,  melhor chamar o senhor Carter. V e conte a ele enquanto
eu... no sei. Rpido, v!
- Como  que eu vou... - Linda gesticulava impotente  beira da piscina.
- Meu Deus! Eu no sei! Do mesmo jeito que veio! V!
Linda correu para a cerca viva, metendo-se cegamente no meio dela, enquanto Ian remava
com as mos na gua, tentando fazer com que o corpo de Annabel flutuasse em direo a ele.
- Acho que a vara de bambu est ali, perto da bomba - disse Annabel, mas Ian no
tomou conhecimento. - Se voc agarrar a barra de minha saia, poder me puxar mais para perto.
Era intil. Ele no podia ouvi-la de forma alguma. - Acho que ele no vai flutuar por muito tempo
- disse Annabel mais alto. - Provavelmente meus pulmes j esto cheios de gua, o que
aumentar a gravidade especfica do corpo.  melhor ser rpido antes que afunde. No estou em
posio de ajudar no momento. E foi inteiramente sua culpa, de vocs dois.
No era diferente estar morta. Eles ainda no tinham percebido. Sentiu-se desolada, o que
tambm no era novidade. Voc pode at ter pensado que seria muito interessante estar morto, ao
menos em princpio, mas era pior do que estar vivo. Ela j nem queria muito o livro.
Ian desistiu de tentar traz-la flutuando para perto dele, e ficou de p, indeciso, na borda da
piscina. No olhou para o corpo. Annabel achou que ele parecia aterrorizado.
Ento ela comeou a perceber o que significava. Era como a sensao de voltar a um limbo
adormecido. Estava morta.
Aniquilada para sempre. Seu futuro havia sido apagado: os livros que iria escrever, sua
carreira como escritora... jamais tudo isso se realizaria. Comeou a chorar.
Ouviu-se um som de passos apressados e de algum atrapalhado com o cadeado. Ento, o
porto se abriu com estrpito.
O senhor Carter entrou, afobado, e lanou um olhar para a piscina e para Ian.
- Voc no fez nada? - perguntou.
Mergulhou direto, espirrando gua exatamente onde Annabel estava de p. Subiu  tona,
ofegante, ao lado do corpo e levantou a cabea dela. Depois, ergueu-a pelas costas, puxando-a para
a beira da piscina.
- Vou levant-la - disse a Ian. - Voc a segura e puxa para fora. Role o corpo pela
borda. Ande, mexa-se!
Ian apressou-se em fazer o que ele disse. Annabel pairava perto deles, irritada com a sua
falta de jeito. Dava a impresso de que faziam aquilo de propsito, para que parecesse ridcula;
deixaram o delgado corpo pender deselegantemente pela borda da piscina, jorrando gua pelo nariz
e pela boca, enquanto o encharcado vestido verde escuro mantinha as pernas juntas. Ian puxou por
um brao.
- Pelo amor de Deus, menino, segure direito! - disse o senhor Carter, ofegando de frio.
- Voc vai deslocar o ombro dela! Levante-a suavemente...
Annabel sentiu as lgrimas novamente. Olhou emocionada para a pobre coisa molhada
estatelada no concreto e viu o senhor Carter ajoelhar-se ao lado dela, pegar-lhe a cabea nas mos e
beij-la. Comeou a soluar e foi embora. Havia uma multido se reunindo no porto: bocas
abertas, cruis olhos arregalados. No podia suportar.
Voltou para a escola e sentou-se no saguo. A msica da discoteca ainda soava no ginsio, e
era evidente que a maior parte dos jovens no tinha a menor idia de que algo incomum havia
acontecido. Annabel no sabia o que fazer. O que se faz quando se est morto? Aonde se vai?
Sentiu-se amargamente frustrada. Queria explicar de quem era a culpa, mas ningum
ouviria. Ela observava as coisas acontecendo: o senhor Carter carregou o corpo para dentro e o
deitou no departamento mdico; a senhorita Andrews ligou para os pais; a polcia chegou e depois a
ambulncia; todas as crianas foram mandadas para casa,  exceo de Ian e Linda; pediram que
esperassem na sala do diretor. Annabel no queria ficar perto deles e, ento, foi para o departamento
mdico, para junto de seu corpo.
Nunca fora um corpo atraente e agora estava grotesco. Um olho aberto, o outro meio
fechado; a boca aberta e molhada; pernas e braos rgidos e deselegantes, como os de uma
marionete. Como ousam deix-lo desse jeito? Devem ter feito de propsito. Quando ouviu a me e
o pai chegarem, ela saiu da sala. Seria por demais desagradvel.
Ento, foi at o ginsio, onde as luzes ainda estavam acesas, e olhou para a mesa de
controle da discoteca. Era um equipamento complicado que haviam alugado para aquela noite, com
dois toca-discos, um microfone e toda sorte de chaves. Os discos estavam esparramados sobre outra
mesa e Annabel foi at l para ler as etiquetas. Ficou bastante desapontada com a pouca informao
que continham, pois tinha a impresso de que capas de disco fossem cobertas de informaes.
Talvez isso se aplicasse somente aos clssicos.
Finalmente, o diretor chegou e falou com os pais dela.
Annabel observou  distncia. Ainda no havia elaborado o que deveria fazer. Era um
enigma.
Quando todos foram embora, e com bastante desconsiderao apagaram as luzes, ela
retornou ao saguo. Passou a mo sobre o papel de parede, procurando o remendo sobre a parte
rasgada junto  porta da secretaria, mas no pde senti-lo: por duas vezes no o sentiu e teve de
voltar.
Ento, percebeu algo realmente muito curioso.
Ela conseguia enfiar a mo atravs da parede. Sob a fraca luz         no vidro em frente ao
saguo, parecia que ela estava encostada na parede com um coto de brao. Que esquisito!
Aps tentar cautelosamente uma ou duas vezes, aproximou-se um pouco mais e tentou
passar atravs da parede. Sem a menor dificuldade, encontrava-se dentro da secretaria. Estava
escuro, mas ainda conseguia ver claramente; talvez nunca seja completamente escuro quando se
est morto.
Repetiu diversas vezes. Era realmente extraordinrio e, ainda assim, perfeitamente natural.
Puxa! Poderia ir a qualquer lugar...
Poderia entrar na biblioteca! Finalmente encontraria algo para ler!
Virou-se e correu alegremente pelo corredor. A biblioteca inteirinha para ela, e ningum
para dizer que fosse para algum outro lugar ou parar de ler ou fazer o dever de casa ou conversar
com algum! Quase que valia a pena estar morta.
Passou pela porta da biblioteca e parou por um momento com um trmulo suspiro de
satisfao, exultante como um gato que dominou um rato. Todos aqueles mundos l dispostos nas
prateleiras, todos dela! Por onde deveria comear?
O novo livro de ris Murdoch.
Umedecendo os lbios, Annabel caminhou em direo ao livro com voracidade, tentou
apanh-lo, e a mo passou por ele.
Aquilo era constrangedor. Tentou novamente e outra vez no conseguiu. O que havia com ela?
Tremendo, tentou tocar o livro e sua mo passou direto por ele.
Ento, subitamente, a verdade tornou-se evidente. Jamais seria capaz de peg-lo. Jamais
seria capaz de abri-lo. Desesperada, tentou outro livro com o mesmo resultado. Correu para outra
estante no querendo acreditar no que estava acontecendo.
Estante aps estante, foi mergulhando os braos, rosto, todo o corpo, na tentativa de
encontrar algo slido na etrea aparncia dos livros que a rodeavam. Chegou at a mord-los,
tentando peg-los desta forma, mas as mos, dentes e braos no encontravam absolutamente nada,
nada alm de um espao vazio. Finalmente, tremendo, permaneceu imvel, em estado de horror.
Todos os livros no mundo estavam fechados. Centenas, milhares, milhes de livros; todos
fechados e assim permaneceriam para todo o sempre. Jamais sentiria aquela arrebatada alegria de
segurar um livro, cheir-lo, deslizar os dedos pelas pginas, apertar o rosto contra ele. Jamais
poderia ler...
A menos que ficasse de p atrs de algum e lesse sobre seu ombro.
Porm, quando pensou no tipo de livros que escolhiam... e como liam vagarosa e
hesitantemente, e o quanto estavam ansiosos para parar de ler e jogar o livro na mesa... s avessas...
Oh, seria purgatorial!
No havia dito isso antes, referindo-se  discoteca? Mas aquilo era pior do que a discoteca.
O purgatrio era bastante ruim, mas isso era o inferno. E agora sabia exatamente o significado de
inferno. Significava ter todos os livros do mundo, para sempre, e nada para ler.

                                 *  *

PHILIP PULLMAN foi professor em trs escolas de nvel mdio em Oxford durante os
anos 70 e incio dos 80. Nesse perodo, ganhou uma competio, promovida por uma
editora, com seu primeiro romance. Subseqentemente, escreveu vrias histrias
populares no gnero da fantasia dirigidas ao pblico jovem, mas foi com o primeiro
volume da srie His Dark Materials, Northern Lights, que adquiriu fama internacional
como escritor para todas as idades e foi premiado com o Camegie Award em 1996.
Inspirado no Paraso Perdido, de Milton, o livro apresenta Lyra Silvertongue, de 12
anos de idade, que vive num mundo mgico no qual todo indivduo possui seu prprio
daemon' que as foras do mal esto sempre tentando afastar por intercision.'' Os
espectros, fantasmas, anjos e bruxas que aparecem nesse livro inovador e retornam
no segundo volume, The Subtle Knife (1997), so certamente nicos na fico
contempornea.

                                  * *

O CENTSIMO SONHO DE CAROL ONEIR
Diana Wynne Jones

                                   *

Todos os magos sentiram orgulho de sua habilidade para prever o futuro, ler os sinais e
interpretar sonhos. De todos os magos que foram particularmente bons nesse aspecto, podemos
citar Merlin, Michael Scott e Roger Bacon. Na fico, entre os magos de Discworld que se
vangloriam dessas habilidades, incluem-se o Arquiastrnomo de Krull, o jovem Igneous Cutwell e
Granny Weatherwax, "A Maior Feiticeira de Discworld". Em Harry Potter e a pedra filosofal,
claro, o professor McGonagall mostra uma surpreendente previso quando comenta sobre o jovem
futuro mago: "Ele ser famoso, uma lenda... todas as crianas de nosso mundo sabero seu nome."
Um nmero enorme de pessoas tambm conhece Carol Oneir, o personagem central desta ltima
histria. Ela  incrivelmente inteligente e desde os sete anos tem sido capaz de controlar os
prprios sonhos. Aquilo a tornou famosa como a autora de uma infinidade de livros e revistas de
histrias em quadrinhos. Ento, quando Carol estava prestes a ter seu centsimo sonho... nada
acontece.
 uma crise que pode significar o fim de sua carreira, mas o pai teve a brilhante idia de
entrar em contato com um dos seus velhos amigos da escola, o mago Chrestomanci. Ele  um mago
com nove vidas que vive em mundo bem prximo ao nosso, onde a magia  to comum quanto a
msica e o lugar est cheio de pessoas que a praticam, como bruxas, feiticeiras, feiticeiros e
magos. Como sua magia  muito mais forte do que a deles, Chrestomanci muitas vezes precisa
intervir nos assuntos alheios.
Sendo assim, quem melhor para resolver o mistrio de Carol Oneir ter perdido o poder de
sonhar...

                                 *  *

Carol Oneir era a mais jovem e melhor autora de livros de sonhos do mundo. Os jornais a
chamavam de Gnio Infantil. Sua fotografia aparecia regularmente em todos os jornais dirios e
revistas mensais, quer sentada sozinha, com olhar expressivo, em uma poltrona, quer amorosamente
recostada em sua mame.
A mame tinha muito orgulho de Carol. O mesmo se pode dizer de seus editores, Sonhos
Mgicos Ltda. Eles comercializavam seu produto em grandes jarros de gnios, pintados de azul
brilhante, amarrados com uma fita de cetim cor de cereja, mas tambm era possvel comprar o
Travesseiro de nibus de Carol Oneir, rosa choque e em formato de corao, a Revista de histrias
em quadrinhos de Carol Oneir, a Fita de chapu dos sonhos de Carol Oneir, o bracelete amuleto de
Carol Oneir e mais uns 50 subprodutos.
Aos sete anos de idade, Carol descobriu que era uma daquelas pessoas afortunadas com
capacidade para controlar o que sonhava e depois soltar o sonho na mente, para que um mago
competente pudesse liber-lo e engarraf-lo para a satisfao de outras pessoas. Carol adorava
sonhar. Ela j havia produzido nada menos do que 99 sonhos. Amava toda a ateno de que era alvo
e todas as coisas dispendiosas que a mame lhe podia comprar. De modo que, para ela, foi um
choque terrvel quando, uma noite, preparando-se para dormir e comear a sonhar seu centsimo
sonho, nada aconteceu.
Tambm foi um choque terrvel para a mame, que acabara de pedir um caf da manh com
champanha para comemorar o Centenrio de Sonhos de Carol. A Sonhos Mgicos Ltda. estava to
perturbada quanto a mame. O simptico senhor Ploys levantou no meio da noite e veio para Surrey
no primeiro trem da madrugada. Ele tranqilizou mame e tranqilizou Carol tambm, persuadindo-a
a deitar e tentar sonhar novamente. Carol, porm, ainda no conseguia sonhar. Tentou todos os
dias na semana seguinte, mas nada de sonhos, nem mesmo daquele tipo que as pessoas comuns tm.
A nica pessoa que recebeu a notcia sem se abalar foi papai.
Logo que comeou a crise, ele foi pescar. O senhor Ploys e mame levaram Carol aos
melhores mdicos, caso ela estivesse excessivamente cansada ou doente. No estava. Ento, mame
levou Carol at a Harley Street para uma consulta com Herman Mindelbaum, o famoso mago da
mente. O senhor Mindelbaum tambm no conseguiu descobrir o que havia de errado. Ele disse que
a mente de Carol estava em perfeitas condies e que, considerando os fatos, a autoconfiana da
menina estava surpreendentemente elevada.
No carro, voltando para casa, mame chorava e Carol soluava. O senhor Ploys falou
freneticamente:
- O que quer que acontea, no podemos permitir que uma aluso a esse assunto chegue
aos jornais!
J era muito tarde. No dia seguinte, todos os jornais mostravam manchetes do tipo Carol
Oneir consulta especialista em mente e Esgotaram-se os sonhos de Carol Oneir? Mame explodiu
outra vez em lgrimas e Carol no conseguiu tomar o caf da manh.
Mais tarde, naquele dia, papai voltou para casa depois da pesca e encontrou reprteres
sentados em fileiras nos degraus da frente. Educadamente, abriu caminho com a sua vara de pescar,
dizendo:
- No h motivo para toda essa agitao. Minha filha est apenas muito cansada e a
estamos levando  Sua para um descanso. - Quando ele finalmente conseguiu entrar, exclamou:
- Estamos com sorte. Consegui providenciar para que Carol seja examinada por um perito.
- No seja tolo, querido. J fizemos uma consulta com o senhor Mindelbaum ontem
- soluou mame.
- Sei disso, querida. Eu disse um perito, no um especialista - respondeu papai. - Veja,
eu freqentei a escola com Chrestomanci, h muito tempo, quando ns dois ramos mais jovens do
que Carol. Na verdade, ele perdeu sua primeira vida porque eu o atingi bem na cabea com um
basto de crquete.
Agora, claro, sendo um mago com nove vidas, ele  muito mais importante do que Carol.
Tive um bocado de dificuldade para encontr-lo e receei que ele no fosse querer se lembrar de
mim, mas no foi o que aconteceu. Disse que veria Carol. O .  problema  que ele est de frias no
Sul da Frana e no deseja  o recanto cheio de jornalistas...
- Eu cuidarei disso tudo - gritou o senhor Ploys alegremente. - Chrestomanci! Senhor
Oneir, estou admirado. No tenho palavras!
Dois dias mais tarde, Carol, seus pais e o senhor Ploys subiram a bordo de um trem-dormitrio
de primeira classe em Calais, do Expresso Oriente Suo. Os reprteres tambm subiram
a bordo, em dormitrios de segunda classe e lugares de terceira classe, junto com reprteres
franceses e alemes de p nos corredores. O trem superlotado chacoalhava ao longo da Frana at
que, no meio da noite, chegou a Strasbourg, onde sempre ocorrem muitas manobras de trens. O
vago-dormitrio, com Carol e os pais adormecidos l dentro, foi manobrado e engatado na traseira
do Riviera Golden Arrow e o Oriente Suo seguiu para Zurich sem ela.
O senhor Ploys continuou no primeiro trem em direo  Sua. Ele explicou a Carol que,
embora ele fosse realmente um mago dos sonhos, tinha capacidade suficiente para manter os
reprteres pensando que Carol ainda estava no trem.
- Se Chrestomanci deseja privacidade, permitir que um desses reprteres chegasse perto
dele poderia custar o meu emprego - disse o senhor Ploys.
Quando os reprteres descobriram o engano, Carol e os pais j haviam chegado ao recanto
na costa de Teignes, na Riviera Francesa. L, papai, no sem antes dar uma ou duas olhadas
desejosas ao cassino, desempacotou suas varas e foi pescar. Mame e Carol pegaram uma
carruagem puxada a cavalos at a vila privativa, na colina, onde Chrestomanci estava hospedado.
Vestiram suas melhores roupas para o encontro. Nenhuma das duas conheceu antes algum
que fosse mais importante do que Carol. A menina vestia uma roupa de cetim azul pregueado, da
mesma cor que seus jarros de gnio, com nada mais nada menos do que trs anguas bordadas 
mo. Usava botas de abotoar da mesma cor e, no cabelo, cuidadosamente encaracolado, uma fita
azul. Tambm carregava uma sombrinha de cetim azul.
Alm disso, usava seu pingente de diamantes, em forma de corao, o broche com o nome
CAROL em diamantes, os dois braceletes de safira e todas as seis pulseiras de ouro. O fecho da
bolsa de cetim azul era de diamante, com o formato de dois C.
Mame estava ainda mais fantstica, em um vestido parisiense cor de cereja, chapu rosa e
todas as suas esmeraldas.
Foram levadas a um terrao por uma senhora bastante simples que, como mame sussurrou
no ouvido de Carol por trs de sua f, estava realmente bem-vestida demais para uma servial.
Carol sentiu cime da admirao de mame.
Eram tantas as escadarias at o terrao que, quando chegaram l, ela estava afogueada
demais para falar. Deixou mame comentar sobre a vista maravilhosa. Dali, podiam ser vistos o mar
e a praia e observadas as ruas de Teignes. Como disse mame, o cassino parecia encantador e o
campo de golfe muito quieto. Por outro lado, a vila tinha sua piscina privativa. Estava cheia de
crianas espadanando gua, gritando e, na opinio de Carol, como que estragavam a paisagem.
Chrestomanci lia, sentado em uma espreguiadeira. Ergueu os olhos e piscou um pouco
quando chegaram. Ento pareceu lembrar-se de quem se tratava e levantou-se educadamente para
cumpriment-las. Vestia uma roupa de seda natural, maravilhosamente bem-talhada. Ao primeiro
olhar, Carol notou que deveria ter custado pelo menos o mesmo que o vestido parisiense de mame.
Porm, o primeiro pensamento de Carol, ao ver Chrestomanci, foi: Nossa! Ele  duas vezes
mais bonito do que Francis! Rapidamente, interrompeu e dominou aquela seqncia de
pensamentos, pois eram daqueles que jamais compartilhara com mame. Mas significava que ela
menosprezava Chrestomanci por ele ser de estatura to elevada, ter o cabelo to escuro e olhos
negros brilhantes. Sabia que ele no poderia ajudar mais do que o senhor Mindelbaum, e o senhor
Mindelbaum fizera com que se lembrasse de Melville.
Enquanto isso, mame segurava a mo de Chrestomanci entre as suas e dizia:
- Oh, senhor!  uma atitude to bonita de sua parte, interromper suas frias por nossa
causa! Nem mesmo o senhor Mindelbaum conseguiu descobrir o que est bloqueando os sonhos...
- De forma alguma - respondeu Chrestomanci, de certo modo, lutando para libertar a
prpria mo. - Para ser franco, fiquei intrigado com um caso que nem Mindelbaum conseguiu
resolver. - Ele fez um sinal para a senhora que as trouxera at o terrao. - Millie, acha que pode
acompanhar a senhora... ... O'Dear l para baixo enquanto converso com Carol?
-  No h necessidade disso, senhor - disse mame, sorrindo. - Sempre vou a todos os
lugares com minha querida. Carol sabe que ficarei aqui sentada, quieta, sem interromper.
- No  de admirar que Mindelbaum no tenha chegado a lugar algum - murmurou
Chrestomanci.
Ento - Carol, que se orgulhava de ser muito observadora, nunca teve certeza de como
aconteceu -, mame, repentinamente, no estava mais no terrao. A prpria Carol estava sentada
em uma espreguiadeira, olhando para Chrestomanci na sua prpria espreguiadeira, ouvindo a voz
da mame flutuando de algum lugar l embaixo.
- Jamais permito que Carol v sozinha a algum lugar. Ela  a minha ovelhinha...
Chrestomanci reclinou-se confortavelmente e cruzou as elegantes pernas.
- Agora - comeou - seja gentil e me conte exatamente o que faz quando produz um sonho.
Aquilo era uma coisa que Carol j fizera centenas de vezes. Sorriu graciosamente e
comeou:
- Primeiro, vem uma sensao em minha cabea, significando que um sonho est para
acontecer. Os sonhos vm quando querem, entende, e no h como par-los ou ignor-los. Ento,
aviso  mame, subimos ao meu quarto, onde ela me ajuda a me instalar na cama especial que o
senhor Ploys fez para mim.
Depois, mame deixa a "mquina dos sonhos" girando e sai silenciosamente. Aquele
zumbido suave do giro me faz cair no sono e o sonho me leva...
Chrestomanci no fez anotaes, como o senhor Mindelbaum ou os reprteres. Nem
movimentos afirmativos de cabea para incentiv-la como o fez o senhor Mindelbaum.
Simplesmente, fixou vagamente o olhar em direo ao mar. Carol pensou que o mnimo que ele
poderia fazer era pedir que aquelas crianas na piscina ficassem quietas. Os gritos e o espadanar
eram to altos, que ela quase tinha que gritar. Carol pensou que ele estava sendo bastante
desatencioso, mas continuou.
- Aprendi a no ter medo e a ir onde os sonhos me levavam.
 como uma viagem de explorao...
- Quando acontece isso? - interrompeu Chrestomanci, de um modo informal. - Esses
sonhos acontecem  noite?
- Podem ocorrer a qualquer momento - explicou Carol. - Se um sonho est pronto,
posso ir para a minha cama e dormir durante o dia.
- O que  bastante conveniente - murmurou Chrestomanci. - Assim voc pode erguer a
mo durante uma aula montona e dizer: "Por favor, pode me dar licena para eu ir para casa e
sonhar?" Eles permitem que voc v para casa?
- Pensei j ter explicado - disse Carol, esforando-se para manter a dignidade - que
mame organiza as aulas para mim em casa, para que eu possa sonhar a qualquer momento que
sentir necessidade.  como uma viagem de explorao, algumas vezes em cavernas subterrneas,
outras vezes em palcios nas nuvens...
- Entendo! E durante quanto tempo voc sonha? Seis horas? Dez minutos? - interrompeu
Chrestomanci mais uma vez.
- Mais ou menos meia hora - respondeu Carol. Algumas vezes nas nuvens, ou talvez nos
mares do sul. Nunca sei aonde irei ou quem encontrarei em minha jornada...
- Voc completa um sonho inteiro em meia hora? - interrompeu Chrestomanci de novo.
- Claro que no! Alguns de meus sonhos duram mais de trs horas - respondeu Carol.
- Quanto s pessoas que encontro, elas so estranhas e maravilhosas...
- Quer dizer que voc sonha em perodos de meia hora - disse Chrestomanci. - E
suponho que voc precisa continuar o sonho do ponto exato onde o deixou ao final da meia hora
anterior.
- Obviamente - disse Carol. - Eu consigo controlar meus sonhos. E fao o melhor que
posso nesses espaos de meia hora. Gostaria de que parasse de me interromper quando estou me
esforando para lhe dizer!
Chrestomanci desviou o rosto do mar e olhou para ela. Parecia surpreso.
- Minha querida senhorita, voc no est se esforando para me contar coisas. Tambm
leio jornais, como deve saber. Voc est me contando exatamente as mesmas coisas sem
importncia que contou ao The Times, ao Croydon Gazette e ao People's Monthly, e, sem dvida,
tambm ao pobre Mindelbaum. Diz que seus sonhos vm sem que sejam convidados, mas que todos
os dias tem um durante meia hora e que jamais sabe aonde vai ou o que acontecer, mas que
consegue control-los perfeitamente. Tudo isso no pode ser verdade, no ?
Carol deslizou as pulseiras para cima e para baixo pelo brao e tentou manter a calma. Era
algo difcil, com o sol to quente e com tanto barulho vindo da piscina. Pensou seriamente em
rebaixar Melville e transformar Chrestomanci no vilo do prximo sonho, at que se lembrou de
que poderia no haver um prximo sonho, a no ser que Chrestomanci a ajudasse.
- No estou entendendo - disse ela.
- Falemos ento de seus sonhos - props Chrestomanci.
Ele apontou para os degraus do terrao, para a gua maravilhosamente azul da piscina.
- Ali voc pode ver Janet, minha tutelada.  a jovem loura que os outros esto empurrando do
trampolim. Ela adora seus sonhos. Tem todos os 99, embora eu receie que Julia e os jovens os
estejam menosprezando. Dizem que so tolamente sentimentais e todos exatamente a mesma coisa.
Carol, naturalmente, sentiu-se profundamente ferida por algum considerar seus sonhos
tolamente sentimentais, mas preferiu no se manifestar. Sorriu graciosamente para o grande
espadanar, que era tudo o que conseguia ver de Janet.
- Janet espera conhec-la mais tarde - disse Chrestomanci.
O sorriso de Carol ampliou-se. Gostava de conhecer admiradores. - Quando ouvi que
vocs estavam vindo - disse Chrestomanci -, peguei emprestado com Janet o mais recente,
Travesseiro de nibus. - O sorriso de Carol estreitou-se um pouco. Chrestomanci no parecia de
forma alguma o tipo de pessoa que gostaria de seus sonhos.
- At que gostei dele - confessou Chrestomanci. O sorriso de Carol ampliou-se. timo!
- Mas, sabe, Julia e os jovens tm razo - continuou Chrestomanci -, seus finais felizes so
mesmo tolamente sentimentais e esto sempre acontecendo as mesmas coisas. - Ante tal observao,
dessa vez o sorriso de Carol estreitou-se inconfundivelmente. - No entanto, so
terrivelmente vivos - acrescentou Chrestomanci. - H tanta ao e tantas pessoas. Gosto de todas
aquelas multides, o que em suas sinopses  chamado de "elenco de milhares", mas devo confessar
que no considero seus cenrios muito convincentes.
Aquele cenrio rabe no nonagsimo sexto sonho foi horrvel, mesmo com as devidas
concesses por causa de sua idade. Por outro lado, o parque de diverses do sonho mais recente
parecia mostrar as qualidades essenciais a um verdadeiro dom.
At aquele momento, o sorriso de Carol passava do amplo ao estreito, como as ruas de
Fair City, em Dublin. Quase foi pega de guarda baixa quando Chrestomanci disse:
- E, embora voc nunca aparea nos sonhos, um determinado nmero de personagens
sempre aparece, em diversos papis,  claro. Diria que, ao todo, so uns cinco ou seis atores
principais.
Aquilo estava se tornando demasiadamente prximo das coisas que Carol jamais contara,
nem mesmo a mame. Felizmente alguns reprteres haviam chegado  mesma concluso.
- Assim so os sonhos - disse ela. - Sou apenas o olho que v.
- Como disse ao Manchester Guardian - concordou Chrestomanci -, se  o que queriam
dizer com "Oosung Oyo". Imagino que aquilo deve ter sido um erro de impresso. - Para alvio de
Carol, ele mostrava um olhar vago e, aparentemente, no notou que ela estava atemorizada.
- Agora - ele continuou -, acredito que chegou a hora de dormir, para que eu possa ver
o que aconteceu de to errado em seu centsimo sonho, a ponto de voc se recusar a registr-lo.
- Mas nada aconteceu de errado! - protestou Carol. - S que no sonhei.
-  o que voc diz - respondeu Chrestomanci. - Feche os olhos. No se importe de
roncar, se o desejar.
- Mas... mas no posso simplesmente dormir no meio de uma visita! - disse Carol.
- E... e aquelas crianas na piscina esto fazendo barulho demais.
Chrestomanci baixou uma das mos casualmente at o cho do terrao. Carol viu o brao
dele subir, como se estivesse retirando alguma coisa das pedras. O terrao ficou em silncio. Ela
ainda podia ver as crianas espadanando gua l embaixo e as bocas abrindo e fechando, mas
nenhum som chegava a seus ouvidos.
- Ainda tem mais alguma desculpa? - perguntou ele.
- No so desculpas. E como voc poder saber se estou ou no sonhando sem "mquina
dos sonhos" adequada e um mago dos sonhos qualificado para interpret-la? - exigiu Carol.
- Oh, atrevo-me a dizer que posso passar muito bem sem ela - observou Chrestomanci.
Embora tivesse dito aquilo de modo suave, acalentador, Carol repentinamente se lembrou de que ele
era um mago com nove vidas e mais importante do que ela. Imaginou que ele era suficientemente
poderoso.
- Muito bem, como queira. - Iria fazer-lhe a vontade. Carol arrumou a sombrinha para se
proteger do sol e arrumou-se confortavelmente na espreguiadeira, sabendo de antemo que nada
aconteceria...
... E estava no parque de diverses onde seu nonagsimo nono sonho comeou. A sua
frente, um amplo espao barrento, com grama, coberto com pedaos de papel e outros entulhos.
Podia ver, a distncia, a roda gigante, por trs de algumas barracas esvoaantes e tendas meio
desmontadas, e outra coisa alta, aparentemente a parte inferior da torre da tenda principal. O lugar
parecia bastante deserto.
- Francamente! - disse Carol. - No limparam nada! O que Martha e Paul estaro
pensando?
Logo depois de dizer isso, ela tapou, de modo culposo, a boca com as mos e olhou ao
redor, certificando-se de que Chrestomanci no viera se aproximando silenciosamente por trs.
Porm, nada mais havia, alm de capim coberto de lixo.
"Bom!", pensou Carol. "Sei que ningum pode chegar por trs dos cenrios de um sonho
privativo de Carol Oneir, a no ser que eu o permita!" Relaxou. Estava no comando. Era uma das
coisas que no contara  mame, embora, por um momento, l no terrao em Teignes, tivesse
receado que Chrestomanci estivesse informado a respeito.
Na verdade, como Chrestomanci observou, Carol tinha apenas seis personagens principais
trabalhando para ela. Havia Francis, alto, louro e bonito, com uma bela voz de bartono, que era
sempre o heri. Sempre terminava casando com a suave, mas espirituosa Lucy, tambm bonita.
Depois, havia Melville, magro e escuro, como um rosto plido e mau, responsvel por todas
as vilanias. Melville era to bom no papel de bandido, que Carol o usava diversas vezes em um
sonho. Mas ele era sempre educado e, por isso, o tambm educado senhor Mindelbaum fez com que
Carol se lembrasse de Melville.
Os outros trs eram Bimbo, mais idoso, que fazia todos os homens sbios, aleijados
patticos e tiranos fracos; Martha, a mulher mais velha, como tias, mes e rainhas enfeitiadas,
tanto diretamente enfeitiadas quanto com coraes de ouro, e Paul, de compleio mais baixa e
aspecto infantil. A especialidade de Paul era ser fiel assistente infantil, embora tambm fizesse o
segundo personagem mau, com uma freqente tendncia a ser morto. A funo de Paul e Martha,
como seus papis nunca eram muito relevantes, era ver se, no elenco de milhares, tudo estava
esclarecido entre sonhos.
S que dessa vez isso no aconteceu.
- Paul - chamou Carol. - Martha! Onde est o meu elenco de milhares? Nada
aconteceu. Sua voz perdeu-se no vazio.
- Muito bem! - exclamou Carol. - Vou procur-los e os encontrarei, e vocs no
gostaro quando isso acontecer!
Comeou a andar, abrindo caminho, repugnada, pelo meio do lixo, em direo s barracas
esvoaantes. Foi realmente uma atitude nada correta da parte deles, pensou, depois de todo o
trabalho que tivera para produzi-los, apresent-los de centenas de maneiras diferentes, tornando-os,
de certo modo, to famosos quanto ela mesma. Enquanto Carol pensava, pisou com o p descalo
um sorvete derretido. Deu um pulo para trs e descobriu que, por algum motivo, usava uma roupa
de banho igual  das crianas na piscina de Chrestomanci.
- Francamente! - disse, rabugenta. Lembrava-se, agora, de que na outra tentativa do
centsimo sonho isso tambm acontecera, at o ponto em que ela o descartou. Pensariam que aquele
era o tipo de sonho das pessoas comuns. No poderia nem mesmo ser considerado um decente
sonho tipo Fita de chapu. Dessa vez, com um esforo rigorosamente controlado, obrigou-se a
vestir as botas azuis e o vestido azul com todas as anguas. Era muito mais quente, mas mostrava
que ela estava no comando. E continuou a marcha, at chegar s barracas esvoaantes.
Ali, aquilo quase se transformou de novo em um sonho comum. Carol andou entre barracas
vazias e tendas cadas, sob a enorme estrutura da roda gigante e, repetidamente, perto da tenda
principal sem o topo. Ela passou por carrossel aps carrossel, sem ver uma alma sequer.
Seguia em frente incentivada por profundo desgosto, at que viu algum, e depois quase
passou diretamente por ele, pensando tratar-se de um dos bonecos do espetculo de cera..
Ele estava sentado, com o olhar fixo, sobre um caixote ao lado de um rgo pintado de um
dos carrossis. Talvez, quando necessrio, algum dos participantes do elenco de milhares atuasse
como boneco, pensou Carol. Realmente no fazia idia.
Esse, porm, era louro, significando ser um dos bons e que geralmente trabalhava com Francis.
- Ei, voc! - chamou ela. - Onde est Francis?
Ele lhe lanou um olhar sem energia, como que inacabado.
- Rhubard - disse. - Abracadabra!
- Sim, mas agora voc no est participando de uma cena de multido - respondeu Carol.
- Quero saber onde esto os meus personagens principais.
O homem apontou vagamente para um ponto alm da roda gigante.
- Nos seus alojamentos - respondeu -, na reunio do comit. - Carol seguiu naquela
direo. Nem bem acabara de dar dois passos, o homem bradou por trs dela: - Ei, voc!
Agradea!
"Que grosseiro", pensou Carol. Virou-se, lanando-lhe um olhar fixo e penetrante. Ele
estava bebendo algo com cheiro muito forte de uma garrafa verde.
- Voc est bbado! - disse ela. Onde conseguiu isso? No permito bebidas verdadeiras
em meus sonhos.
- Meu nome  Norman - informou o homem. - Bebo para afogar as tristezas.
Carol percebeu que nada que fizesse sentido conseguiria obter dele. De maneira que disse:
"Obrigada", para que no gritasse por trs dela de novo e seguiu na direo indicada. Isso a fez
passar por um amontoado de carros ciganos. Todos tinham uma aparncia indistinta de papelo, por
isso Carol passou diretamente por eles, certa de que deveriam pertencer ao elenco de milhares. O
carro que queria, sabia muito bem, pareceria bem-definido e real. E assim aconteceu. Era mais
como um barraco preto e alcatroado sobre rodas do que um carro, mas uma fumaa negra,
verdadeira, saa de sua chamin enferrujada.
Carol inspirou. "Estranho", pensou. "O cheiro parece de caramelo!" Mas decidiu no dar a
seu pessoal nenhum outro aviso. Subiu pela escada de madeira preta at a porta, abrindo-a com
violncia.
Uma nuvem de fumaa, calor, cheiro de bebida e de caramelo a envolveram. Seu pessoal
estava todo reunido ali dentro, mas, em vez de se virar educadamente para receber suas ordens,
como fazia normalmente, em princpio ningum tomou conhecimento da presena dela. Francis
estava sentado  mesa, jogando cartas com Martha, Paul e Bimbo,  luz de velas enfiadas em
garrafas verdes. Perto do cotovelo de cada um deles, copos de bebida com cheiro forte, mas a maior
parte do cheiro de bebida, para horror de Carol, vinha de uma garrafa da qual Lucy estava bebendo.
A bela e suave Lucy sentava-se em um beliche ao fundo, dando risadinhas e embalando uma garrafa
verde. Pelo que Carol conseguia ver quela luz fraca, o rosto de Lucy parecia o de um gnomo, e o
cabelo lembrava o que mame descreveria como "maltratado". Melville cozinhava no fogo perto
da porta.
Carol sentiu vergonha de olhar para ele. Vestia um avental branco, imundo, e mostrava um
sorriso sonhador enquanto mexia a panela. Difcil imaginar algo menos desprezvel.
- Podem me dizer - Carol gritou - o que pensam estar fazendo?
Diante daquilo, Francis virou-se o suficiente para Carol ver que h muitos dias ele no se
barbeava.
- Feche essa bendita porta, por favor! - exclamou, irritado.
Provavelmente, falou daquela maneira por estar com um grande charuto entre os dentes,
mas Carol imaginou que era principalmente porque Francis estava bbado.
Fechou a porta e ficou de p encostada nela, com os braos cruzados.
- Exijo uma explicao - disse. - Estou esperando.
Paul baixou suas cartas e, num movimento rpido, puxou para si mesmo uma pilha de
dinheiro. Depois, retirou o charuto da boca infantil para dizer:
- E pode continuar esperando, a no ser que, finalmente, tenha vindo negociar. Estamos em greve.
- Em greve - disse Carol.
- Em greve - repetiu Paul. - Todos ns. Trouxe o elenco de milhares diretamente para
c, logo depois de seu sonho mais recente. Queremos melhores condies de trabalho e uma fatia
maior do bolo. - Paul sorriu para Carol de um modo desafiador e no propriamente agradvel, e
enfiou o charuto de volta na boca, uma boca no to infantil, agora que Carol podia observla mais
de perto. Paul era mais velho do que ela imaginara, com linhas cnicas cobrindo-lhe todo o rosto.
- Paul  nosso administrador - explicou Martha. Para surpresa de Carol, Martha era
bastante jovem, com cabelo avermelhado e um olhar ntegro e severo. Quando ela prosseguiu, o tom
da sua voz tambm era um pouco lamentoso. - Temos nossos direitos, entende? As condies
segundo as quais o elenco de milhares precisa viver so terrveis e  um sonho logo depois do outro,
sem qualquer tempo livre para algum de ns. Tambm no temos qualquer satisfao com o nosso
trabalho. Os papis desagradveis que Paul e eu temos de desempenhar!
- Figurantes sarnentos - disse Paul, ocupado em distribuir as cartas. - Um dos motivos
de nosso protesto  que somos mortos em quase todos os sonhos. O elenco de milhares 
exterminado em todas as cenas finais, e, alm de eles no receberem qualquer compensao, logo
depois precisam se preparar para lutar de novo no sonho seguinte.
- No  como se voc nos pagasse alguma coisa - lamentou-se Martha. - Temos de nos
conformar com qualquer recompensa que pudermos pelos nossos servios.
- Ento, onde conseguiram todo esse dinheiro? - perguntou Carol, apontando a grande
pilha em frente a Paul.
- Na cena do tesouro rabe e assim por diante - respondeu Paul. - Tesouro de piratas. A
maior parte  apenas papel pintado.
Repentinamente, Francis disse em voz alta, pastosa:
- Quero reconhecimento! Fui 99 heris diferentes, mas nem uma palavra de crdito
aparece em um travesseiro ou jarro. - Deu um soco na mesa. - Explorao!  isso que !
- Sim, queremos os nossos nomes no prximo sonho - exigiu Paul. - Melville, passe
para ela nossa lista de reclamaes, por favor.
- Melville, o Secretrio do Comit de Greve - disse Martha.
Francis deu um outro soco na mesa e gritou:
- Melville! - Depois, todos gritaram: MELVILLE! At que Melville, finalmente, se
virasse do fogo com a panela em uma das mos e uma folha de papel na outra.
- No queria estragar meu doce - disse Melville, como que se desculpando. Estendeu o
papel a Carol. - Aqui est, minha querida. Isso no foi idia minha, mas no desejo decepcionar os
outros.
Carol, nesse meio tempo, recuou contra a porta, mais ou menos aos prantos. Aquele sonho
parecia um pesadelo.
- Lucy - chamou, desesperadamente. - Lucy, voc tambm est envolvida nisso?
- No se atreva a perturb-la - exigiu Martha, de quem Carol estava comeando a no
gostar. - Lucy sofreu bastante. J teve o seu quinho de papis que a tornaram um joguete e
propriedade de homens. No  mesmo, querida? - dirigiu-se a Lucy.
Lucy voltou o olhar para cima.
- Ningum compreende - murmurou, olhando tristemente para a parede. - Odeio
Francis. E sempre tenho de me casar com ele e viver feliz para todo o sempre.
Essa fala, nada surpreendentemente, aborreceu Francis.
- E eu odeio voc! - vociferou, saltando da cadeira, enquanto gritava. A mesa virou com
estrondo, acompanhada pelos copos, dinheiro, cartas e velas. Na escura e aterrorizante confuso que
se seguiu, a porta, no se sabe como, abriu-se por trs de Carol e ela saiu to rpido quanto pde...
... Descobrindo-se novamente sentada em uma espreguiadeira no terrao. Segurava uma
folha de papel em uma das mos e a sombrinha girava a seus ps. Para sua irritao, algum
derramou o que parecia ser uma grande gota pegajosa de doce sobre seu vestido azul.
- Tonino! Vieni qui! - algum chamou.
Carol ergueu a cabea e viu Chrestomanci tentando consertar uma espreguiadeira quebrada
em meio a uma multido que se empurrava, passando por ele, descendo, em correria, os degraus do
terrao. No primeiro momento, Carol no conseguiu imaginar quem seriam aquelas pessoas, at que
viu Francis entre elas e depois, Lucy, com uma das mos agarrando a garrafa e a outra a mo de
Norman, o homem que Carol viu sentado sobre um caixote. O restante deve ser o elenco de
milhares, sups. Ainda tentava imaginar o que havia acontecido, quando Chrestomanci deixou cair
a espreguiadeira quebrada e parou a ltima pessoa a cruzar o terrao.
- Desculpe, senhor - disse Chrestomanci. - Poderia, por gentileza, explicar algumas
coisas antes de ir?
Era Melville, ainda com o avental de cozinheiro, abanando fumaa para longe da panela
com a desprezvel e longa mo, e observando atentamente o doce com um olhar muito sombrio no
rosto igualmente comprido e desprezvel.
- Acho que est estragado - disse. - Quer saber o que aconteceu? Bem, acho que foi
iniciado pelo elenco de milhares, mais ou menos na poca em que Lucy se apaixonou por Norman,
de modo que, para comear, deve ser obra de Norman. De qualquer maneira, comearam a reclamar
que nunca tinham oportunidade de ser pessoas de verdade e Paul lhes deu ateno. Paul  muito
ambicioso, entende, e sabia, como todos ns, que Francis no era realmente talhado para ser heri...
- Certamente que no! Tem um queixo fraco - concordou Chrestomanci.
Carol engoliu em seco e estava pronta para protestar, o que seria um protesto bastante
choroso naquele momento, quando se lembrou de que o queixo eriado de Francis parecia
realmente pequeno e vacilante sob aquele charuto.
- Oh, no se deve julgar por queixos - observou Melville. - Olhe o meu! E no sou
mais vilo do que Francis  heri.
Francis tem seu lado petulante, Paul zombava daquilo, com a ajuda de Bimbo e seu usque,
e Lucy estava com Paul de qualquer maneira, porque odiava ser forada a usar vestidos com
babados e a sorrir de modo afetado para Francis. Ela e Norman queriam se dedicar  agricultura.
Martha, em minha opinio,  uma garota muito frvola, aliou-se a eles, porque no pode tolerar ter
de arrumar o cenrio sem aviso. Ento, todos vieram falar comigo.
- E voc resistiu? - perguntou Chrestomanci.
- Por todo O aleijado de Monte Cristo e O cavaleiro rabe - admitiu Melville,
caminhando pelo terrao para pousar a panela na balaustrada. - Gosto de Carol, compreende, e
estou bastante disposto a ser trs viles de uma vez, se  o que ela quer.
No entanto, quando ela comeou o sonho do parque de diverses, logo depois de o tirano da
cidade de Londres, tive de admitir que estvamos sendo todos completamente sobrecarregados de
trabalho. Nenhum de ns conseguia algum tempo para si mesmo. Pobre de mim - acrescentou.
- Creio que o elenco de milhares est se preparando para fazer uma farra.
Chrestomanci curvou-se na balaustrada para olhar.
- Receio que sim - disse. - Por que, na sua opinio, Carol faz vocs trabalharem tanto?
Ambio?
Naquele momento vinha tamanho barulho da cidade, que Carol no conseguiu resistir:
levantou-se para olhar. Uma grande parte do elenco de milhares foi direto para a praia. Corriam
alegremente pela gua, empurrando cabines para trocar de roupa, com rodinhas, ou simplesmente
livravam-se das roupas e mergulhavam. Aquilo provocou um clamor por parte dos freqentadores
habituais. Mais gritaria chegava da praa principal, abaixo do cassino, onde o elenco de milhares
inundou cafs elegantes, pedindo sorvetes, vinho e pernas de r em altos brados.
- Parece bastante divertido - disse Melville. - No! No  exatamente ambio, senhor.
Digamos que Carol foi envolvida pelo sucesso, o que tambm se aplica  mame. No  fcil parar
alguma coisa quando mame espera continuar e continuar.
Uma carruagem puxada por cavalos passava agora, a galope, pela rua principal, perseguida
por uma multido aos berros, embolada, excitada. Atrs dela vinha um pequeno destacamento de
policiais, aparentemente porque a pessoa de barba branca na carruagem atirava mancheias de jias
em todas as direes, da maneira mais displicente possvel. "Principalmente, jias rabes e tesouros
de piratas", pensou Carol. Queria saber se seriam de vidro ou jias verdadeiras.
- Pobre Bimbo - disse Melville. - Nestes dias, considera-se uma espcie de majestoso
Papai Noel. J desempenhou esse papel um nmero excessivo de vezes. Acho que deveria se
aposentar.
-  uma pena mame ter mandado o txi esperar - disse Chrestomanci a Carol.
- Aqueles no so Francis, Martha e Paul? Entrando no cassino?
Eram. Carol os viu, danando de braos entrelaados, subindo os degraus de mrmore, trs
pessoas obviamente caindo na farra.
- Paul - disse Melville - me disse ter um sistema para quebrar a banca.
- Uma iluso bastante comum - ponderou Chrestomanci.
- Mas ele no pode! - exclamou Carol. - No tem dinheiro de verdade! - Enquanto
falava, deu uma olhada furtiva para baixo. O pingente de diamante havia desaparecido e tambm o
broche. As pulseiras de safira e todas as de ouro estavam faltando. At os fechos da bolsa haviam
sido arrancados. - Eles me roubaram? - gritou.
- Isso seria coisa de Martha - imaginou Melville tristemente. - Lembre-se de que ela
batia carteiras em o tirano da cidade de Londres.
- Parece que voc lhes deve uma soma considervel em honorrios - esclareceu
Chrestomanci.
- E o que devo fazer? - lamentou-se Carol. - Como farei para que voltem?
Melville olhou para ela, preocupado. A expresso lembrava uma careta desprezvel, mas
Carol entendeu perfeitamente.
Melville era adorvel. Chrestomanci simplesmente olhou surpreso e um pouco aborrecido.
- Quer dizer que deseja que todas essas pessoas voltem? - perguntou.
Carol abriu a boca para responder que sim, claro que desejava! Mas no disse. Eles estavam
se divertindo tanto. Para Bimbo, era a oportunidade de sua vida, galopando pelas ruas, jogando
jias. Na praia, as pessoas formavam uma massa alegre.
Nos cafs, garons corriam para todos os lados, anotando pedidos, pousando pratos e copos
em frente ao elenco de milhares.
Carol esperava que eles estivessem usando dinheiro de verdade.
Se virasse a cabea, veria que uma parte do elenco de milhares chegara ao campo de golfe,
onde a maioria deles parecia imaginar que golfe era um jogo de equipes que se jogava mais ou
menos como hquei.
- Enquanto Carol decide - disse Chrestomanci -, qual, Melville,  sua opinio sobre os
sonhos dela? Como uma pessoa com um ponto de vista interior?
Melville comeou a mexer no bigode, sentindo-se pouco  vontade.
- Temia que fosse me perguntar isso - respondeu. - Ela tem um talento tremendo,
evidentemente, ou no conseguiria fazer o que faz, mas, por vezes, sinto que ela... bem... ela
se repete.
Vamos colocar do seguinte modo: creio que Carol no se permite ser ela mesma e faz o
mesmo conosco.
Carol compreendeu que Melville era a nica outra pessoa de quem realmente gostava.
Estava profundamente enjoada de todos os outros. Embora no o tivesse admitido, j estava farta
deles h anos, mas nunca tivera tempo de pensar em algum mais interessante, por estar sempre
ocupada com o sonho seguinte. E se demitisse todos? Aquilo no feriria os sentimentos de
Melville?
- Melville - perguntou ela ansiosamente -, voc gosta de fazer papis de viles?
- Minha querida - respondeu Melville -, isso depende inteiramente de voc, mas
confesso que algumas vezes gostaria de tentar ser algum... bem... com um corao no to negro.
Digamos, mais acinzentado, e um pouco mais complicado.
Aquilo era difcil.
- Para fazer isso - disse Carol, pensando a respeito - teria de ficar um certo perodo sem
sonhar e passar um tempo, talvez um longo tempo, como que adquirindo uma nova perspectiva das
pessoas. Voc se importaria de esperar? Isso pode levar mais de um ano.
- De maneira alguma - respondeu Melville. - Pode me chamar quando precisar de mim.
- E curvou-se para beijar a mo de Carol, de seu modo mais desprezvel...
... E Carol encontrava-se mais uma vez sentada na espreguiadeira. Dessa vez, no entanto,
esfregava os olhos, e o terrao estava vazio, com exceo de Chrestomanci segurando uma cadeira
quebrada e falando, aparentemente em italiano, com um menino magro. O garoto, provavelmente,
viera da piscina.
Vestia roupa de banho e pingava gua por todo o pavimento.
- Oh - disse Carol. - Ento tudo no passou de um sonho!
- Observou que, enquanto dormia, a sombrinha havia cado, e estendeu o brao para peg-la.
Algum, aparentemente, a pisara. E em seu vestido havia uma grande gota de doce. Depois,
evidentemente, procurou o broche, o pendente e as pulseiras.
Haviam sumido. Algum rasgara seu vestido ao puxar o broche.
Seus olhos saltaram para a balaustrada, onde estava uma pequena panela queimada.
Diante daquilo, Carol correu para a balaustrada, com a esperana de ver Melville descendo
as escadas. Ningum descia os degraus. Mas chegou bem a tempo de ver a carruagem de Bimbo
cercada pelos policiais, parada no final do desfile.
Bimbo no parecia estar dentro dela. Era como se ele tivesse desempenhado o ato de
desaparecer, que ela inventou em O aleijado de Monte Cristo. L embaixo, na praia, as multides do
elenco de milhares saam da gua, deitando-se para um banho de sol ou, educadamente, pedindo aos
freqentadores habituais que emprestassem bolas de praia. Na verdade, ela quase no as conseguia
distinguir dos turistas comuns. No campo de golfe, um homem de jaqueta vermelha organizava o
elenco de milhares, colocando os personagens em fila para praticar tacadas. Carol olhou ento para
o cassino, mas no havia sinal de Paul, Martha ou Francis.
Ao redor da praa, no entanto, a cantoria transbordava dos cafs, um canto constante, cada
vez mais intenso, porque, claro, havia uma grande concentrao de coros no elenco de milhares.
Carol virou-se e olhou acusadoramente para Chrestomanci.
Chrestomanci interrompeu a conversa em italiano para se aproximar com o menino, uma
das mos pousada sobre o seu ombro molhado e magro.
- Tonino - informou-a -  um mago relativamente incomum. Ele intensifica a magia de
outras pessoas. Quando vi a direo que seus sonhos estavam tomando, achei que seria melhor t-lo
aqui para apoiar a sua deciso. Suspeitei de que voc talvez fosse fazer uma coisa dessas. Por isso,
no queria reprteres. Gostaria de descer at a piscina? Tenho certeza de que Janet poder lhe
emprestar uma roupa de banho e, provavelmente, tambm um vestido limpo.
- Bem... obrigada... sim, por favor... mas... - comeou Carol, quando o menininho
apontou para alguma coisa por trs dela.
- Eu fala ingls - disse. - Papel caiu.
Carol virou-se e o pegou. Em belas letras inclinadas, estava escrito:
Por meio desta, Carol Oneir libera Francis, Lucy, Martha, Paul e Bimbo de todos os
prximos deveres profissionais e d ao elenco de milhares permisso para ausncia por tempo
indefinido. Estou tirando frias com sua gentil permisso e subscrevo-me.
A seu inteiro dispor, Melville.
- Oh, que bom! - exclamou Carol. - E agora? O que farei com relao ao senhor Ploys.
E como falarei com mame?
- Posso falar com Ploys - respondeu Chrestomanci -, mas sua mame  um problema
estritamente seu, embora seu pai, quando voltar do cassino, digo, da pescaria, certamente a apoiar.
Algumas horas mais tarde, papai realmente apoiou Carol, e lidar com mame mostrou-se
mais fcil do que o normal, porque ela estava muito constrangida pela maneira como havia
confundido a esposa de Chrestomanci com uma empregada.
Naquele momento, entretanto, a principal coisa que Carol queria contar a papai era que a
haviam jogado do trampolim mais de 16 vezes e que aprendera a nadar duas braadas, bem, quase.

                                 *  *

DIANA WYNNE JONES tem sido descrita como "uma mestra moderna da magia",
depois que seus livros, onde a magia e a vida mundana se misturam,atingiram nveis
estratosfricos de popularidade em ambos os lados do Atlntico. A srie de romances
apresentando Chrestomanci, "o mago mais poderoso do mundo", tornou-se
especialmente conhecida desde a publicao do primeiro, Charmed Life, em 1977. Na
verdade, muitos leitores so de opinio de que as histrias sobre o mago de elevada
estatura, elegante e ilustre merecem o mesmo status de admirao que os romances
de Harry Potter. Diana Wynne Jones comeou a escrever histrias de fantasia em
1970. Recentemente, o US News and World Report sugeriu: "Louco por causa de
Harry? Tente Diana."

                                  * *

AGRADECIMENTOS

Os editores so gratos aos seguintes autores, seus editores e agentes por permitirem a incluso de
suas histrias nesta coletnea:
"School for the Unspeakable" (A Escola para o Extraordinrio), de Manly Wade Wellman.
Copyright (c) 1937 com Popular Fiction Publishing Company. Reeditado com autorizao de David
Drake, herdeiro do esplio de Manly Wade Wellman.
"The Demon Headmaster" (O Diretor Demnio), de Gillian Cross. Reeditado com
autorizao da Oxford University Press.
"Ghostclusters" (Bandos de Fantasmas), de Humphrey Carpenter. Copyright (c) 1989.
Reeditado com autorizao de Puffin Books.
"Grimnir and Shape-Shifter" (Grimnir e a Alteradora de Formas), de Alan Garner.
Reeditado com autorizao de Harper Collins Publishers.
"Dark Oliver" (O Misterioso Oliver), de Russel Hoban. Reeditado com autorizao de
David Higham Associates.
"Finders Keepers" (Os Guardies do Descobridor), de Joan Aiken. Copyright (c) Joan Aiken
Enterprises Ltd. e reeditado com permisso de A. M. Heath & Co. Ltd.
"The Magic of Flying" (A Magia de Voar), de Jacqueline Wilson. Reeditado com permisso
da Oxford University Press.
"Chinese Puzzle" (O Enigma Chins), de John Wyndham. Reeditado com permisso de
David Higham Associates.
"The Wish" (O Desejo), de Roald Dahl. Reeditado com permisso de David Higham
Associates.
"Invisible Boy" (O Menino Invisvel), de Ray Bradbury. Reeditado com permisso de
Abner Stein and Don Congdon Associates.
"My Name is Dolly" (Meu Nome  Dolly), de William F. Nolan. Copyright (c) 1987 e
reeditado com permisso do autor.
"Something to Read" (Algo para Ler), de Philip Pullman. Reeditado com permisso de A. P
Watt Ltd.
"Carol Oneir's Hundredth Dream" (O Centsimo Sonho de Carol Oneir), de Diana Wynne
Jones. Reeditado com permisso de HarperCollins Publishers.
Com agradecimentos especiais a Mike Ashley, David Drake, William Nolan e Philip
Pullman, com sua ajuda na organizao desta coletnea.

'1 Morrigan - Tambm conhecida na Bretanha, Gales e Irlanda como as Ires Morrigans, devido ao aspecto trplice e
forma mutvel, sendo associada aos corvos e s gralhas. (N.T.)

'1 Uma vila na parte oriental da Inglaterra, a nordeste de Londres. A cidade foi saqueada pelos dinamarqueses no sculo XI
e devastada pela peste negra em 1348. (N.T.)

'1Daemon  um esprito animal que assume mltiplas formas e acompanha uma criana,
dando-lhe conforto.

'2 Intercision  uma operao para separar o daemon da criana.
